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A investigadora Isabel Carvalho e o engenheiro agro-pecuário Alexandre Pires

28 de agosto de 2016

Identificado novo vírus idêntico ao VIH que ameaça os cavalos

Chama-se NEV, sigla em inglês de “novo vírus equino”. E chamam-lhe “novo”, porque já existe um “velho”, muito parecido, que se chama VAIE, de vírus da anemia infecciosa equina, também conhecido por febre dos pântanos. Este lentivírus mais antigo já era reconhecido como um “primo” do VIH e provoca uma doença infecto-contagiosa que todos sabem ser fatal. Agora, o novo vírus será um “irmão” do vírus da sida, avisam os cientistas envolvidos na investigação. A equipa responsável pela descoberta contactou o Ministério da Agricultura e a Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e já reuniu com os responsáveis do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) para avaliar a adopção de eventuais medidas de controlo

O NEV, ainda sem nome oficial em português, é muito parecido com o conhecido VAIE, manifesta-se com sintomas semelhantes ainda que pareça ser ainda mais agressivo. “É mais perigoso porque, para este vírus, não existe despiste ou protocolos de controlo da doença como os que já estão definidos para o VAIE há dezenas de anos e acaba, inevitavelmente, na eutanásia do animal infectado”, explica a investigadora Isabel Carvalho, que fundou a empresa de biotecnologia Equigerminal com engenheiro agro-pecuário Alexandre Pires. “É muito diferente do que conhecíamos. É muito mais parecido com o VIH. Normalmente, estes cavalos com o novo vírus morrem com cólicas graves. Morrem em pouco tempo, têm febres altas”, diz a veterinária, que acrescenta: “O que determina se é um vírus novo é o genoma do vírus e as proteínas. [Neste caso] são de tal maneira diferentes que concluímos que é um novo vírus. O VAIE não é patogénico e o nosso [o NEV] mata as células em pouco tempo. Em sete ou dez dias, as células estão praticamente todas mortas.”

Há quase 20 anos que Isabel Carvalho persegue este vírus de forma determinada. A história começa em 1997, quando a investigadora se encontrava a fazer o seu estágio de licenciatura, no laboratório do biólogo Nuno Ferrand, da Universidade do Porto, analisando amostras de cavalos com anemia. Durante o trabalho, percebeu que tinha amostras com um resultado negativo quando eram submetidas aos testes tradicionais que ainda hoje existem para a grave e conhecida forma de anemia (teste de Coggins) nos cavalos – a VAIE. Mas os testes mais apurados e sensíveis acusavam positivo para um agente patogênico misterioso. Seria outro vírus? Hoje, Isabel Carvalho garante que sim.

Entrou no programa doutoral da Universidade do Porto fazendo parte da equipa do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC), foi para Pittsburgh, nos EUA, com uma bolsa e terminou lá o doutoramento. Foi diretora do Biotério do IBMC entre 2004 e 2010. Encontrou mais casos de cavalos que manifestavam alguns sinais de doença e com o mesmo resultado nos laboratórios: negativo nos testes tradicionais, positivo nos mais sensíveis. “Eram cavalos em estado livre, selvagem, do Norte de Portugal”, diz ao PÚBLICO com alguma reserva, adiantando que já detectou o vírus também em algumas coudelarias noutras regiões do país. Mais sobre quem e onde, prefere não dizer. “Essa informação é confidencial. Mas existe mais nos animais que estão no ar livre, nas pastagens. Menos nos estábulos”, adianta apenas.

Já com a empresa constituída e a equipa da Equigerminal formada, tentaram identificar e amplificar o genoma do VAIE neste vírus. “Nunca conseguimos.” O que conseguiram foi “isolar as partículas virais na microscopia eletrônica e ver que era um lentivírus [um tipo de vírus de incubação lenta e que é próximo do VIH-1]”. “E quando pegámos em todas as sondas – e já pegámos em todas as sondas! –, não conseguimos amplificar nada do genoma do VAIE no NEV. Por outro lado, as proteínas foram analisadas por espectrometria de massa e os péptidos [pequenas porções de proteína] que temos aqui são de HIV e não de VAIE”, reforça.

Portanto, se o VAIE era um primo do vírus da sida, o NEV será um irmão. “Será sem dúvida um parente mais próximo, sendo que alguns péptidos são mesmo idênticos”, confirma a investigadora. Foi um processo longo e difícil, sublinha.  Primeiro, houve muitos obstáculos quando quis “importar” uma amostra do VAIE para usar em testes e comparações no laboratório. Depois, também conseguiu amostras de vírus de cavalos de outros países. Hoje tem provas suficientes para afirmar que o vírus está em vários países – Brasil, França e EUA, por exemplo – e acredita que o NEV afeta cerca de 10% dos cavalos em todo o mundo, incluindo Portugal. Uma percentagem bastante mais alta do que a conhecida anemia infecciosa equina que, de forma geral, afetará menos de 1% (exceto na população de cavalos no Brasil, que terá uma taxa entre os 5 e 10%). Em Portugal, oficialmente não há registro de casos de VAIE. A tradicional forma da doença conhecida como febre dos pântanos foi descrita pela primeira vez no século XIX em França, o vírus foi isolado em 1904 e o teste de Coggins que continua a ser usado hoje começou a ser feito em 1972.

Fonte: Publico´.Pt

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