Por Fora
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11 de abril de 2016

Excrementos de cavalo esclarecem enigma histórico

A travessia realizou-se no ano 218 antes de Cristo e constituiu uma das proezas militares mais notórias da Antiguidade: um exército de 38.000 homens veio do Norte de África, desembarcou na Península Ibérica e pôs-se a caminho da Península Itálica. Levava consigo 15.000 cavalos e 37 elefantes – sendo estes sobretudo uma máquina de guerra psicológica, que aterrorizava os inimigos, mas era imprestável para um confronto nos climas inóspitos da Europa.

O general Aníbal, com 28 anos de idade, procurava com essa enorme expedição atingir os centros vitais de um império nascente, que disputava à sua Cartago norte-africana a hegemonia sobre a bacia do Mediterrâneo.

O problema de como atravessar os Alpes era difícil de resolver e nesse transe morreram numerosos soldados e, sobretudo, grande parte dos elefantes. Há mais de um século, o historiador Gavin de Beer sugeriu que, nessa difícil escolha, Aníbal terá optado pela rota mais curta, pelo sul, através do desfiladeiro de Traversette. Mas a hipótese não convenceu a comunidade científica, porque o caminho, a 3.000 metros de altitude, era muito difícil de percorrer.

Outros especialistas emitiram então como hipóteses alternativas a de um caminho pelo desfiladeiro de Montgenèvre, Havia ainda a possibilidade de as tropas cartaginesas terem seguido um caminho mais a norte, ao longo do rio Isère e depois pelo desfiladeiro de Clapier, ao nível do rio Pó.

Agora, o geólogo William Mahaney, da Universidade York, de Toronto, interveio na discussão, a favor da hipótese original, reforçando a aposta no caminho pelo desfiladeiro de Traversette com um argumento que é, pode dizer-se, de bosta cavalar.

Segundo um relato publicado no diário suíço Neue Zürcher Zeitung, Mahaney e dois outros investigadores partiram desse caminho como o mais provável e foram analisar os solos a 2.600 metros de altitude. Aí encontraram altas densidades de dióxido de carbono e vários marcadores biológicos que indicam a existência de grande quantidade de excrementos. Depois, trataram de determinar a idade desses materiais e chegaram à conclusão que coincide aproximadamente com a data da travessia alpina de Aníbal.

Além disso, encontraram também um micróbio de um grupo bacteriano chamado Clostridia, habitual nas fezes e capaz de sobreviver durante milénios. E procuram ainda ovos de parasitas que possam indicar a presença, àquela data e naquele local, de cavalos, pessoas e mesmo elefantes.

A perplexidade sobre a escolha de um caminho tão perigoso continua entretanto a ser enfrentada com especulações sobre o receio, por parte de Aníbal, de cair em emboscadas de tropas gaulesas. De qualquer modo, Aníbal conseguiu chegar à Península Itálica e infligir várias derrotas ao exército romano. Mas as perdas que tinha sofrido na travessia dos Alpes iam fazer-se sentir ao cabo de uma campanha prolongada: na batalha de Zama foi derrotado. Cartago, que queria destruir Roma, foi destruída para sempre.

Fonte: RTP/Reuters

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