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A raça Quarto de Milha é mais valorizada no Nordeste que no resto do País Foto: Natinho Rodrigues

19 de maio de 2019

Mercado de cavalos cresceu mais de 30% no Ceará em 2018

Em baixa depois da crise econômica, o mercado de cavalos começou a reagir no último ano e apresentou um crescimento de 30% a 40% no Ceará em 2018. A estimativa é do presidente da Associação dos Criadores de Cavalo Quarto de Milha do Ceará (ACQMC), Erivelto Luna, que aponta a regulamentação da vaquejada como ponto-chave do reaquecimento do setor. Para ele, a mudança de perfil de criadores – com uma visão mais profissional e dedicada – e avanços tecnológicos também teriam sido determinantes para a evolução.

“O mercado de cavalos nacionalmente reagiu. Com a regulamentação das vaquejadas no Nordeste, o esporte voltou mais forte e isso puxou o mercado de cavalos. Aqui no Ceará, o mercado reagiu e cresceu entre 30% a 40% em 2018”, estima Luna.

A raça Quarto de Milha é a preferida dos vaqueiros, com 95% de representatividade nas competições. Há mais de nove mil cavalos no Estado, que é o quinto maior plantel da raça no Nordeste, atrás da Bahia (19,6 mil), Pernambuco (18,6 mil), Paraíba (14,1 mil) e Rio Grande do Norte (10,6 mil). No Ceará, há três mil proprietários e 1,4 mil criadores de cavalos da raça.

Leilões

Com a evolução no ano passado, o presidente da ACQMC aponta que muitos criadores brasileiros estão conseguindo retornos consideráveis a partir da venda dos animais. Um garanhão (como são chamados) de bom porte, chega a ser vendido por mais de R$ 2 milhões nos leilões brasileiros.

R$1,8 milhão
No Ceará, o Leilão Primavera Elite, realizado em março, em Canindé, movimentou R$ 1,8 milhão. No Nordeste, em 2018, foram 34 leilões presenciais, com faturamento de pouco mais de R$ 61 milhões.

“O mercado de cavalo deixou de ser um hobby e se transformou em um negócio. Existem garanhões que são adquiridos em leilões por mais de R$ 5 milhões, e tem se investido muito na tecnologia”, explicou Luna. “Um leilão em média, no Nordeste, rende R$ 1 milhão, com 30 lotes, mas os grandes, de 50 lotes, pelo Brasil, chegam a movimentar cerca de R$ 6 milhões e têm em média 4 a 5 leilões por final de semana no Brasil”, acrescenta.

Curiosamente, o valor do Quarto de Milha é maior no Nordeste em comparação ao resto do País. A média é R$ 49,3 mil na região ante R$ 41,3 mil nacionalmente. Inclusive, o maior valor arrematado em 2018 entre os cavalos da raça veio da vaquejada. O garanhão Don Príncipe Bar HJG foi o recordista nacional ao ser comprado pelo cantor Wesley Safadão por R$ 2,24 milhões.

“O mercado de Quarto de Milha vem se desenvolvendo em virtude do aumento das provas equestres, como a corrida e a vaquejada, que é uma cultura do povo nordestino. Não se compra cavalo se não tem provas para competir”, diz Rafael Leal, dono do Haras Primavera e organizador do leilão. A sua égua “Fit and Fabulous” recebeu o lance mais alto: R$ 400 mil. Entre os mais de 30 cavalos vendidos, o preço médio geral, considerando reprodutoras e animais voltados para corrida (geração 2017), foi de R$ 61,3 mil.

Investimento

Levando em conta apenas um cavalo, a média de investimento para criação é de R$ 20 mil, em 25 a 35 meses. O valor é necessário para cobrir gastos com a inseminação, nutrição, profissionais e estrutura física – tanto nos 11 meses de gestação, como em cuidados até os dois anos de idade. “Vender por menos que R$ 25 mil a R$ 50 mil é um prejuízo”, pontua Cláudio Rocha, médico e proprietário do Haras Claro.

Possuindo a égua reprodutora, o maior gasto é com o sêmen do cavalo. No Haras Claro, por exemplo, é aproveitado tanto o material genético de animais próprios como provenientes de centros de reprodução. “Com nosso garanhão, fazemos quatro a cinco produtos dele por ano. O resto tudo é de fora. Temos sêmen de 24 garanhões aqui. Eles mandam paletas de sêmen congelado por avião e a gente insemina”, comenta Cláudio.

Tecnologia

Além dos esforços para melhorar as condições de trabalho e elevar o nível do mercado, profissionalizando o processo dos criadores, o presidente da ACQMC Erivelto Luna explica que os avanços tecnológicos proporcionam melhorias para a coleta e armazenamento do esperma dos animais.

Atualmente, o material genético de cavalos de ótimo porte chega a ser vendido por até R$ 80 mil, sendo trazido de fazendas de criação até mesmo do exterior. De acordo com Luna, os Estados Unidos são um dos maiores mercados desse setor, fornecendo animais e sêmen de alta qualidade a criadores brasileiros.

“Hoje, os garanhões nacionais têm cobertura (venda de esperma) que gira em torno de R$ 15 mil e ainda temos cobertura de garanhões que estão na América do Norte, que saem por R$ 80 mil”, comenta o presidente.

“A necessidade do melhoramento genético dos rebanhos fez com que houvesse um estudo científico para que pudéssemos usar o sêmen de um garanhão da América do Norte aqui no Brasil e, hoje, o material genético pode ficar guardado por tempo, nas condições corretas”, avalia.

Uma particularidade é que há opções até de cavalos que nem estão mais vivos, como é o caso de Apollo VM. Com quase 24 anos, ele morreu deixando uma trajetória consagrada nas pistas. É um Tríplice Coroado invicto com 13 vitórias, ganhador dos principais prêmios da corrida no País.

O legado dele até hoje é valorizado em leilões de embriões fecundados com sêmen congelado. Mesmo morto em janeiro de 2012, evento dedicado apenas ao Apollo VM rendeu mais de R$ 4,1 milhões por 19 embriões neste ano. O mais caro foi R$ 480 mil e a média geral, pouco mais de R$ 216 mil.

Outro que ainda rende após a morte é o Mr Jess Perry. Em vida, foi um dos principais garanhões do mundo em produção. Ele morreu aos 25 anos, em 2017, no Texas, e o seu nome continua sendo referência para melhorar a venda dos seus herdeiros. O sêmen custa US$ 22 mil, informa Cláudio Rocha.

Impacto econômico

Com o crescimento e outros resultados positivos, Luna pondera que o mercado de cavalos possui uma estrutura comparável ao mercado automobilístico, considerando os empregos diretos e indiretos gerados para movimentação, criação e trato dos animais, além dos outros pontos relativos ao negócio.

Segundo estudo de 2016, última publicação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento sobre cavalos, o segmento emprega 607.329 pessoas diretamente e gera 2,42 milhões de postos de trabalho indiretos. Na área de ração, o giro é de R$ 780,8 milhões por ano. Com medicamentos veterinários, considerando preços de abril de 2015, são R$ 220,5 milhões/ano.

“O mercado de cavalos chega a ser comparado com o automobilístico, até porque temos a indústria de ração, de fármacos, edificações, etc. Você compra um cavalo hoje, mas, antes disso, tem toda uma mão de obra para preparar, alimentar o animal, tem o veterinário, a reprodução, a transferência do material genético e tudo isso gera empregos”, aponta Luna.

O mercado encerrou 2018 com crescimento de 12,2% no País, quando os leilões movimentaram R$ 253,3 milhões. Para Cláudio, este ano vai continuar o resultado positivo. “Se continuar assim, está de bom tamanho, vai depender da recuperação da economia do Brasil. Os animais estão bem selecionados e estamos otimistas que o ano seja melhor que a média de 2018”.

Fonte: diariodonordeste

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