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Cerca de dez cavalos por semana morreram em hipódromos americanos em 2018. Um pasto em Clairbone Farm. Foto: Luke Sharrett para The New York Times

22 de junho de 2019

Mortes de cavalos de corrida ameaça o esporte

Há cento e nove anos, Arthur B. Hancock transferiu sua criação de puros-sangues para um terreno de calcário rico em minérios, coberto por um denso e luxuriante gramado. E o batizou Clairborne Farm. Era a base do haras onde nasceram mais de 75 campeões e onde reinou o imortal garanhão Secretariat.

Agora, Walker Hancock, da quinta geração da família proprietária de Clairborne Farm, teme que não reste mais nada para transmitir à sexta geração. Os cavalos foram morrendo em grandes números em um hipódromo de primeira classe, e embora ninguém conheça exatamente o motivo, o tratamento dos animais – antes, durante e depois das corridas – está sendo investigado rigorosamente há alguns anos.

“O que está ocorrendo neste momento é insustentável”, afirmou Hancock, 29, falando do esporte. “Precisamos mudar a percepção do público, e tirar isto a limpo se quisermos sobreviver”. No Santa Anita Park, no Sul da Califórnia, morreram 27 cavalos desde o dia 26 de dezembro. As mortes ameaçam acabar com este esporte no estado.

Em média, em 2018, morreram cerca de 10 cavalos em uma semana em hipódromos americanos, segundo o Banco de dados de Lesões Equinas do Jockey Club. Esta taxa de óbitos é de duas vezes e meia a cinco vezes superior à registrada no resto do mundo do hipismo.

Em outros países, os tratamentos de cavalos de corrida são rigorosamente regulamentados, policiados e punidos, segundo o Jockey Club, uma das mais antigas e influentes organizações deste esporte. É essencial o combate a certas drogas, afirmam pessoas que exigem uma reforma, porque elas permitem que os cavalos corram de uma maneira rápida antinatural mascarando a dor, o que pode provocar mais colapsos.

Kathy Guillermo, vice-presidente da organização People for Ethical Treatment of Animals, PETA, ajudou a redigir as normas que o Santa Anita adotou sobre o uso de drogas e chicotes, mais próximas dos padrões internacionais. “Atualmente, estamos lidando com um público que não tolera mais ossos quebrados, o uso de chicotes, drogas e mortes”, afirmou.

Clairborne, onde nasceu War of Will, o ganhador do Preakness Stakes no dia 18 de maio, faz parte de uma setor da economia nacional que movimenta US$ 5,2 bilhões e emprega 61 mil pessoas em propriedades que somam 340 mil hectares. Mas por quanto tempo ainda?

Em 2002, nos Estados Unidos foram realizadas apostas por mais de US$ 15 bilhões em corridas de cavalos; no ano passado, o total caiu para US$ 11 bilhões. Em 2002, foram registrados cerca de 33 mil potros puro sangue como cavalos de corrida; no ano passado, foram apenas 19.925.

Em 2012, Arthur B. Hancock III e a esposa Staci fundaram a Water Hay Oats Alliance com a missão de eliminar as drogas das corridas. O grupo, que atualmente conta com 1.800 membros do setor, e o Jockey Club, contribuíram para a redação de um projeto de lei federal apresentado em março sobre a criação de um padrão nacional uniforme para testes de drogas e normas de medicação em cavalos de corrida sob a supervisão da Agência Anti-Doping dos Estados Unidos.

O projeto de lei tem o apoio de proprietários e associações de criadores de puros-sangues, grupos de defesa do bem-estar animal e hipódromos, inclusive o Stronach Group, proprietário do Santa Anita, e a New York Racing Association, que realizam o Preakness Stakes e o Belmont Stakes. A Churchill Downs Incorporated, onde ocorre o Kentucky Derby, não apoia o projeto. Em um memorando obtido pelo jornal The New York Times, a empresa referiu-as aos custos e à oposição de treinadores e de grupos veterinários.

The Louisville Courier Journal declarou recentemente que Churchill Down é um dos “hipódromos mais letais” da América e informou que, desde 2016, o local perdeu 43 puros-sangues em razão de lesões em corridas, uma média de 2,42 para cada mil largadas, ou 50% acima da média nacional no mesmo período.

Agora, Churchill Downs faz parte de uma coalizão de hipódromos que tentam a proibição de medicamentos no dia da competição para todas as corridas dos seus potros de dois anos a partir do próximo ano, e a ampliação da prática para corridas de apostas – o mais alto nível do esporte – até 2021.

Na Califórnia, as mortes ocorridas em Santa Anita levaram o procurador geral do condado de Los Angeles a determinar uma investigação, com condenações de funcionários eleitos e a exigência de pôr fim ao esporte. “Precisamos começar a provar que estamos fazendo todo o possível pelo bem destes cavalos”, disse Walker Hancock. “Se não, teremos de sair do ramo e deveríamos mesmo”.

Fonte: Joe Drape, The New York Times – Estadão Internacional

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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