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Mesmo depois de morto, o animal continua dando retorno financeiro aos proprietários graças à reserva genética | Foto: Mauro Schaefer

10 de setembro de 2018

Método de genética armazenada de cavalos mortos se mostra nova forma de investimento

A morte precoce, em junho do ano passado, do cavalo Equador de Santa Edwiges, relacionado no Registro de Mérito da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC) e pai de vencedores do Freio de Ouro, levou frustração a entusiastas da raça e, principalmente, investidores que, apenas cerca de um mês antes, haviam pagado R$ 6,97 milhões por ele. Mas, mesmo depois de morto, o animal continua dando retorno financeiro aos proprietários graças à reserva genética. O uso de sêmen congelado de equinos que já morreram começou nos últimos anos, já é regulamentado pela raça e, aos poucos, começa a se consolidar no mercado.

Responsável pela Cabanha Santa Fé, de Taquara, Gilberto Freitas havia comprado 50% do Equador de Santa Edwiges e, como não existem seguros dessas proporções sobre os animais, só não perdeu o dinheiro devido ao congelamento de sêmen. “É uma garantia que se tem de poder, com filhos dele, pagar o investimento”, explica o proprietário, que, nesta edição da Expointer, leiloou a égua Roseta do Purunã, prenhe do animal já depois de morto, por R$ 110 mil. “Ela leva na barriga um investimento inicial só da compra daquele embrião que está ali dentro”, explica o empresário.

De tão valorizada que é a genética do garanhão, a estimativa é que somente suas crias valham R$ 40 mil. Freitas tem a posse de pouco mais de 3 mil doses do sêmen congelado do cavalo, mas o utiliza criteriosamente em duas ou três éguas, escolhidas estrategicamente, por ano. O motivo, além da valorização, é uma regulamentação da ABCCC que limita o número de coberturas para animais mortos.

O teto tem critério semelhante ao estipulado para garanhões vivos: 150 coberturas quando atinge Registro de Mérito – condição dada aos quatro melhores do Freio de Ouro, da morfologia e da marcha de resistência – e 120 para os demais. Mas a diferença é que, para as padreações em vida, os números são renovados a cada temporada reprodutiva, enquanto que, para os cavalos mortos, a limitação é de uso total daquele sêmen. Considerando uma prenhez segura, com a utilização de dez doses, o proprietário da Cabanha Santa Fé poderia vir a ter 300 potros do Equador. A genética que possui, portanto, sobrará.

 

Um novo mercado

Os rendimentos obtidos através da genética armazenada de cavalos mortos é uma nova viabilidade de investimentos em animais. De acordo com Gonçalo Silva, diretor da Trajano Silva Remates, percebeu-se que o cavalo Crioulo hoje consegue ser superior a uma série de fundos já conhecidos. Com isso, explica, a raça começou a atrair investidores de outras áreas que nada têm a ver com o meio rural. “São poucos, por enquanto. Gente que não tem terras, leigos. E tem, única e exclusivamente, cotas de cavalos ou coberturas”, revela.

Uma dessas pessoas é Marcelo Piccoli, proprietário de uma revendedora de automóveis e blindados. Apaixonado por cavalos desde criança, ele jamais havia se aventurado nesse meio, mas diz que, até aqui, o investimento tem dado certo. Através da Trajano Silva, comprou o referente a seis coberturas anuais do Equador e, com a morte do animal, passou a ter direito a seis no total. Por orientação da empresa de remates, o investidor aguarda para comercializar o material e conseguir obter bom lucro mesmo com a limitação.

Ele também adquiriu 5% do Maragato dos Alpes. Assim que o garanhão entrou para o Registro de Mérito, vendeu o direito de cinco coberturas e permanece com a posse de duas. Piccoli ainda não consegue mensurar o retorno financeiro que terá, mas já acredita que seja maior do que o de outras aplicações.

A permissão para que se faça coberturas utilizando sêmen de cavalos mortos começou há 3 anos, recorda Gonçalo Silva, que tem a expectativa de que o método cresça e se aperfeiçoe. Toda a reserva genética, segundo ele, fica armazenada dentro de uma central de biotecnologia fundada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).

O superintendente do Registro Genealógico da ABCCC, Frederico Araujo, explica que o congelamento de sêmen é uma prática que vem se tonando mais comum, principalmente para os animais de ponta. Além de garantir a padreação depois da morte, o procedimento serve como planejamento em equinos vivos, para, por exemplo, reservar genética de cavalos que vão ser preparados para competições no ano seguinte. Na visão dele, há uma tendência de que, à medida que o armazenamento do DNA aumentar, cresça também o uso desse procedimento.

Descendência valorizada

O interesse de criadores em obter uma boa genética contribui para um cenário em que o uso de sêmen de equinos mortos se amplie. Mas, por se tratar de algo recente, não existe, por exemplo, uma reserva do La Invernada Hornero, considerado o maior símbolo da raça crioula.

Conforme Gonçalo Silva, ainda há poucos potros nascidos através do método e todos os existentes hoje estão concentrados na genética do Equador de Santa Edwiges. Antes de morrer, cada 5% do cavalo foi arrematado a R$ 350 mil. Por isso, o leiloeiro entende que seria fundamental se houvesse uma flexibilização nas regras para justificar os valores e atrair mais investidores para a raça crioula.

A regulamentação da ABCCC, explica o superintendente de Registro Genealógico, existe devido a uma necessidade de renovação automática dentro da raça. Conforme Araujo, um cenário em que 1 milhão de doses de sêmen de um cavalo muito importante fossem congeladas, permitindo uma mesma padreação por décadas, dificultaria esse processo. Ainda segundo ele, a regulamentação da técnica de reprodução permite que o proprietário utilize todas as coberturas em um mesmo ano ou dividindo-as ao longo do tempo.

A continuidade da descendência de cavalos importantes encontra extrema valorização dentro da raça crioula. Além de ter vendido a égua prenha do Equador de Santa Edwiges, Gilberto Freitas, da Cabanha Santa Fé, também leiloou nessa edição da Expointer o potro Pulpero, por R$ 130 mil, e a égua Oitava Rima, por R$400 mil, filhos do JA Impulso e netos do Equador.

Outro fato que mostra a importância genética do animal, morto devido a uma infecção, é que o JA Libertador, este ano consagrado como o primeiro bicampeão da história do Freio de Ouro, também era seu filho.

Fonte: Correio do Povo

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