Cássio, exemplo de determinação, garra e talento

Se por um lado a atuação da equipe do Brasil que largou com apenas três conjuntos nos Jogos Eqüestres Mundiais 2006 ficou aquém do desejado, por outro, a grande atuação do jovem talento Cássio Rivetti, 26, encheu de orgulho a todos brasileiros que tiveram a oportunidade de vê-lo no estádio 1 do complexo hípico de Aachen (Alemanha).

Montando a égua sela holandesa Olona, de 10 anos, Cássio garantiu pista limpa na prova de caça em 80s40 valendo-lhe o 8º posto na classificação parcial entre um total de 116 conjuntos.

Nas duas passagens Copa das Nações, o conjunto tornou a fazer duas grandes apresentações com uma e duas faltas respectivamente. Assim com 13,39 pontos perdidos ao longo da competição, Cássio terminou seu primeiro Mundial na 29ª colocação individual.


Um vôo de Cássio e Olona no Mundial 2006

Há quatro anos montando com Rodrigo e Nelson Pessoa, Cássio, que acumulou diversos títulos nas categorias de base no Brasil e vem fazendo uma grande campanha no circuito europeu, assim como nas seletivas do Mundial, revela uma receita simples de sucesso. "Eu me concentro e tento montar com alegria que tudo dá certo!"

Para o proprietário de Olona, Hamad N. Al Dabbous do Kuwait, a sensação era de satisfação. "Penso que tivemos uma participação de sucesso nesse Mundial, um concurso muito difícil, em que vimos muitos desastres com cavaleiros top. Tomamos cuidado com a égua, só fizemos os concursos que o Rodrigo e Neco (Pessoa) programaram para gente. Em três percursos fizemos 3 faltas e com uma menos teríamos ficado entre os 25 finalistas", destacou Dabbous, ao lado da família do cavaleiro.

Em recente passagem por São Paulo, em 19/9, Rodrigo Pessoa não poupou elogios ao jovem talento brasileiro. "Para mim, em primeiro lugar, é um grande prazer trabalhar com o Cássio, ele é o meu segundo piloto nas cocheiras. É muito sério, muito dedicado, extremamente talentoso, quer aprender, realmente dá muito gosto trabalhar com ele", destacou Rodrigo, que também comentou a atuação do cavaleiro no Mundial.

"É claro que a performance dele no Mundial surpreendeu. A Olona teve um bom desempenho em provas internacionais ao longo do ano passado, mas não a esse nível. O Cássio mostrou muita categoria, muita frieza e muita classe em seus percursos", elogiou o campeão olímpico que aposta em Cássio para o Pan 2007. "Embora o Pan esteja dentro das possibilidades para Cássio, com a Olona, nosso objetivo agora é poder fornecer a ele um cavalo ainda melhor."


Cássio na arquibancada dos cavaleiros em Aachen

E para aqueles que ainda não conhecem Cássio ou querem saber mais esse jovem talento, que vive na Bélgica ao lado de sua namorada Fabiana, apresentamos em nossa seção Hall da Fama 2006 uma entrevista exclusiva realizada em 2/9 no lounge dos cavaleiros em Aachen.

PFDP -  Voltando atrás no tempo, comente sobre o início de sua carreira e seus principais títulos nas categorias de base no Brasil.

Cássio Rivetti - Comecei a montar aos 7 anos com o Caio Sérgio de Carvalho no Horse Center e depois quando fechou fomos todos para a Hípica Paulista.

Em 1994, fui campeão brasileiro mirim. Em 1995, fui campeão junior no Intercontinental no México. Em 97, integrei a equipe campeã junior na Argentina e em 98 fui vice-campeão brasileiro e campeão sul-americano por equipe. Depois fiquei um tempo estudando, saltei muito cavalo novo e quando me formei vim para Europa.

PFDP – Em que você se formou e como foi a sua trajetória ao chegar na Bélgica?

Cássio - Me formei em 2003 em administração e logo em seguida vim para cá. Quando cheguei fui montar com o Pedro Veniss que já morava aqui e depois de um mês o Rodrigo me chamou para montar com ele. Em seguida, o Neco me chamou também e estou com os dois até hoje.


Cássio com Nelson Pessoa em clique no reconhecimento de pista

PFDP – Onde você mora e qual a sua rotina de trabalho no dia-a-dia?

Cássio – Moro na cidade de Fleuros, o lugar do manège do Neco. Começo a montar às nove horas da manhã e terminou lá pelas cinco tarde, volto para caso e descanso.

Monto uma média de 10 cavalos por dia. Trabalho os cavalos de competição de Rodrigo e do Neco e a Olona cujo proprietário também tem outro cavalo de 7 anos. Como a gente viajava bastante para concurso, quando temos um tempo a gente prefere ficar em casa.

PFDP – Há quanto tempo você monta a Olona? É verdade que, em principio, ninguém acreditava no potencial dela?

Cássio – Monto ela desde 2004, quando ela tinha oito anos. A Olona não é uma égua espetacular, sempre salta no limite - de 1.20 m a 1.50 m - sempre igual. Então o pessoal não acreditava que ela podia saltar grande, 1.60 m.

Até as seletivas do Mundial, ela nunca tinha saltado 1.60 m. A gente foi colocando e ela fez 1.60 m igual 1.30 m, passando os obstáculos sempre no limite, "econômica"... Aí a gente acreditou nela, aliás, eu sempre acreditei que a Olona tinha qualidade para fazer essa altura. Há dois anos atrás eu falei para o proprietário da Olona que ia colocá-la no Mundial. E ele sempre perguntava se ela estava bem, nos apoiando e dando força.


Cássio, com Olona, feliz com seu desempenho no Mundial 2006

PFDP – Como foi a sua trajetória ao longo das seletivas?

Cássio – A gente saltou em Arezzo e a Olona ficou entre os melhores da short-list. Depois em Lisboa, na primeira prova, ganhamos. No GP ela tinha se machucado e não foi muito bem. A gente só viu depois. A essa altura eu acho que a comissão esfriou um pouco.

Em seguida, ficamos um tempo sem concurso e a equipe foi para Lummen, enquanto eu fui para Hackenburg na Alemanha, um concurso forte e concorrido. No primeiro dia, eu fiquei em 5º e no GP ela desviou no rio e fez zero. O nosso próximo concurso foi em Falsterbo onde chegamos em 3º na Copa das Nações. No GP eu fiz uma falta e volteio a ter uma chance.

PFDP –  Quando você teve a notícia da sua escalação para o Mundial?

Cássio -  Eu vinha na vaga de quinto cavaleiro (reserva). Mas como os outros cavalos se machucaram a decisão da escalação definitiva sairia na última semana de Valkenswaard. No GP da sexta-feira, eu fiquei em 3º, o Doda, com Nike, fez um ponto de excesso e o Vitor, com O de Pomme, que não estava muito bem, fez quatro faltas. Ao final, eu e o Doda entramos como titulares. Lutei até o fim, foi bom, pois sempre consegui responder em pista.

PFDP – Esse foi o seu primeiro Mundial. Qual a emoção de saltar aqui em Aachen?

Cássio - É um sonho! Sempre desde pequeno eu via tudo lotado aqui. Saltar em Aachen é espetacular, não tem palavras, é uma emoção indescritível! São 50 mil pessoas assistindo, é muito bom...


Cássio e Olona fazem bonito no time dos grandes

PFDP – Comente o seu desempenho no segundo percurso da Copa das Nações em que você fez duas faltas, mas depois passou muito bem o triplo, uma das maiores dificuldades do percurso.

Cássio - Eu bati no oxer de nº 5, que era uma linha de seis lances curtos depois do duplo. A Olona me puxou um pouquinho para dentro e eu não consegui voltar a distância que deu no pé do obstáculo. A gente subiu muito e não cobriu a largura.

A outra falta foi na vertical de nº 7 sete lances depois do muro. A Olona espalhou um pouquinho, pois o salto que era em direção ao paddock, e deu uma "lambidinha". Já no triplo ela mostrou potência e qualidade para saltar 1.60 m, além de um coração enorme!

PFDP - Você parece muito frio e tranqüilo em pista. Sempre foi assim?

Cássio – Sempre, desde pequeno. Também não fico nervoso no paddock. Eu me concentro e tento montar com alegria que tudo dá certo!

PFDP –  A seu ver, qual a importância da base (iniciação) para um cavaleiro chegar às principais competições do mundo?

Cássio - Com certeza, uma boa iniciação é tudo para o futuro. E não só montando, desde a gente era pequeno, o Caio Sérgio de Carvalho nos ensinava a ter tranqüilidade e lidar bem com os cavalos.

PFDP – Hoje no seu dia-a-dia qual a importância do trabalho de plano?

Cássio – O mais importante é saber trabalhar, formar, fazer um cavalo para depois saltar. Não adianta você saltar um cavalo sem ter uma boa base de trabalho, é preciso começar da maneira correta e isso o Neco e Rodrigo passam muito para a gente.

PFDP – Com que freqüência você costuma saltar um cavalo?

Cássio - Se temos um concurso agora e o próximo é daqui a um mês, a gente passa um mês só trabalhando sem dar um salto. Depois, salta um dia antes de ir para prova. A base de tudo é o trabalho. A gente salta muito pouco.

PFDP – Para quem foi criado no Brasil em São Paulo, como é morar em uma cidadezinha do interior na Bélgica?

Cássio - É difícil. Mas para mim foi fácil porque eu cheguei e fui morar com o Pedro (Veniss). Os brasileiros estão sempre juntos e a gente fica direto com os cavalos. Quem vem para cá precisa vir com cabeça para montar porque a vida social aqui é chata. O povo é meio frio. A gente tem que se voltar 100% ao cavalo.


Cássio e Fabiana de bem com vida e casamento à vista

E agora eu a Fabiana já estamos morando juntos há um ano e vamos casar no ano que vem. Agora a vida ficou boa aqui.. ! (rs..)

PFDP – Para que as pessoas possam te conhecer um pouco melhor, gostaríamos de saber se você tem algum hobby e qual o seu prato predileto?

Cássio – Futebol. A gente, os tratadores brasileiros, o Pedro e eu jogamos sempre que possível.

Quanto à comida, arroz e feijão não pode faltar. A Fabiana faz, eu faço também, aprendi a cozinhar bem.. ("Ele me ensinou"... revela Fabiana)

PFDP – Qual o próximo objetivo em sua carreira?

Cássio – Quero lutar pela vaga na equipe brasileira do Pan, batalhar, fazer as seletivas e tentar chegar no ranking dos 50 melhores cavaleiros do mundo.


Técnica e competitividade - Cássio, com Olona, forte candidato a uma vaga na equipe brasileira no Pan 2007

PFDP – Deixe uma mensagem para quem está começando no hipismo e sonha em ter carreira internacional?

Cássio – É preciso se dedicar, abrir mão de várias coisas para conseguir chegar aonde você quer. Dedicação e determinação são o mais importante.

PFDP – Você é formado em administração. Você acha importante fazer uma faculdade mesmo que se queira seguir carreira no esporte?

Cássio – Estudar é importante para formar a pessoa. É muito bom ter uma formação em outra área.

PFDP – Finalmente, para encerrar a nossa entrevista, você gostaria de dedicar sua participação no Mundial a alguém?

Cássio - Sim, eu gostaria de dedicar a Fabiana que estava sempre comigo desde o início, ao meu amigo Pedro, ao Rodrigo e ao Neco e aos meus pais que também sempre me apoiaram e acreditaram em mim. E também ao Caio, pois sem ele não eu também teria chegado aqui.

Cássio em família

Morar na Europa não é fácil, embora Cássio definitivamente não tem do que se queixar. Além de poder montar e trabalhar com Rodrigo e Nelson Pessoa, agora faz um ano que Fabiana, 25, mora com o cavaleiro.

E o que faz a futura sra. Rivetti nas horas vagas? "Estudo francês e estou aprendendo a montar", revela Fabiana. Se ela já está dando uns pulinhos? "Não.. , ela tem medo..", entrega Cássio.

"Acho que vou ficar no trote e galope", garante a amada que enche Olona de mimos. "Adoro os cavalos, principalmente, a Olona. Eu trago chocolate, maçã.. os outros ficam só olhando.."


Caio Sérgio de Carvalho, Cidinha ao lado do filho Cássio, Hamad N. Al Dabbous, proprietário da égua Olona, Luiz Antônio Rivetti e Fabiana, namorada do cavaleiro

Orgulho de mãe não tem preço. Bastante emocionada, Cidinha, mãe de três filhos, vê na participação do caçula Cássio "a uma compensação por toda uma vida de dedicação. Estar aqui nesse lugar, neste momento é muito bom. Uma satisfação enorme."

Quanto à estrutura de Aachen, o mais tradicional centro hípico do mundo, Cidinha faz uma bela colocação. "Eu só ouvia falar. Estou impressionada, porque a gente não imagina que haja um centro onde o cavalo seja tão valorizado", ressalta a brasileira.

"O número de pessoas que está aqui circulando diariamente em um dia de semana é algo incomum. A gente nunca viu isso no Brasil. A organização também impressiona muito, com destaque para as pessoas idosas trabalhando, uma valorização muito bonita", complementa Cidinha.

Já o gosto pelos cavalos na família Rivetti veio através do pai, o médico Luiz Antonio Rivetti. "Sempre gostei muito de cavalo. Me lembro de um passeio de final de semana em que eu estava andando a cavalo com o Caio, meu filho mais velho, e o Cássio na garoupa e o cavalo disparou. Eles se atiraram e começaram a ficar com medo. Aí nós resolvemos - como a gente já conhecia o Caio Sérgio de Carvalho que.tinha ligação com a nossa família - colocá-los no Horse Center (antigo centro hípico na ponte João Dias em São Paulo) para perder o medo e aprender a montar direito", lembra Rivetti.

Ver o filho se sair bem nos JEM 2006 é motivo de orgulho, mas não, uma surpresa para o pai do cavaleiro. "Não tenho palavras, é maravilhoso ver o Cássio, aos 26 anos, em uma equipe brasileira. Acho que o mérito é todo dele, porque ele é um indivíduo determinado, têm objetivos, sabe o que quer", diz Rivetti.

"No primeiro campeonato, um Paulista de Mini-Mirins, ele entrou e ganhou. Então ele sabe o que quer, é um esportista nato, joga bem tênis, futebol vai bem em qualquer esporte e é muito inteligente. Ele acha que não.. mas fica muito fácil para ele", acrescenta o pai coruja.


Cássio com seu pai Luiz Antônio Rivetti e o seu primeiro e grande instrutor Caio Sérgio de Carvalho

Ao lado da família Rivetti está Caio Sérgio de Carvalho, instrutor de diversas gerações de campeões – em especial do sobrinho Pedro Veniss, Cássio, seu filho Zé Luiz, entre outros.

"Sem dúvida é um orgulho ver o Cássio e Pedro chegarem a um nível de um Mundial. Desde pequenos trabalhamos juntos. A participação do Cássio nesse Mundial é uma coisa super importante e realmente a gente se sente orgulhoso em ter contribuído de alguma forma no processo de iniciação e formação", destaca Caio.

"E uma coisa que eu sempre fiz questão de passar para eles é que o importante não é só montar bem, mas também as atitudes embaixo do cavalo. Atitudes como pessoa, além de serem ótimos cavaleiros, eles também são ótimas pessoas."

Entrevista e redação: Carola May
Fotos: Cedidas pelo entrevistado e PFDP









 
Política de Privacidade | Aviso Legal | Cadastre-se | Fale Conosco | Anuncie