Por Fora
das Pistas

Acontece

A Hípica, na Lagoa, Rio de Janeiro, é um dos locais favoritos de Pessoa no Brasil. Ele nasceu em Paris e hoje vive e treina na Bélgica (Foto: Agencia O Globo)

2 de novembro de 2015

O cavaleiro Rodrigo Pessoa e a arte de liderar equipes em grandes saltos

Credenciais não faltam a Rodrigo Pessoa. Em 25 anos de carreira, ele construiu uma das histórias de maior sucesso do hipismo internacional. Foi três vezes campeão mundial e medalhista olímpico (ganhou duas de bronze por equipe e uma individual de ouro). Além dos títulos, surpreende pela linhagem. O primeiro Pessoa do qual se tem notícia, Affonso, lidava com cavalos. Era o domador oficial dos animais de Dom João I, no século 14, em Portugal. Rodrigo, para completar, é filho de Nelson Pessoa, o Neco, um dos cavaleiros mais importantes de sua geração. Levantou dezenas de canecos na Europa e ajudou a treinar diversos campeões.

Esse currículo todo, no entanto, não é de grande serventia na hora de transpor um dos mais complexos obstáculos na vida de um cavaleiro – conquistar a confiança do cavalo escolhido para competir. O animal e o homem precisam agir em perfeita sinergia. Isso para que ambos atinjam um ponto no qual é possível cavalgar com balanço, equilíbrio, elegância e, ao mesmo tempo, transpor barreiras que se sucedem, com saltos de quase 2 metros de altura. “A autoridade, por si só, não conta muito”, diz Pessoa. “Se você não é capaz de conquistar o respeito do animal e criar alguma afinidade, será impossível estabelecer qualquer tipo de comando.”

Em uma prova de saltos, a liderança é exercida de maneira sutil, embora os comandos não possam ser menos do que claros. O cavalo tem de identificá-los imediatamente. Contam, por exemplo, a posição do joelho do cavaleiro, um pouco mais para frente ou para trás, a pressão que faz com as pernas na barriga do animal e a inclinação do corpo. Essas são referências para a velocidade que o cavalo deve imprimir até o próximo salto. “É preciso ser capaz de sentir o que o cavalo está pedindo”, afirma Pessoa. “Depois, entregamos as respostas a ele rapidamente.” Parece simples? Pois se trata de um exercício dificílimo. Cavalos não aceitam ser domados com docilidade. Principalmente, em se tratando de garanhões ariscos. “O desejo deles é outro”, diz Pessoa. “Eles querem ser orientados e participar de forma igualitária das provas e das conquistas.”

A relação do cavaleiro para com o cavalo é de uma liderança exercida por meio de perspicácia mútua. Tanto é assim que instituições como a London Business School recorrem a centros de equoterapia para formação de executivos. O objetivo? Ajudar os participantes a perceber os sinais inconscientes que recebem de suas equipes e também os sinais que enviam, mesmo sem notar. “Para comandar um cavalo, é necessário ser firme e objetivo, mas sem agressividade”, diz Eduardo Moreira, autor do best-seller Encantadores de Vidas, no qual descreve os métodos de Monty Roberts, um dos mais famosos domadores de cavalos do mundo.

Um teste importante para perceber como se dará a relação entre cavalo e cavaleiro acontece no redondel. Trata-se de um espaço circular, como o picadeiro de um circo. O homem posta-se no centro, como se fosse a base de um compasso. O animal, preso por uma corda, gira pelo perímetro da área. A pessoa emite comandos para que, por exemplo, o cavalo se aproxime ou caminhe (com variações na velocidade). Quando o líder excede no quesito agressividade, é comum que o animal dispare abruptamente. Ou então, sem uma orientação clara, o bicho balança a cabeça e não dá a menor bola para os comandos. “A relação entre cavalos e cavaleiros é uma das mais honestas e transparentes do esporte”, diz Moreira. “Se não há respeito, não há relação.”

No meio do caminho, um obstáculo
O bom cavaleiro precisa ainda aprender a se concentrar no presente, adotando a filosofia do “um obstáculo de cada vez”. Não pode lamentar as dificuldades anteriores, nem mesmo ficar ruminando sobre como será difícil ultrapassar as próximas barreiras. O olho no retrovisor (observando o passado) ou na lupa (mirando o futuro) obscurece o momento de decisão. E liderar é, afinal, decidir. Para um atleta, poucas atitudes podem ser tão devastadoras como a incapacidade de enfrentar situações adversas com a serenidade e a firmeza necessárias a esse tipo de situação. “As dificuldades devem ser encaradas como passagens necessárias”, diz Pessoa. “Tem gente que passa por fracassos e não se levanta, mas eu, ao contrário, sempre escolhi levantar.”

O maior baque de Pessoa aconteceu na Olimpíada de Sydney, em 2000, com o refugo de seu cavalo Baloubet du Rouet, na prova que poderia garantir o ouro. A pressão era grande, mas o atleta entrou na pista certo de sua vitória. Era o cavaleiro favorito – não havia cometido uma única falta no torneio todo – e montava o melhor animal daquele momento nas competições. Da raçã sela francês, cruzamento entre garanhões puro-sangue inglês com éguas sela anglo-normandas, Baloubet era o craque do hipismo. Circulava com charme e saltava com exatidão e maestria. Mas na hora H, na prova decisiva, amarelou (refugou, como se diz no jargão). Parou por três vezes, diante de diferentes obstáculos. “Para mim, foi uma porrada, uma derrota brutal”, diz Pessoa. “Passei muitas noites sem dormir, fiquei abalado.” Na ocasião, foram muitas as hipóteses levantadas sobre o refugo de Baloubet – culpou-se o vento (que teria estressado o cavalo), o esforço desmedido no obstáculo anterior e, claro, o próprio Pessoa.
O bom cavaleiro percebe os sinais sutis de seu cavalo e é capaz de responder a todos eles com gestos rápidos e comandos objetivos

Em vez de buscar respostas, o atleta encarou o episódio de outra maneira: voltou a competir o mais rápido possível – e com Baloubet, sem mudar o seu método. “Ficar pensando que as coisas poderiam ter sido diferentes só aumentaria o peso da situação”, diz Pessoa. “Uma vez que você tomou uma decisão e não é possível revertê-la, é melhor acreditar que ela estava correta e seguir em frente.”

A tática funcionou. Quatro anos depois, ele e Baloubet ficaram em segundo lugar na prova de saltos individuais em Atenas – mas levaram o ouro, depois que o irlandês campeão foi desclassificado por doping. Ao longo de sua vida como atleta, Baloubet foi o único cavalo a levar três títulos mundiais – todos sob a liderança de Pessoa. Propriedade do português Dom Diogo Pereira Coutinho, hoje Baloubet está aposentado. Vive em um haras em Portugal, como reprodutor. A história de superação da dupla foi retratada no curta-metragem No Meio do Caminho Tinha um Obstáculo, do cineasta Cacá Diegues.

Esforço animal
Hoje, o principal cavalo de competição de Pessoa chama-se Status, da raça hanoveriana. “Ele é bastante ciumento e odeia ser deixado de lado”, diz Pessoa. Status é tratado com absoluto esmero, mas disputa a atenção do chefe com outros concorrentes. O atleta também treina outros cavalos, incluindo Jordan II, recém-adquirido por Pessoa. Casado pela segunda vez com a amazona Alexa Weeks, Pessoa vive em Bruxelas, na Bélgica, em uma propriedade a meia hora do haras onde faz seus treinamentos, em expedientes de quase dez horas por dia. Nos fins de semana, se não está competindo, Pessoa viaja por países europeus para observar cavalos. Ele busca oportunidades para uma boa aquisição. Esse é um mercado disputadíssimo. Os campeões são cotados em até ¤ 4 milhões (R$ 14 milhões). Agora, o atleta prepara-se para o seu próximo grande desafio – a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Será a sétima participação de Pessoa em jogos olímpicos. Desta vez, porém, há um ingrediente adicional. “Esperei a vida toda para poder concorrer em um campeonato como esse no meu país”, diz. “Vai ser um páreo duro porque a emoção é enorme, mas não vou tirar o corpo fora de jeito nenhum.”

Matéria originalmente publicada na edição de agosto de Época NEGÓCIOS.

  • Compartilhe
  • <