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Cavalos são as maiores vítimas do 'novo' vírus: quatro amostras de animais do Espírito Santo deram positivo para a febre, em exames moleculares Foto: Fábio Guimarães / Agência O Globo

20 de junho de 2018

Febre do Oeste do Nilo mata cavalos no Espírito Santo e preocupa médicos

RIO – A comprovação de que quatro cavalos morreram de febre do Oeste do Nilo no Espírito Santo levanta na comunidade científica o temor de que o vírus, transmitido pelo mosquito Culex, o pernilongo comum, esteja circulando no país. Parente dos vírus da zika, da dengue e da febre amarela, ele pode infectar seres humanos e animais, especialmente alguns tipos de mamíferos, mas a preocupação maior dos especialistas neste momento é com os equinos. Devido à alta incidência nos últimos anos de dengue e zika no Brasil e também à vacinação contra a febre amarela, espera-se que boa parte das pessoas no país tenha desenvolvido certa imunidade a essa nova doença.

Surtos recentes de doença neurológica em cavalos em Goiás, ainda sem causa identificada, acenderam o alerta de que o vírus pode ter se espalhado para outros estados. Especialistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) se preparam para investigar se o vírus infecta cavalos no Estado do Rio. As quatro amostras colhidas no Espírito Santo enviadas ao Instituto Evandro Chagas (IEC) tiveram resultado positivo em exames moleculares (PCR). O vírus foi isolado pela primeira vez no país numa delas, a de um cavalo com alta carga viral no cérebro.

Descoberta em 1937 em Uganda (daí a referência ao rio que nasce no país no nome da febre), a enfermidade se tornou mundialmente conhecida ao causar epidemias que mataram centenas de pessoas nos Estados Unidos no início dos anos 2000. Os especialistas frisam, no entanto, que, no Brasil, o risco é bem menor para os humanos porque o vírus é da mesma família dos flavivírus que já circulam no país. Isso reduz o risco de desenvolvimento da doença em grande parte da população, explica o virologista Pedro Vasconcelos.
Mosquitos Culex, mais conhecidos como pernilongos, são os transmissores da febre do Oeste do Nilo – Angelo Antônio Duarte / Agência O Globo

AMEAÇA GRANDE PARA ANIMAIS

Seres humanos raramente morrem devido à febre do Oeste do Nilo — somente 1% dos infectados desenvolve sintomas graves, como a encefalite, caracterizada por inchaço e inflamação do cérebro, com forte dor de cabeça. Cerca de 80% dos casos são assintomáticos e os demais apresentam apenas sintomas difusos, como febre e dores de cabeça e no corpo, quase sempre brandos.

— Nos EUA, a população era muito suscetível pela falta total de contato com outros flavivírus — pondera Vasconcelos, que dirige o Instituto Evandro Chagas (IEC) em Ananindeua, no Pará, centro nacional de referência para a doença, aonde as amostras de cavalos do Espírito Santo foram analisadas. — Não se pode excluir, claro, risco para os seres humanos. A vigilância tem que estar ativa. O vírus pode se espalhar pelo país, mas a princípio, a maior ameaça é veterinária. Para as pessoas, o risco seria mais significativo apenas no Sul, porque lá houve menos casos de flaviroses (dengue, zika e febre amarela) e, logo, em teoria, haveria menos imunidade cruzada.

Segundo o especialista, outra vulnerabilidade do Sul é que a região tem ainda consideráveis concentrações de aves migratórias. São as aves e não os mamíferos os reservatórios do vírus, que se espalha pelo mundo levado por elas. Em seres humanos e equinos, o vírus circula por seu sangue por pouco tempo e em menores concentrações. O vírus se espalha quando pernilongos que picaram aves doentes atacam também pessoas ou equinos. Mas dificilmente mosquitos viram vetor da doença após picar humanos ou animais infectados.

O Brasil desde o fim dos anos 90 faz vigilância das aves migratórias, mas poucos testes foram positivos para a presença do vírus da febre do Oeste do Nilo. Em seres humanos, houve apenas um caso positivo notificado, no Piauí, em 2015. O estado nordestino também costuma receber muitas aves migratórias.

Mesmo com baixo risco, o chefe do Laboratório Virologia Molecular da UFRJ, Amílcar Tanuri, defende uma investigação do vírus da febre do Oeste do Nilo nos cavalos, não só por suas consequências para a saúde animal, mas também para estudar possíveis desenvolvimentos para os seres humanos.

— Ele pertence a uma família de vírus perigosos e é disseminado pelo mosquito mais comum. Só isso já o torna um risco — diz o cientista, que lidera o grupo que vai avaliar equinos no Rio.

Fonte: O globo

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