Medicina veterinária brasileira avança na clonagem eqüina e é precursora no tratamento com células-tronco

A medicina veterinária vem avançando significativamente no campo da genética, suas aplicações e reprodução de clones. No Brasil, o Laboratório de Biotecnologia Animal – BIO – em Brasília, terceiro maior laboratório do mundo, vem se dedicando com afinco a essa área. Paralelamente ao estudo dos processos de clonagem, o pioneiro tratamento com células-tronco está sendo aplicado com sucesso no tratamento do aparelho locomotor em eqüinos, especialmente, no tendão. 

"Até hoje, mais de 250 cavalos já foram tratados pela terapia celular. O resultado surpreende pela qualidade da reparação do tecido lesionado. Dentre os tecidos tratados, temos uma maior experiência no tratamento de tendões, visto que a sua casuística é maior em animais atletas de alto desempenho", diz o veterinário brasileiro Thomaz Montello, que traz em sua bagagem a experiência de mais 25 anos (1979 a 2006) como veterinário da equipe brasileira de salto e desenvolve esse trabalho em parceria com laboratório BIO.

Montello, médico veterinário do Comitê Olímpico Brasileiro e da FEI, atuou nos Pan-americanos de Caracas, Indianápolis, Cuba, Buenos Aires, Santo Domingos. Foi coordenador médico veterinário da FEI no Pan RIO 2007, trabalhou também nas Olimpíadas de Los Angeles, Barcelona, Atlanta, Sydney e Atenas. Também fez parte da Comissão Veterinária da FEI que vistoriou as instalações do Centro Eqüestre de Sha Tin, o Jockey Club de Hong Kong, sede das modalidades hípicas nas Olimpíadas 2008. Atualmente é um dos mais conceituados veterinários do cavalo de esporte no Brasil e a nível mundial.

Em entrevista ao PFDP, Montello abordou os principais pontos da clonagem e também a revolucionária técnica do uso de células-tronco, especialmente no tratamento de lesões em tendões.

PFDP - A palavra clone deriva do termo grego klon que significa broto. Como definição, a clonagem é uma maneira de reprodução assexuada, ou seja, sem o envolvimento de gametas, onde os indivíduos gerados são geneticamente idênticos. A nível mundial, quais as principais metodologias para produção de clones na atualidade? Por favor faça um breve resumo.
 
Thomaz Montello - Existem duas metodologias de produção de indivíduos geneticamente idênticos. A primeira técnica, mais simples e já estabelecida comercialmente, é a bipartição de embriões, que consiste em cortar mecanicamente em duas partes um embrião de 7 dias (estágio de desenvolvimento denominado de blastocisto). Esta técnica, apesar de ser eficiente, é limitada, pois só serão possíveis produzir, no máximo, dois indivíduos idênticos.

A outra técnica denominada transferência nuclear é amplamente utilizada nos modernos laboratórios de clonagem, possuindo os atributos de produzir indivíduos geneticamente idênticos e em escala. Para entendermos melhor esta elaborada técnica devemos dividi-la em 4 etapas:

1) Isolamento das células do animal a ser clonado
Nesta etapa, inicialmente devemos eleger quais as fontes doadoras de material genético do animal a ser clonado. Atualmente, existem vários tipos celulares utilizados como fonte doadora de núcleo, tais como fibroblasto, células do cumulus oophorus, células tronco, entre outras. Cada célula deste animal deve ser entendida como uma possível precursora de um novo indivíduo pela técnica de transferência nuclear. Devemos ressaltar que todas as células de um indivíduo adulto, independente de sua idade, possuem em seu material genético, todas as informações deste indivíduo. No entanto, dado à especialização destas células, poucas informações estão ativas, as demais, embora presentes, encontram-se inativas.

2) Preparação do ambiente para a reprogramação celular.
Paralelamente ao procedimento anterior, a técnica de transferência nuclear requer a preparação de um ambiente que permita reprogramar o material nuclear de cada célula a ser utilizada para a clonagem. Neste processo é utilizado o citoplasma de ovócitos (óvulos). Assim, devemos previamente remover mecanicamente o material nuclear (enucleação) deste gameta feminino.

3) Eletrofusão e Ativação.
Para que as células tenham o seu material genético reprogramado, isto é, que passe a se comportar como um novo embrião em seu estágio inicial de desenvolvimento (zigoto) é feita a fusão de cada célula a um citoplasma enucleado. Esta fusão se dá por uma pequena e rápida descarga elétrica sobre estes dois elementos. Assim, há uma desestabilização transitória das membranas plasmáticas da célula e do ovócito e, por conseguinte, fusão destas estruturas. A partir de então, os componentes encontrados no citoplasma do ovócito passam a interferir junto ao material nuclear da célula fusionada, tornando ativo novamente. Em seguida é feita a ativação química desta nova estrutura formada, que funciona como um novo "start" que induz a uma nova retomadas da divisão celular mitótica.

4) Cultivo in vitro.
Os embriões clones são cultivados in vitro por 7 dias e transferidos um a um para as receptoras, que são fêmeas que irão gestá-los a termo, sem interferir no material genéticos destes embriões.

PFDP - Quais as principais vantagens da utilização de células-tronco em relação a outras células convencionais?

Montello - Por entendermos que as células-tronco são células primitivas, com características totipotentes, acreditamos que o processo de reprogramação celular é facilitado.

PFDP - Quais as principais técnicas (mais efetivas) de transferência nuclear para efeito de clonagem? Quais as desvantagens dessa técnica em relação à utilização de células tronco?

Montello - Atualmente, a transferência nuclear é a técnica mais efetiva para a produção de animais clones. No entanto, cada laboratório faz as suas modificações do protocolo convencional buscando o seu aperfeiçoamento. Um exemplo disto está relacionado à eleição da fonte de células a serem trabalhadas. Utilizando células adultas especializadas, como por exemplo, o fibroblasto como fonte doadora de material genético, é observado uma maior incidência de comprometimentos clínicos neonatais quando comparamos à produção de clones utilizando as células-tronco.

PFDP - O laboratório de biotecnologia animal – BIO – em Brasília, terceiro maior laboratório do mundo nessa área e com o qual você trabalha em parceira, está realizando um trabalho pioneiro de clonagem de eqüinos de alto rendimento através de células tronco. Em que estágio está este trabalho? Quais os resultados obtidos até agora?

Montello - Este trabalho é conseqüência de outro desafio que lançamos em 2004. Naquela época, iniciamos os experimentos para o estabelecimento da terapia celular com o uso de células-tronco, o que resultou em excepcionais resultados e a aplicação comercial já em fevereiro de 2005. De lá para cá, novos desafios vem sendo lançados. Um deles, que já conseguimos vencer cerca de 70% de sua complexa metodologia é a produção de clones em eqüinos com a técnica de transferência nuclear. No nosso planejamento, nós dividimos esta parte experimental em 3 etapas a serem cumpridas: 1ª) adequação física do Laboratório de Clonagem no Laboratório BIO, unidade de Brasília; 2ª) produção rotineira de embriões clones eqüinos; 3ª) Transferência dos embriões clones para as éguas receptoras; 4ª) acompanhamento da gestação a termo; 5ª) avaliação clínica dos clones recém-nascidos. 

PFDP - Ao contrário do que se imaginava há tempos atrás, células-tronco estão presentes também em tecidos de fetos e indivíduos adultos, como o cordão umbilical, a medula óssea e o tecido adiposo, o que permite o tratamento com células tronco autólogas (do próprio animal) em indivíduos adultos. Quais as aplicações da utilização de células-tronco em processo de regeneração tecidual, especialmente no caso da lesão de tendões?
 
Montello - Já trabalhamos desde 2004 com o uso de células tronco na terapia celular, principalmente para tratamento de afecções do aparelho locomotor em eqüinos. Até hoje, mais de 250 cavalos já foram tratados pela terapia celular.

O resultado surpreende pela qualidade da reparação do tecido lesionado. Dentre os tecidos tratados, temos uma maior experiência no tratamento de tendões, visto que a sua casuística é maior em animais atletas de alto desempenho. Procuramos frisar que o grande papel das células tronco na terapia celular é a sua capacidade de regenerar o tecido lesionado, pois estas células apresentam o incrível papel de se modificar (diferenciar) em vários tipos celulares, quando estimuladas. Apesar de reduzirem significativamente o tempo de tratamento clínico, o grande valor da terapia celular com células tronco está relacionado à qualidade da recuperação do foco de lesão.

PFDP - Em quanto tempo você aposta que teremos o primeiro clone eqüino gerado a partir de células tronco no Brasil?

Montello - Precisar este tempo é difícil. Cada etapa que temos cumprido tem sido motivo de grande alegria e entusiasmo. Apesar de termos uma rotina de produção de embriões clones eqüinos, ainda não temos o nascimento de um potro pela técnica. Acredito que este fato acontecerá em breve.

CASOS DE SUCESSO:

Tratamento de lesão de tendão flexor digital superficial em cavalo de corrida Puro Sangue Inglês (PSI); fonte: www.biotecnologiaanimal.com.br

Tratamento de lesão dos tendões flexor digital profundo e flexor digital superficial em cavalo de salto - holsteiner; fonte: www.biotecnologiaanimal.com.br

Entrevista: PFDP - Carola May ; colaborou: Luiz Mauro V. Queiroz – Diretor de Tecnologia do Laboratório de Biotecnologia Animal e Presscom Marketing – Aline Domingues









 
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