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“Ter um time forte e uma equipe preparada é algo que eu trouxe da empresa para o esporte” Marcio Appel, sócio da Bom Sabor ( foto: Frederico Jean/Ag. IstoÉ)

12 de agosto de 2016

Sócio da empresa Bom Sabor, Marcio Appel estreia na Olimpíada com a estratégia de usar na competição o que aprendeu como empresário

Nos restaurantes espalhados pelos 1,2 milhão de metros quadrados do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, onde serão disputadas 16 modalidades esportivas, não podem faltar sachês de mostarda, catchup ou maionese para atender cerca de 200 mil pessoas que vão circular diariamente por ali.

O empresário Marcio Appel está em Deodoro, não muito distante do principal centro de competições dos Jogos Rio 2016, mas não demonstra nenhuma preocupação com o reabastecimento dos produtos. Sócio da Bom Sabor, empresa paulista fornecedora oficial do evento, fundada há 61 anos por seu avô, o austríaco Leopold, ele está no Rio de Janeiro com um único negócio para resolver: estrear numa Olimpíada como cavaleiro da equipe brasileira de hipismo.

“O sonho de qualquer garoto que pratica esporte é estar aqui na Olimpíada”, diz Appel à DINHEIRO, após um treinamento, a três dias da estréia, debaixo de uma fina garoa para aclimatar seu cavalo Iberon Jmen ao local. “Eu tracei uma estratégia de curto e médio prazo, há quatro anos, e deu certo.”

O empresário Appel ajudou o atleta Marcio a alcançar esse objetivo. Se a meta era chegar aos Jogos Olímpicos, a estratégia passava por uma reinvenção pessoal: trocar o salto pelo Conjunto Completo de Equitação (CCE), uma espécie de triatlo do hipismo, que reúne adestramento, cross-country e salto. A decisão foi tomada ao acaso, após a Olimpíada de Londres, em 2012, ao perceber que o seu cavalo teria facilidade com a modalidade. O acerto, porém, foi parcial: o cavalo decepcionou, mas o cavaleiro Marcio Appel se adaptou tão bem que os resultados começaram a aparecer rapidamente, como o vice-campeonato brasileiro no ano passado e a segunda colocação no evento-teste da Olimpíada. O sucesso resultou na convocação para a seleção brasileira. “Quando mudei para o CCE, enxerguei a possibilidade de vir para a Olimpíada”, diz Appel. “Meu melhor exemplo foi ter usado parte de metas e estratégias da empresa dentro do esporte.”

A diferença entre Appel, seus companheiros e quase a totalidade dos participantes da Olimpíada é que ele precisa dividir seu dia entre o esporte de alto rendimento e a vida de empresário. Enquanto os cavaleiros profissionais montam, diariamente, oito cavalos em média, Appel consegue trabalhar em cerca de três, nas duas horas que está na Hípica Santo Amaro, um tradicional clube paulistano, onde realiza seus treinamentos. “Quando estou na empresa, estou focado e fazendo o melhor. E quando estou no cavalo é a mesma coisa”, afirma ele. “Às vezes, não é a quantidade de tempo, mas talvez a intensidade que você faz.” Nos últimos seis meses, porém, essa rotina foi posta à prova e exigiu dele uma grande habilidade para conduzir seu negócio. Entre janeiro e maio, ele dividiu seu tempo entre São Paulo e os treinamentos específicos realizados nos Estados Unidos e na Inglaterra. Foram muitas horas gastas em skype, whatsapp e e-mails, com a certeza de que trabalhar a distância também pode ser produtivo e dar resultados. “Nos últimos dois meses, com a proximidade dos Jogos, passei a delegar mais. Nesta reta final, não quero saber de trabalho”, afirma ele. “Isso foi algo bom, porque fui obrigado a aprender a delegar. Sabia que ia ter esse momento e fui preparando a minha equipe para poder administrar a empresa sem a minha presença.”

Aos 37 anos de idade e há 31 anos como cavaleiro, o empresário não precisa da juventude exigida para nadadores, corredores ou ginastas. Mesmo assim, ainda é considerado um novato na modalidade. Ao lado de Marcio Carvalho Jorge, Ruy Fonseca e Carlos Parros, Appel vai disputar o CCE nas categorias individual (um total de 68 participantes) e por equipes (13 países). A estreia da equipe na Olimpíada foi marcada para o sábado 6, no primeiro dia de competição. A possibilidade de medalha existe para o conjunto. Para ele, a vitória será chegar na final onde 20 competidores disputam o ouro. “Todos se dedicaram muito nos últimos meses e evoluíram bastante”, diz Anna Ross Davies, amazona inglesa responsável pelo adestramento da equipe brasileira. “Mas eles ainda são muito novos e terão um bom futuro.” Com meta e estratégia, Appel vai fazer de tudo para ajudar o time do Brasil a chegar lá.

Responsável pela área comercial da Bom Sabor, empresa especializada na fabricação de embalagens sachê, Marcio Appel une a rotina de empresário com a de atleta de alto rendimento. Confira, abaixo, como ele lida com essas duas profissões:

Como unir o lado empresário com o atleta?
Aproveito demais meu lado empresário no esportista e o de esportista no empresário. Ter um time forte e uma equipe preparada é algo que eu trouxe da empresa para o esporte. Trabalhar com planejamento e metas, também. E do esporte para a empresa toda essa parte de competição e garra, que para um negócio é importante.

As decisões como empresário influenciam no esporte?
Meu maior exemplo é com metas e estratégias. Usei mais da empresa para o esporte. Tracei nos últimos quatro anos todas as minhas metas anuais de curto e médio prazo, começando pela equipe que queria que trabalhasse comigo. Em geral, os cavaleiros não veem esse lado. Estou na empresa para vender, então é uma competição, principalmente nesse momento mais complicado da economia. Mas lidar com concorrentes, tomar decisões rápidas e ter flexibilidade em vários momentos foi o esporte que me ajudou.

Nunca chegou o momento de decidir entre o esporte ou o negócio?
Minha mãe sempre falou para mim que era possível conciliar os dois. Claro que eu tenho um pouco mais de facilidade, por ser minha empresa. Tenho flexibilidade de horário que até um executivo não teria, por exemplo. Também é um esporte que precisa ter recursos para se financiar. No Brasil, não tem tanto apoio. Nesse momento, acreditamos que é possível trabalhar e me dedicar ao esporte.

Você trocaria o lucro da Bom Sabor por uma medalha?
Uma grande lição que eu tive foi aprender a trocar a palavra “ou” pela vogal “e”. Para mim, não é você é esportista ou empresário. Aprendi que dá para tentar o e: empresário e cavaleiro. Há momentos para cada um deles. Espero um grande lucro e que ainda venha uma medalha.

Como a empresa está enfrentando essa crise econômica?
Esses últimos dois anos no Brasil não foram fáceis. Mas isso fez com que nossa empresa se reinventasse. Todo empresário teve que cortar os desperdícios para ganhar o máximo de eficiência. Estamos num bom momento, continuamos crescendo. Nos últimos 10 anos, nossa média era de quase 20% de crescimento, tirando o ano passado. Este ano, voltamos a crescer mais perto desses 20% no primeiro semestre. Nosso mercado melhorou um pouco e as nossas ações contra a crise surtiram efeito, como novos produtos e novos mercados. Sairemos mais fortes desse momento do que quando entramos.

Fonte: Isto É

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