Por Fora
das Pistas

Notícias

30 de dezembro de 2017

Hidrocefalia e Ciclopia em Equinos

Os sistemas orgânicos de humanos e animais estão sujeitos a anomalias que se originam durante sua vida embrionária. Qualquer anormalidade que esteja presente na estrutura ou função de órgãos, sistemas ou parte destes na ocasião do nascimento são considerados como defeitos ou anomalias congênitas. É importante ressaltar que nem todas as anormalidades congênitas são necessariamente hereditárias.

A maior parte destas anormalidades é percebida logo após o nascimento, mas, em determinados casos, esses defeitos se manifestam apenas algum tempo após o nascimento, e existem ainda casos que necessitam de uma cuidadosa avaliação clínica patológica para que seja definido o diagnóstico (PEREIRA, 2010; JONES; HUNT; KING, 2000).

Os defeitos congênitos são resultado de eventos ou processos de duração variável que afetam o feto durante seu desenvolvimento e que levam a alterações na estrutura ou função dos órgãos ou sistemas. Como consequência, muitos animais malformados nascem mortos ou morrem logo após o nascimento, e, em muitos casos, os defeitos congênitos estão relacionados à morte fetal ou embrionária, abortos e reabsorção. (PEREIRA, 2010).

As anomalias congênitas são conhecidas há séculos, mas sua etiologia não foi totalmente elucidada, porém podem ser consideras como consequência de fatores ambientais, genéticos ou pela interação de ambos. Dentre os fatores ambientais podem ser relacionadas a infecções intra-uterinas não fatais, especialmente agentes virais; fatores nutricionais, particularmente deficiências de vitamina A, ácido fólico, vitamina B12,hipervitaminose A; toxinas que incluem algumas plantas e fármacos  e traumatismos.

Os fatores genéticos se caracterizam tanto por aberrações cromossômicas, as quais são diagnosticadas diretamente, ou por mutações genéticas que podem ser identificadas indiretamente pelo padrão de transmissão.

A susceptibilidade aos agentes teratogênicos varia com o estágio de desenvolvimento e diminui com o avanço da idade do feto. A frequência de malformações congênitas pode variar entre as raças, áreas geográficas e estações do ano, dependendo se a origem do defeito é hereditária ou ambiental. (PEREIRA, 2010; JONES; HUNT; KING, 2000).

As anomalias congênitas são pouco frequentes, mas, entre as que mais ocorrem na medicina veterinária e que afetam as células que formam o plexo coróide e epêndima pode ser incluída a hidrocefalia. (MCGAVIN, ZACHARY 2009). A hidrocefalia consiste no lento acúmulo de quantidades excessivas de líquido cefalorraquidiano (LCR) nos ventrículos, e algumas vezes nos espaços subaracnóides, em decorrência da obstrução da drenagem normal.

Quando a hidrocefalia fica confinada aos ventrículos esse acúmulo é denominado de hidrocefalia interna, mas, quando o acúmulo se dá no processo aracnoide é denominada hidrocefalia externa. (JONES; HUNT; KING, 2000).

No cérebro normal, o LCR é produzido pelo plexo coroide dentro dos ventrículos, há uma secreção continua deste líquido a partir do plexo coroide de vasos localizados principalmente nos ventrículos laterais, esse líquido é drenado através do aqueduto de Sylvius até o quarto ventrículo, a partir deste local o líquido avança através de aberturas existentes no teto desse ventrículo conhecidas como forames de Luschka até as cisternas basais no espaço subaracnóide, o fluxo continua pelas cisternas basais anteriormente através dos espaços subaracnóides intercomunicantes, onde o líquido é reabsorvido pela circulação venosa (JONES; HUNT; KING, 2000).

Na hidrocefalia não ocorre essa circulação normal do LCR, resultando em acúmulo exagerado dentro sistema ventricular do cérebro. A hidrocefalia pode se desenvolver antes ou após o fechamento das suturas cranianas. Quando acontece antes, ocorre um aumento da cabeça manifestado pela elevação da sua circunferência (Figura 1), já quando ocorre após a fusão das suturas, esta associada à dilatação dos ventrículos e ao aumento da pressão intracraniana, não sendo observadas alterações na circunferência da cabeça (SANTOS; ALESSI, 2016).

Segundo Santos e Alessi (2016) existem dois mecanismos básicos que podem causar incremento no volume do LCR: mecanismos compensatórios e obstrutivos. A hidrocefalia compensatória ocorre quando o parênquima cerebral é destruído ou não chega a se desenvolver adequadamente, por exemplo, em defeitos cerebrais cavitários, como na hidranencefalia e na porencefalia. Já a hidrocefalia obstrutiva ocorre em razão de fluxo irregular do LCR (hidrocéfalo interno) no encéfalo ou diminuição na reabsorção do líquido pelo sistema venoso (hidrocéfalo comunicante;). O ponto mais crítico da circulação do LCR é o aqueduto mesencefálico, sendo o local mais comum de malformação que ocasiona a hidrocefalia obstrutiva.As infecções virais que ocasionam lesões in útero são associadas à ocorrência desta anomalia (MCGAVIN, ZACHARY 2009).

A Ciclopia é também considerada uma anomalia congênita que pode acometer equinos, mas são poucos os casos relatados na literatura. A ciclopia é caracterizada pela fusão dos componentes oculares de ambos os olhos, fusão das eminencias nasais medianas formando um nariz probóscide e olhos localizados no centro do rosto formando um único olho mediano. Quando a fusão é completa, denomina­-se ciclopia; quando é parcial, a condição é conhecida por sinoftalmia (Figura 2). (SANTOS;ALESSI,2016;WAMMES et al,2000).
Sinoftalmia. (SANTOS; ALESSI, 2016)

O diagnóstico dos defeitos congênitos é complexo e vários fatores limitantes devem ser considerados. Em geral os defeitos congênitos não são relatados a não ser quando muito bizarros ou quando ocorrem casos coletivos. ( SANTOS;ALESSI,2016). O raio-x é um método de diagnóstico que pode ser usado, porém trás poucas informações conclusivas, a ultrassonografia  transcraniana é um método que pode ser usado em casos de hidrocefalia, mas sem dúvidas as alterações anatômicas apresentadas nesses casos são o grande indicador destas enfermidades. (CARVALHO, 2007).

Estas anomalias se apresentam como condições atípicas e que não condizem com a vida, casos em que equinos são acometidos são pouco relatados na literatura, mas podem ocorrer. A melhor maneira de se tentar evitar estas enfermidades é o cuidado e prevenção com as éguas gestantes através da instituição de manejo alimentar e sanitário correto, indicado pelo médico veterinário.

Texto por: Laís Querino; 8º período – Universidade Federal da Paraíba – UFPB

Edição e Revisão: Deivisson Aguiar. Médico Veterinário CRMV ES 1569

REFERÊNCIAS:

CARVALHO. C.F.et al. Ultrassonografia transcraniana em cães com distúrbios neurológicos de origem central. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.59, n.6, p.1412-1416, 2007.

JONES, T.C. HUNT, R.D., KING, N.W. Patologia Veterinária. Tradução Fernando Gomes do Nascimento. 6.Ed.São Paulo: Manole,2000,1301p.

McGAVIN, M.D., ZACHARY, J.F. Bases da Patologia em Veterinária. Tradução Patricia Dias Fernandes. et al.4. Ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009, 873-875p.

PEREIRA, Clairton Marcolongo. DEFEITOS CONGÊNITOS DIAGNOSTICADOS EM RUMINANTES NA REGIÃO SUL DO RIO GRANDE DO SUL. 2010.93f. Dissertação (Mestrado em Ciência Animal – Área de concentração: Patologia Animal) – Universidade Federal de Pelotas. Pelotas. 2010.

SANTOS, R.L. ALESSI, A.C. Patologia Veterinária. 2.Ed.Rio de Janeiro: ROCA,2016,498p;582p.

WAMMES,Jéssica Caroline Staffen.et.al.CICLOPIA EM SUÍNOS:RELATO DE CASO .Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária.n 19,jul/2000. Disponível em: <http://docplayer.com.br/17150043-Ciclopia-em-suinos-relato-de-caso-cyclopia-in-swine-case-report.html>>>>. Acesso em : 19/02/2017.

Fonte: Informativo Equestre

  • Compartilhe
  • <

Os comentários estão desativados.