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Luiza Almeida compete no adestramento do CCE na Rio-2016; imagem: Reuters

13 de agosto de 2016

Lei do silêncio no hipismo respeita o cavalo e faz torcida dormir

No meio da arquibancada do concurso de adestramento do hipismo você consegue ouvir alguém abrir um pacote de salgadinhos a uns dez metros de você. Se uma mensagem chega ao celular no bolso do vizinho você fica sabendo. As pessoas falam em sussurros e pisam leve para não incomodar. Bater palmas é proibido enquanto o cavalo está no picadeiro. Gritar é impensável.

Torcer nesse esporte praticado principalmente por milionários é um verbo conjugado em silêncio. Vestido com a camisa do clube de futebol Botafogo, o militar Jeferson Lamas soube disso logo ao entrar nas arquibancadas do centro olímpico de hipismo, em Deodoro.

As arquibancadas, estruturas temporárias construídas apenas para acomodar o público olímpico, rangiam sob o peso do militar. “Senhor”, lhe disse educadamente uma voluntária. “O senhor pode até ficar aqui, mas não pode caminhar agora.” O cavalo estava no picadeiro, a vários metros dali, marchando graciosamente ao som de uma música calma, de ninar. Todo respeito ao cavalo.

Em volta de Jeferson, o público guardava silêncio sepulcral, concentrado nos movimentos de cavalo e cavaleiro. Uma mulher dormia na plateia. Uma criança ameaçou falar mais alto e foi calada pela mãe. Quando as palmas vieram ao fim da apresentação, o locutor se mexeu em seu lugar.

“Atenção, agora teremos um atleta brasileiro. Pedimos ao público para fazer silêncio e aplaudir somente no final.” Era João Victor Marcari, filho de Hortência, que entrava no picadeiro para cumprimentar o público e os juízes. Alguém resolveu romper a lei do silêncio e aplaudi-lo, agitando uma bandeira verde e amarela.

“Shhhh!!”, disse o gaúcho Jorge Zandonai, 60 anos, sibilando a reprimenda entre seu farto bigode gaúcho. “Eu acho que aqui tem que seguir a regra, e a regra aqui é fazer silêncio e respeitar o cavalo”, explicou-se ele depois, no intervalo entre duas apresentações, único momento no concurso de adestramento no qual é permitida a comunicação verbal entre humanos.

De certa forma, o hipismo se tornou a ilha do silêncio em uma Olimpíada marcada pelo barulho das torcidas. Esportes como tênis, tênis de mesa, tiro esportivo e tiro com arco, sempre muito acostumados à calmaria, têm tido dias mais agitados no Rio de Janeiro, graças principalmente à empolgação da torcida brasileira.

No próprio hipismo, no primeiro dia do Concurso Completo de Equitação (uma das três categorias em que há disputa de medalhas), o público se comportou mal, fez barulho, cavalos reclamaram e o locutor precisou puxar algumas orelhas através do sistema de alto-falantes. Depois disso, a paz reinou.

Mas houve quem quisesse festa. “Quando o locutor falou ‘Não faz barulho’, eu estava quase ‘Não, pode fazer!'”, brincou a amazona Luiza Almeida, do time brasileiro, que foi eliminada ainda na primeira fase. “Os torcedores não sabem o quão importante é pros cavaleiros esse apoio.”

E pros cavalos?

“O meu cavalo não se assusta”, disse Luiza, 24 anos, já em sua terceira Olimpíada. ”Tem cavalos mais temperamentais que outros. Eu queria barulho, mas algum cavaleiro cujo cavalo seja mais medroso pode atrapalhar.”

“Os nossos cavalos são muito tranquilos”, concordou João Victor Marcari. “Se tivesse barulho aqui não ia modificar em nada, até poderia ajudar. Mas é bom respeitar, tem cavalos que estão estressados.”

Apesar do elogio à algazarra, os dois brasileiros admitem que manter a calmaria na arena do hipismo é essencial para um jogo mais justo para todos.

“O silêncio é importante para a concentração”, disse João Victor. “Qualquer barulhinho, o cavalo pode desfocar do cavaleiro e cometer um erro.”

Fonte: Do UOL, no Rio de Janeiro – Adriano Wilkson e Daniel Brito

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