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Kelly e Nanquim, na época em que ela ainda fazia parte da BM | Foto: CAPA/Divulgação

16 de julho de 2017

Ex-policial da Brigada Militar luta para adotar cavalo que irá a leilão do governo do Estado

Nanquim era o menor da turma de sete cavalos que a Brigada Militar de Passo Fundo treinou em 2007. Um SRD (sem raça definida), de cinco anos, pelo zaino, não tinha boa altura, a cabeça era maior que o corpo, era considerado “feio” perto dos outros colegas de lote.

Como a mãe morreu logo após o parto, foi criado guaxo, recebendo leite na mamadeira, que era comprado por um policial militar que trabalhava na fazenda da BM. Cresceu rebelde. Na hora da doma, foi o que mais deu trabalho para aceitar arreios e ordens. Não foi de se estranhar que no dia em que os policiais militares da Cavalaria escolheram seus cavalos, acabou sendo deixado por último.

Assim Nanquim acabou se tornando parceiro de patrulha de Kelly Thimoteo. Logo no primeiro dia que saíram às ruas a trabalho – já três dias depois da estreia dos outros cavalos recém-iniciados – ainda na porta do 3º Regimento de Polícia Montada (RPMOn), ele empinou e quase a derrubou no chão. A primeira não foi a última vez. Dez anos depois, Kelly diz que ainda tem cicatrizes dos tombos que levou por causa de Nanquim.

Durante três anos, os dois trabalharam juntos na região do Planalto Médio do Rio Grande do Sul. Kelly chegava para trabalhar às 6h da manhã e já tinha uma rotina ensaiada: dava um grito na entrada das baias, Nanquim respondia com um relincho. Quando ela tomou a decisão de que não seguiria na Brigada Militar, deixar o cavalo para trás foi a parte mais difícil. “Foi a única coisa que me machucou. Eu abracei ele e disse que não ia desistir dele. E faz sete anos que estou lutando para ter ele comigo”, conta.

Depois da saída de Kelly, Nanquim seguiu no Regimento de Polícia Montada por mais cinco anos. Há dois anos, no entanto, ele foi aposentado. Junto com outros cavalos considerados excedentes no regimento, foi deixado para viver no campo aberto da fazenda de 1.200 hectares que a BM mantém em Passo Fundo. Nos primeiros cinco anos, Kelly tentou adquiri-lo direto com o Comando local. Ouviu negativas todas as vezes, justificadas pelo fato de que Nanquim ainda estava servindo e era jovem. Quando soube da “aposentadoria”, ela achou que teria brecha para levá-lo para outro lugar.

“Telefonei para o Coronel Canto, que é o veterinário, pedi novamente: Será que agora eu conseguiria, já que ele está sem uso? Ele disse que não”.

Há pouco tempo, no entanto, Kelly descobriu que Nanquim está no lote de cavalos a ser leiloado pelo governo do Estado em breve. Primeiro, ela achou que ele seria enviado para Santa Maria ou Santo Ângelo – cidades que terão leilões de equinos em julho, segundo o site da Secretaria de Administração e Recursos Humanos (Sarh) – mas teve confirmação que Passo Fundo terá um leilão próprio em agosto. O edital dele, com previsão de quantos cavalos serão colocados à venda, ainda não foi divulgado.

Leilões seriam parte de ‘gestão moderna’

Leilões de cavalos da Brigada Militar não eram prática comum no estado. Segundo a Celic (Central de Licitações), a corporação costumava fazer leilões apenas com gado criado em suas fazendas. A decisão de vender os cavalos teria ocorrido por uma soma de fatores. Primeiro, o grande número de animais, já que eles teriam se reproduzido em excesso. Depois, o fator da diminuição do efetivo policial da Brigada – com menos policiais, menos cavalos são necessários. O que trouxe também o anúncio do governo de José Ivo Sartori (PMDB) de fechamento dos Regimentos de Polícia Montada em 12 municípios do interior do Estado – Vacaria, Santiago, Santa Cruz do Sul, Cachoeira do Sul, Santo Ângelo, São Gabriel, Bagé, Pelotas e Rio Grande. Além do encolhimento no número de policiais e cavalos em outros três – Santa Maria, Santana do Livramento e Passo Fundo. E por fim, o corte de gastos, já que a manutenção dos animais, com remédios e alimentação seria cara para o poder público.

Em abril, o Chefe do Estado Maior da Brigada Militar, Coronel Júlio César Rocha Lopes, divulgou uma nota em que dizia que a decisão era parte de “uma gestão moderna, calcada no planejamento estratégico” e que se baseava “em estudos que identificaram a necessidade de otimizar a forma de utilização do emprego de equinos e de cães na corporação”. O estudo teria considerado “diversos aspectos técnicos, dentre eles as características locais e orçamentárias”. A nota fala também em padronizar a raça dos animais para resultados “mais efetivos”.

Depois de passar um ano morando em Portugal, Kelly reencontrou Nanquim em maio, quando foi até a fazenda da BM pra vê-lo. O cavalo que ela considera um amigo tinha as costelas à mostra. Além dele, outros cavalos criados soltos no campo estavam na mesma situação. A ex-brigadiana diz que eles não estariam recebendo suplementos ao pasto, como feno ou alfafa, que são comuns de serem fornecidos aos cavalos mantidos nas baias. Ela explica que se os cavalos tivessem sido criados sempre no campo, a alimentação suplementar poderia não fazer falta, mas como cresceram sendo tratados com ração, ao perder a dieta de uma hora para a outra, o corpo sofre mais rapidamente os efeitos.
Cavalos na fazenda Brigada que foram fotografados pelo Capa | Foto: CAPA/Divulgação

Na última segunda-feira (10), Kelly, que é advogada e presidente da ONG Clube dos Amigos e Protetores dos Animais (CAPA), foi até o 3º RPMon para denunciar a situação dos cavalos na fazenda da corporação e saber em que estágio estava seu pedido para ter preferência de compra de Nanquim. Junto com a ex-presidente da ONG, Zulma Marques, levaram ao conhecimento do Major responsável a situação que caracterizaram como “maus tratos” e a preocupação de que esses cavalos fossem os que seriam encaminhados a leilão.

A reunião acabou escalando para uma situação tensa. Zulma conta que foi acompanhar Kelly porque a organização sempre teve uma boa relação com a BM, através do Batalhão Ambiental. No momento em que usaram as palavras “maus tratos” a conversa mudou de tom. O Major que as atendeu passou a exigir documentos para que oficializassem a denúncia. Zulma disse que só protocolaria o caso no Ministério Público, já que a própria Brigada era a responsável pela situação. Ela estava na porta do Regimento, quando recebeu voz de prisão por “desacato”. Kelly se apresentou como sua advogada e evitou receber a mesma ordem.

“Me mantiveram na sala do comando por quatro horas. Depois ele chamou quatro brigadianos para registrar um termo circunstanciado. Quando eu disse que também queria representar contra ele, ele disse que eu não poderia, que deveria ir até a Polícia”, conta Zulma. Depois de ter sido liberada, ela e Kelly registraram um boletim de ocorrência por abuso de autoridade, duas denúncias no MP – uma pela prisão e outra pela situação dos animais – e na Corregedoria da BM. Procurados pela reportagem, nem o Regimento, nem o Major envolvido no episódio quiseram comentar o caso.

Em contato com o Departamento de Licitações e Patrimônio (DLP) da BM, em Porto Alegre, Kelly disse que eles afirmam nunca ter recebido seu requerimento para comprar Nanquim. Dentro da corporação, é comum que policiais que trabalham com animais se tornem fiéis depositários diante do pagamento de uma taxa simbólica de adoção. O que ela vem tentando usar como argumento para conseguir o cavalo. Esta semana, um abaixo-assinado em apoio aos dois foi criado na internet e já reúne mais de 1.300 assinaturas.

A preocupação dos protetores de animais é que os cavalos sejam encaminhados para abate ou o chamado “descarte”. O DLP não retornou a tentativa de contato, para responder como a questão está sendo tratada pela BM, até a publicação desta reportagem.

“Nossa preocupação é que eles possam morrer ali, a gente quer informações. Por que estão sendo deixados ali, que tipo de tratamento está sendo feito. O lugar desses cavalos não seria no campo, seria dentro de uma cocheira recebendo medicação”, diz Kelly. “Eu sinto que a Cavalaria perdeu a razão de ser, porque chegar ao ponto de não conseguir manter os veteranos na aposentadoria deles, tu é incompetente como entidade de Cavalaria”.

Fonte: Sul21

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