Por Fora
das Pistas

Acontece

Marcio Appel durante inspeção veterinária do Aquece Rio. - Foto: Paulo Campos

2 de agosto de 2016

O Bom Sabor da vitória – Por que, nós, porforonautas devemos ficar de olho nas provas de CCE

Por Ibiapaba Netto*

A comunidade hípica brasileira ganhou um presentaço nestes jogos olímpicos: mais um motivo para assistir a mais uma modalidade equestre, no caso o Concurso Completo de Equitação, o CCE. O motivo é a participação do cavaleiro e fundador deste Por Fora das Pistas, Marcio Appel. Para quem conhece essa rara figura, sabe se tratar de uma das pessoas mais gente boa que já pisou por este mundão de Deus.

Mas além de ser um cara bacana e merecedor de estar onde está, Marcio é a prova viva do sonho possível, de que ousadia e planejamento, temperado com talento é realmente uma mistura para lá de intrigante.

Um dos aspectos mais inspiradores dessa história é que o Marcio (e seu mano Mario) passou por todos os perrengues possíveis e imagináveis, anos a fio, com todo tipo de cavalo. De “Pé Duro” a “craque”, passou por animais vencedores e improváveis. Perdeu alguns no meio do caminho e outros se apresentaram entre possibilidades que variavam entre o possível e o ideal. A vida de vitórias e títulos é relativamente “recente” – se estou certo – talvez de oito a dez anos, o que corresponde a 30% da carreira do rapaz.

Isso significa que cerca de 70% do tempo se configura numa longa preparação para este momento que será, certamente, aproveitado “galão por galão”. Contudo, um dos aspectos que chama mais a atenção está na escolha, a opção que tudo mudou.

Deve fazer uns cinco anos quando fomos almoçar um dia e ele me falou: “Cara, vou mudar de modalidade: vou tentar o CCE”. Para ser sincero não me lembro exatamente o que despertou essa chama “suicida” no meu amigo porque, no final das contas, todos esses cavaleiros que disputam CCE têm um parafuso a menos na cabeça, afinal, os caras despencam de fossos, cataratas, arranha-céus e afins e agem como se tivessem ido à padoca comprar pão.

Insanidades a parte, o raciocínio era muito lógico: uma belíssima base de adestramento visto que ele e seu irmão Mario, desde muito pequenos treinavam a modalidade, uma herança da mãe Inez Appel que sempre enxergou na modalidade parte essencial para a formação de cavalos e cavaleiros. No salto, acumulava uma experiência sólida, tendo disputado e vencido algumas competições de fôlego. Faltava o Cross Country, algo fora de sua zona de conforto.

Lembro que após as primeiras competições conversamos e era nítida a satisfação do cidadão com os novos aprendizados, bem como a evolução técnica. Pouco a pouco o barranquinho foi se transformando em banqueta e agora o cara, se for preciso desce até do Cristo Redentor (que este o abençoe e inspire) atrás de seu sonho.

Nessa brincadeira já se vão cinco anos, muita dedicação e planejamento e um legado que talvez não tenha preço. Marcio Appel, esse meu amigo que sempre sorri para vida, conseguiu chegar a um patamar de disputa internacional em que muitos sonham, mas apenas uma fração dos atletas do mundo alcança. E fez isso de forma consciente, planejada, misturando uma série de conhecimentos que acumulou ao longo da vida: da vida como empresário à preparação física e mental, passando por horas criando calos nas nádegas sobre a cela, ele absorveu tudo como uma esponja e hoje curte o Rio Olímpico.

Acredito que para o esporte de alta performance talento seja um ponto de partida básico para todos os atletas. A grande questão é o que você faz com esse talento e como se prepara ao longo da vida e nesse ponto acho que está o grande mérito desse meu olímpico amigo. Boa sorte, Marcito! Estamos todos aqui, Por Fora das Pistas, torcendo por você.

*Ibiapaba Netto é jornalista de formação, colaborou com o Por Fora das Pistas entre 2001 e 2006. Foi repórter do jornal O Estado de São Paulo, Editor da revista IstoÉ Dinheiro, diretor da agência de publicidade Prole e hoje é diretor-executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).

  • Compartilhe
  • <