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23 de fevereiro de 2018

Saúde Animal – Síndrome da Exaustão Equina

Exaustão é uma síndrome caracterizada por transtornos físicos e mentais, desencadeados por exercícios físicos intensos em condições de calor e umidade elevados, ocorrendo devido uma sobrecarga ou falha no sistema de termorregulação eqüina. Durante a atividade física, em condições de temperatura e umidade elevadas, a termorregulação fica comprometida e o organismo eqüino apresenta dificuldades para conseguir eliminar o calor gerado pela musculatura exercitada, acrescido do calor ambiente. Quanto maior forem a temperatura e a umidade ambiente, menor será a perda de calor.

Dois mecanismos são utilizados pelo cavalo para promover a termorregulação:
Sudorese: A sudorese realizada pela pele, como no homem, trata-se do principal mecanismo. A eficiência da termorregulação eqüina através do suor dependerá da sua evaporação, a qual se tornará diminuída ou impedida se o ar estiver saturado de umidade.

Ventilação: Durante a inspiração, parte do calor corpóreo é transmitido da mucosa do trato respiratório superior para o ar, que ao chegar aos alvéolos é saturado com vapor de água. Na expiração parte desse calor volta para a mucosa e ocorre uma porcentagem de condensação da água. A diferença entre o calor transferido para o ar inspirado e o calor transferido de volta para as mucosas é o resultado da perda de calor pelo trato respiratório.

Quando corridas de cavalos, provas de enduro ou provas de fundo do Concurso Completo de Equitação são realizadas em climas extremamente quentes, aumentam concomitantemente as demandas de energia e irrigação sanguínea para a musculatura continuar a se exercitar, e para a pele promover a troca calórica. Para tanto, o sistema cardiovascular aumenta o seu trabalho, elevando a freqüência cardíaca e o volume sanguíneo ejetado pelo coração. Caso a perda de água e eletrólitos (sais orgânicos) através do suor for intensa, ou o cavalo apresentar-se levemente desidratado anterior a competição, o volume de sangue a ser movido pelo coração estará diminuído, a pressão arterial sofrerá queda e em resposta o coração irá trabalhar mais intensamente.

Com a diminuição do volume sanguíneo, o fluxo para a pele estará diminuído, assim como a sudorese, prejudicando a termorregulação; além disso, menor quantidade de substratos energéticos chegarão à musculatura e ao sistema nervoso central podendo levar ao colapso e morte.

Devido à deficiência na termorregulação, ocorrerá a hipertermia (aumento da temperatura corporal), a qual terá efeitos avassaladores sobre todos os tecidos orgânicos, principalmente, cérebro, coração, vasos sanguíneos, rins, fígado, pulmões e musculatura esquelética.
O rápido reconhecimento e o tratamento da condição reduzem a severidade da síndrome de exaustão.

Os animais afetados apresentam sinais de stress, fadiga significativa, desidratação, e elevação persistente da freqüência cardíaca e respiratória.

Nos animais com bom condicionamento físico e boa função do sistema termorregulatório, após um período de repouso de 30 minutos, a freqüência cardíaca deve baixar para menos de 55 batimentos por minuto, a respiratória para 25 movimentos respiratórios por minuto e a temperatura corporal para menos de 39,5° C.

Qualquer animal que apresente uma elevação significativa e persistente da freqüência cardíaca e respiratória, ou da temperatura retal, não deve continuar o exercício ao qual estava sendo submetido.

Estes animais devem receber pequenas quantidades de água fresca, em intervalos freqüentes, e permitido o acesso a uma comida palatável, além disso, devem ser observados de perto até a sua completa recuperação.

Cavalos que apresentarem uma elevação marcante da temperatura retal (maior que 40,5°C) devem ser resfriados o mais rápido possível. Banhos de mangueira com água fria sob a brisa natural em um ambiente aberto auxiliam na perda de calor por convecção e evaporação. Atenção especial deve ser dada no resfriamento da cabeça, do pescoço e de grandes vasos subcutâneos entre os membros posteriores.

Enemas com água fria e administração de fluidos via sonda nasogástrica também auxiliam na diminuição da temperatura corpórea. A fluidoterapia deve ser instituída imediatamente nos animais que apresentarem sinais severos ou que não responderem de forma efetiva ao tratamento conservador dentro de 30 minutos. O volume exato e a via de administração irão depender da severidade dos sinais clínicos.

Na grande maioria das vezes a via de eleição é a intravenosa, e o volume a ser administrado pode ser superior a 50 litros de solução isotônica.

Os animais afetados por síndrome de exaustão não devem ser transportados nas 12 a 24 horas subseqüentes, porque uma alta atividade muscular está associada ao transporte prolongado, o que aumenta os riscos do desenvolvimento de problemas pós-exaustão. Isto inclui problemas musculares severos, laminite (aguamento) e falência renal.

Os riscos de um animal desenvolver síndrome de exaustão são reduzidos com uma preparação adequada e um manejo cuidadoso durante as competições, sempre levando em conta os efeitos das condições climáticas (umidade relativa do ar e temperatura ambiente) durante o evento.

Referências Bibliográficas
MCCONAGHY, F. Thermoregulation. In: HODGSON, D. R.; ROSE, R.J. The Atletic Horse. Philadelphia, U.S.A.: W.B. Saunders, 1994. p. 181-199.
MONREAL, L.; SEGURA, D. Urgencias metabólicas post-esfuerzo. In: BARCELONA, F.V.; MONREAL, L. Consulta de Difusión Veterinaria. Valencia, Spain, v. 08, p. 47-56, 2000.
CLAYTON, H. M. Endurance Racing. In: Conditioning Sport Horses. Saskatoon, Canada, v. 18, p.213-228, 1991.

Dr. Mauricio José Bittar é Médico Veterinário oficial da ABHIR (Associação Brasileira de Hipismo Rural) e atua nas áreas de Clínica, Radiologia, Anestesiologia, Odontologia e Medicina Esportiva Eqüina.

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