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Cavalos no Egito; foto: David Degner/The New York Times

19 de novembro de 2016

Queda do turismo no Egito faz cavalos passarem fome e precisarem de ajuda

Em um estábulo úmido, à sombra das pirâmides, há um garanhão deitado no chão com uma pata engessada. O dono, Farag Abu Ghoneim, assiste de perto ao tratamento dado ao animal pela enfermeira australiana Jill Barton.

Ela veio ao Egito para conhecer as pirâmides, em 2013, mas acabou ficando para ajudar os cavalos maltratados de Nazlet el-Samman, uma espécie de favela da região.

“Ele não vai melhorar. Você tem de deixá-lo descansar”, disse a enfermeira. Abu Ghoneim fechou a cara. “Cabe a Deus e só a Deus tirar uma vida”, disse.

Barton encara uma forte resistência dos moradores do local, que sempre viram cavalos como animais de trabalho e não costumam se envolver emocionalmente com suas dores. Muitas vezes ela defende a eutanásia, mas os donos querem que os animais trabalhem até o fim.

Há gerações, os homens de Nazlet el-Samman ganham a vida oferecendo cavalos e camelos para que turistas passeiem em torno das pirâmides. Ou, como Abu Ghoneim, alugam cavalos para desfiles em casamentos, usando ornamentos vistosos.

Os homens ganham o equivalente a US$ 7 (R$ 24) por hora por um passeio a cavalo em volta das pirâmides, e uma dança equina de 20 minutos custa US$ 20 (R$ 68) num casamento.

Depois da Primavera Árabe, o levante da população contra o governo do país em 2011, o turismo no Egito sofreu um colapso, caindo de 14,7 milhões de visitantes em 2010 para 3,3 milhões neste ano. Isso fez com que os cavalos passassem fome. Camelos foram abatidos, e sua carne, vendida a açougues.

Seguindo o exemplo de um veterinário do Brooke Hospital for Animals, que há anos faz visitas semanais gratuitas ao local, diversas organizações de defesa dos direitos dos animais correram para ajudar. Uma delas alimentou os cavalos de graça até que seu dinheiro acabasse.

Ahmed al-Shurbaji, que opera um abrigo para cachorros na região, às vezes visita a comunidade com um veterinário para oferecer tratamento aos animais machucados.

MISSÃO

Barton disse que, quando chegou ao Egito, se apresentou como voluntária a um abrigo de animais, mas logo percebeu que a organização negligenciava cavalos e burros que dizia salvar. Depois disso, decidiu usar suas economias para criar a Egypt Equine Aid. A clínica gratuita fica no subúrbio do Cairo e, em dois anos, tratou mais de 300 cavalos e burros.

Ficar no Egito foi um chamado para Barton. Isso também representa uma “dívida”, disse ela, que acredita que os cavalos descendam dos Australian Walers. Essa variedade de animal foi deixada no país pelas tropas britânicas depois da Primeira Guerra Mundial, último conflito em que equinos foram usados em larga escala. Parte dos animais foi vendida ao exército britânico na Índia, outra parte aos egípcios.

Em recente visita a Nazlet al-Samman em companhia de Barton, a sensação era de que o local mal havia mudado desde 1931, quando Dorothy Brooke, uma inglesa moradora do Cairo, escreveu uma carta a um jornal britânico solicitando doações para promover a eutanásia de cavalos envelhecidos vendidos pelos britânicos.

Há animais em toda parte na favela, amarrados a cochos que ladeiam vielas e as tornam parecidas a um estacionamento equino. Muitos deles estão com os ossos aparecendo sob a pele.

Homens apanham seus filhos na escola usando charretes puxadas por cavalos. Também as empregam para carregar compras. Quando surge a notícia de que há turistas nas pirâmides, alguns apanham os animais e vão lá.

O cavalo de Abu Ghoneim é a única fonte de renda para as 12 pessoas da sua família e lhes gera cerca de US$ 100 por semana desfilando em casamentos. Ele vendeu os 36 cavalos que tinha em seu estábulo anos atrás, quando o turismo despencou.

Vendo o animal se contorcer, Abu Ghoneim concordou com a eutanásia. Depois, voltou atrás. No fim, foi preciso mais uma semana de insistência de Barton para que ele permitisse. “Agora acabou. Não há mais festas. Não sobrou coisa alguma”, disse.

Ele afirmou que quer comprar outro cavalo em breve. “Amanhã”, disse Abu Ghoneim, em tom esperançoso.

Fonte: Folha/ Uol – Tradução de PAULO MIGLIACC

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