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17 de dezembro de 2017

Ishbak Ari Shehadeh Vergara ensina a trabalhar os cavalos sem embocaduras

Um dos grandes nomes que fizeram  parte do quadro de palestrantes do 15° Encontro Internacional Equalan de Horsemanship,  o chileno Ishbak Ari Shehadeh Vergara, 40 anos, veio ao Brasil em novembro, a convite de Aluisio Marins, da UC, para passar seu conhecimento e ensinar técnicas do Bitless System. Criador do Ishbak Bitless System e fundador do movimento para que os cavalos trabalhem sem embocaduras, ele foi a atração internacional do Encontro. Morador da Patagônia norte Chilena, viaja pelo mundo ensinando esse método.
E para aprender a montar com seu cavalo livre de freio, hackmore, não basta comprar um curso online. É necessário compreender toda a metodologia, que torna a transição segura e eficiente. Tudo isso feito com responsabilidade. Nem todo cavalo está pronto para começar a trabalhar sem embocadura, e nem todo cavaleiro é capaz de montar sem embocaduras. Como qualquer outra ferramenta, é preciso conhecimento básico, que, sem dúvida, pode ser desenvolvido para qualquer um.

O site Cavallus conversou um pouco com Ishbak Shehadeh. Confira!
 
Como começou a trabalhar com cavalos?

Ishbak: Me relaciono com cavalos desde que nasci. Meu pai, Victor, gostava das corridas de cavalos e costumava me levar com minha irmã. Lá eu cresci entre gritos, apostas, e cavalos. O Jockey do Chile é como meu segundo lar. Agora, já na universidade, onde estudei medicina veterinária, foi quando comecei a abordá-los de outra maneira. Tinha um colega de escola, um veterinário, que seu pai criou cavalos em semi-liberdade. Eles tinham cerca de 1500 cavalos e eu passava meus dias de folga no campo, ajudando com as tarefas, montando-os e observando-os. Era incrível andar no meio de centenas de cavalos galopando livres. Então, eu deixei os cavalos (e minha carreira universitária), para me dedicar à investigação do comportamento da vida selvagem na Patagônia chilena, com uma equipe de cientistas.

Quanto tempo durou esse período?

Ishbak: Com eles, trabalhei por sete anos e aprendi a base científica e metodologia para a observação e reabilitação de animais. Fazíamos um trabalho de reabilitação muito interessante. Recebemos todo tipo de vida selvagem, especialmente aves de rapina, feridas pela caça ilegal ou caídas de ninhos, e as reabilitávamos para devolvê-las ao seu ambiente natural. Lembro-me que, no pátio da casa da minha mãe, construí uma gaiola gigante onde os ensinei a voar. No começo, minha família estava desconfortável, e então lhes ensinei a se envolver. Toda vez que eu soltava um pássaro, a despedida era triste para todos lá de casa.

E os cavalos?

Ishbak: Com uma sólida base em etologia, resolvi voltar aos cavalos. Mas ainda estava faltando um passo. Não me sentia preparado para uma responsabilidade tão grande. Então, decidi trabalhar primeiro na reabilitação de cães. Passei um ano reabilitando cães com problemas comportamentais e gerenciando o comportamento em abrigos para cães de rua com mais de 700 animais. Com toda essa experiência, decidi começar a trabalhar com cavalos. Voltei às pistas de corrida, onde comecei a trabalhar na reabilitação de cavalos da raça puro sangue inglês com problemas comportamentais.

Como desenvolveu o método Bitless?

Ishbak: O Bitless System nasceu de uma necessidade pessoal. Eu estava reabilitando um grupo de cavalos no Jockey de Santiago, quando comecei a notar que alguns desses cavalos tinham problemas por causa do freio. A solução pareceu-me bastante lógica: procurar uma alternativa para montá-los sem freio. O que aconteceu foi que não encontrei nenhuma metodologia para fazer a transição do freio para bitless (sem freio). Estava indo trabalhar com cavalos de corrida e precisava de um sistema seguro e profissional, não um dispositivo milagroso. Não encontrando alternativas, decidi criar por mim mesmo. Como ninguém queria me emprestar cavalos no Jockey para desenvolver o sistema, fui ao campo de um tio, na Patagônia, onde permaneci isolado nas montanhas dos Andes por oito meses, criando e testando o sistema.

Em que consiste esse método?

Ishbak:  O sistema baseia-se na minha experiência e observações de animais selvagens. Uma das coisas que mais me interessou foi que os animais selvagens, em um período de tempo muito curto, aprendem muito. Em alguns meses, eles já aprendem o que é necessário para sobreviver ao resto de suas vidas. Isso me levou a entender que o mecanismo de aprendizagem dos animais em geral não é consciente. Eles aprendem sem saber que estão fazendo isso. Porque o cérebro animal (e humano) também tem muito mais capacidade de processar subconscientemente, ao invés de conscientemente. O cérebro humano pode, conscientemente, processar 50 bits por segundo, o que seria realizar uma equação matemática no segundo grau. Enquanto o subconsciente tem a capacidade de processar 11 milhões de bits por segundo.

Então, se eu quisesse projetar um sistema para que o cavalo aprendesse a ser montado livre de embocaduras, tinha que estar sob seus parâmetros naturais, onde eles aprendem sem perceber que estão fazendo isso, passo a passo, seguindo um esquema lógico, para usar todo o potencial natural do cérebro. Então eu fiz isso, um sistema que era lógico e fácil de aplicar. Tudo que transforma esse conceito em algo replicável, seguro e fácil de usar.

Como é aplicado no dia a dia com os cavalos?

Ishbak:  O sistema hoje é aplicado diariamente de diferentes maneiras. Em cavalos de alto desempenho, o bitless é uma ferramenta muito útil, para intercalar com o freio. Permita que os cavalos descansem, relaxem os músculos, alongam-se melhor e tenham uma disposição melhor. Para os cavalos que estão sendo tratados por um problema dentário, ou para a boca, eles usarão o método para treiná-los enquanto são tratados, e assim eles não perdem dias de treinamento e o tratamento pode ter um efeito melhor. Cavalos com problemas comportamentais causados ​​pelo freio, permitem seu uso direto ou intercalados com o freio, reduzindo esses comportamentos. Alguns cavalos não conseguem lidar bem com o freio, pois isso interfere na fisiologia da respiração. O sistema bitless as alivia quando está sendo trabalhado. Outros apenas o usam por escolha pessoal.

Qual é o objetivo maior?

Ishbak: Meu trabalho como etologista equino (estudante do comportamento animal) é puramente profissional. Minha ideia é, e será sempre, poder entregar outra ferramenta, com uma base sólida, para aqueles que precisam trabalhar sem embocaduras, pelas razões dadas acima, poderem fazê-lo com segurança e eficácia. O Bitless System é uma ferramenta que pode ser usada quando necessário ou quando a pessoa quiser, intercalando seu uso com freio, hakamore ou usando diretamente sem nada.

Um cavalo bem domesticado e um cavaleiro com experiência básica suficiente (o que é indubitavelmente exigido) poderão mudar do freio para sem freio, para o hakamore e para a corda no pescoço, e reverter, quando necessário ou as circunstâncias o exigirem, ampliando o espectro de possibilidades.

Tudo isso feito com responsabilidade. Uma pessoa sem experiência básica, e sem uma metodologia, pode causar danos usando um freio e ainda mais usando incorretamente o bitless. Nem todo cavalo está pronto para começar a trabalhar sem embocadura, e nem todo cavaleiro é capaz de montar sem embocaduras.

Como foi apresentá-lo aqui no Brasil, no Encontro Internacional Equalan de Horsemanship, na UC?

Ishbak: Foi muito emocionante. Em primeiro lugar, porque haviam pessoas que vieram especialmente para ver e aprender o sistema, e de lugares muito distantes no Brasil, a quem agradeço muito. Em seguida, apresentei o sistema para um público muito grande, disciplinas tão diferentes, foi incrível. Muitas pessoas que, provavelmente, nunca tinham visto ou ouvido falar do Bitless System, e chegaram em casa sabendo que essa alternativa existe. Todos foram muito respeitosos.

Petit Herweg e Ishbak Shehadeh
Meus colegas, Petit, Borba, Dudi e Fernando, de enorme nível, também foram muito abertos e receptivos ao meu trabalho, foi um prazer compartilhar com todos eles e assisti-los trabalhar. Petit Herweg, com quem fiz o último dia de exibição juntos, aplicamos o bitless system em um de seus cavalos de Três Tambores, que teve problemas para aceitar o freio. Foi uma experiência incrível, ela é uma atleta alto nível, muito talentosa, e fiquei muito feliz por ter visto no meu sistema uma chance de melhorar com seu cavalo.

Aluisio Marins me deu um olhar muito importante em relação ao meu trabalho, relacionado ao público da reunião e ao Brasil em geral. Ele tem um profundo conhecimento sobre cavalo, bem como o mundo equestre do Brasil. Seu conselho foi e será fundamental no crescimento do meu trabalho e do Bitless System em geral. Espero voltar em breve ao Brasil!
 
Qual mensagem que você pode deixar para quem se interessou em começar esse trabalho?

Ishbak: Para mim, o Bitless não é algo imposto, mas uma ferramenta muito útil. Se você está pensando em fazer a transição para bitless ou aprender o Bitless System, você deve fazê-lo de forma responsável. O Bitless não é um dispositivo adquirido por internet, mas uma metodologia que permite fazer a transição com eficiência e segurança. Seguindo todas as etapas e recomendações, o bitless pode ser muito útil para todos.

Fonte: Cavalus

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