Por Fora
das Pistas

Notícias

2 de outubro de 2016

Uma aldeia dos cavalos escondida no coração de Lisboa

Ao fundo passa a segunda circular, avista-se o estádio de Alvalade, do lado oposto, entre as árvores, vê-se a silhueta da Reitoria da Universidade de Lisboa. Mas de nenhum destes pontos é possível descortinar a verdadeira “aldeia” que se esconde no coração da cidade, com uns residentes no mínimo… especiais. Leia-se cavalos. São em média 350 os que moram ali, no centro da capital, nos dez hectares de terreno ocupados pelo Hipódromo de Lisboa.

Foi ali que, no início dos anos 30 do século XX se instalou a Sociedade Hípica Portuguesa (SHP), depois de o hipódromo ter passado pela Palhavã (entre 1911 e 1918) e Sete Rios (até 1930). A SHP, hoje uma instituição de utilidade pública, já vem de antes: “Somos um clube centenário, nascido em 1910, ainda no tempo da monarquia. Temos 106 anos de idade”, diz o presidente, José Manuel Figueiredo.

Os terrenos são patrimônios do Estado, com uma concessão atribuída à SHP, renovável a cada 40 anos. O presidente da Sociedade Hípica admite com facilidade que os dez hectares ocupados pelo hipódromo “são valiosíssimos”. Há, aliás, um longo historial de tentativas de deslocalização a prová-lo – “Muitos tentaram e nunca ninguém conseguiu.” Em 2003, o então presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Pedro Santana Lopes, anunciava a intenção de transferir o hipódromo (em conjunto com a Feira Popular) para o Parque Florestal Monsanto, mas mesmo com a concordância da SHP, o projeto nunca avançou.

Ainda assim, o hipódromo já chegou a ter 15 hectares, mas foi perdendo “algumas fatias” – os terrenos onde hoje estão as piscinas do Campo Grande integravam originalmente a concessão atribuída à SHP, mas não estavam a ser utilizados, pelo que foram cedidos.

Uma aldeia no meio da cidade
Quem entra no hipódromo, ao lado das piscinas do Campo Grande, parece ter saído da cidade diretamente para uma pequena aldeia. As construções são térreas, pintadas de branco, estão de porta aberta. Passariam por pequenas casas, não fossem os cavalos que espreitam pelos postigos.

Estamos na “zona residencial” dos equinos, portanto nas cavalariças – 400 boxes onde, em média, 350 cavalos vivem em permanência (segundo José Manuel Figueiredo com lotação esgotada, já que parte das boxes são usadas como palheiros). Mas existem mesmo casas no hipódromo e funcionários que vivem nelas – “Há famílias que vivem cá dentro, já vem dos anos 30/40, passa de geração em geração”.

Esta é a zona de “bastidores”, depois há a zona de treino e competição. Os dez hectares do hipódromo albergam um campo relvado de competição e dois campos exteriores de treino, três picadeiros cobertos e um quarto atribuído à Associação de Paralisia Cerebral de Lisboa (APCL), no âmbito de um protocolo para um Centro de Equitação Terapêutica, vigente desde cerca do ano 2000. E um restaurante.

O campo relvado principal é palco habitual de provas hípicas e alvo de todos os cuidados. José Manuel Figueiredo relata que, trinta centímetros abaixo do tapete relvado do campo, se distribuem tubos de irrigação geridos por um computador que controla, por exemplo, o nível de humildade do campo – “É o rolls royce dos pisos de equitação”. Ali decorrem habitualmente provas nacionais e não só.”.

“Isto não é um clube privado”

José Manuel Figueiredo recusa que este seja um espaço elitista usufruído por uma minoria e sustenta que o hipódromo está aberto a todos, seja para ver competições hípicas ou simplesmente para passear. “Isto não é um clube privado para montar a cavalo. Qualquer pessoa pode entrar pelo portão, vir ver, vir assistir, passear, almoçar, somos um espaço aberto à sociedade. Só é obrigatório ser-se sócio para a prática da modalidade de hipismo”.

E se ter e manter um cavalo não é para qualquer carteira (além do custo do próprio animal, implica pagar uma boxe no hipódromo e um tratador), o presidente da SHP garante que este é um equipamento ao serviço dos lisboetas. “Temos uma escola de equitação, aberta a todos, com preços muito acessíveis, porventura os mais acessíveis que se praticam em Portugal.

Qualquer família de classe média, com rendimentos médios, pode ter os filhos na escola de equitação, paga 17 euros por trimestre. Qualquer piscina pública custa mais do que isto”, defende. A localização é uma mais valia no objetivo de “fomentar o ensino e a aprendizagem da equitação”: “O fato de estarmos no coração de Lisboa traz aqui muitos jovens. Ao final da tarde isto está cheio de jovens, que vêm depois das aulas”.

Fonte: Dn.pt

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