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Corrida de cavalos no Jockey Club, no Rio, diante da galeria Carpintaria; Ricardo Borges/Folhapress

14 de dezembro de 2016

No Rio, uma galeria de arte no Jockey aprende a conviver com os cavalos

Os cavalos não gostam de música, nem mesmo de bossa nova. Diante da pista de corrida do Jockey Club, no Rio, onde acaba de ser inaugurada a primeira de uma série de galerias, a artista Vivian Caccuri respeitou o gosto pelo silêncio dos bichos e esperou o fim do páreo antes de fazer a performance em que canta, de trás para frente, alguns clássicos de Vinicius e Toquinho.

Era um “momento mágico”, nas palavras de Alexandre Gabriel, sócio da Carpintaria, a filial carioca da Fortes, D’Aloia & Gabriel. Mas a magia tem hora para acontecer, já que os cavalos perdem o foco na missão de cruzar a linha de chegada quando ouvem qualquer ruído estranho.

No caso, música para ouvidos humanos, mesmo na bela voz de Caccuri, não é a melhor trilha sonora para a corrida. Nem a sofrida canção que a artista britânica Susan Philipsz canta em looping infinito nos alto-falantes instalados no jardim.

“Uma Canção para o Rio”, a mostra inaugural da Carpintaria, está cheia de obras que tocam música ou ilustram a ideia de sonoridade, inspirada pela noção de que a bossa nova traduziu em acordes a beleza estonteante da cidade.

Mas tudo precisa parar quando vêm os cavalos, e as obras são desligadas. É quase como se o tropel que estremece o gramado ali com hora marcada fosse também um espetáculo pensado pela galeria -na festa de inauguração do espaço, havia mais gente disputando um lugar na mureta para ver os cavalos do que admirando os desenhos, vídeos e esculturas lá dentro.

GRAMADO ARTSY
“É muito visual esse lugar”, dizia Marcia Fortes, outra sócia da galeria, contemplando a vista dos morros verdejantes que despontam ao longe atrás das pistas de corrida.

Empresários que estão tentando transformar esse pedaço antes esquecido das terras do Jockey em gramado cult também veem beleza ali. Além da Carpintaria, a Nara Roesler, outra casa paulistana com filial no Rio, vai migrar para lá no ano que vem e o estilista Oskar Metsavaht terá um espaço para vender suas obras de arte -ele vem fazendo fotografias- ao lado dela.

Uma livraria e um restaurante que tem o artista Vik Muniz como sócio ainda estão nos planos do novo circuito artsy junto aos cavalos.

Esse misto de passeio no parque -e o Jardim Botânico fica do outro lado da rua- com mostras descoladas pode dar certo em tempos de crise. Ou pelo menos é o que está na cabeça dos galeristas que desbravaram o terreno.

Não foi fácil. A Carpintaria, por exemplo, que tem esse nome porque ali ficava esse espaço do Jockey, precisou restaurar os dois galpões que abrigam a galeria e aumentar a altura do teto, mantendo os traços originais da construção, que é tombada.

Enfrentou ainda a ira de moradores do bairro que desconfiaram da movimentação intensa no que antes eram só ruínas nos fundos do Jockey.

Mas o pior parece ter passado, e Fortes, taça de champanhe em punho, já aguarda a chegada de colecionadores com “cheques gordos” para fazer o caixa girar. Na abertura, o movimento indicava que tudo soava como música para ouvidos alertas em tempos de economia carrancuda.

“Não é nosso modelo abrir filial, isso é mais como uma lojinha na esquina, um espaço para sair desse circuito hermético das artes visuais”, diz Fortes. “É uma coisa de fé na arte, que é uma commodity, mas também é um alimento espiritual para as pessoas.”

Uma pintura do americano Dave Muller, aliás, retrata os discos favoritos da galerista. Há ainda trabalhos de Bruce Conner, Jac Leirner e Ernesto Neto, além de um vídeo de Mark Leckey, que retrata a cena clubber de Liverpool nos anos 1990, onde garotos se esbaldavam em pistas de dança bem longe dos cavalos.

Fonte: Folha

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