Em 2008, a Associação Brasileira de Criadores do Cavalo de Hipismo (ABCCH) está sob nova gestão depois de uma eleição wm que pela primeira vez na história da entidade teve duas chapas. O industrial e criador, Antonio Celso Fortino, assumiu a Presidência, o empresário e cavaleiro, Paulo Foroni, a diretoria financeira, e o criador e sócio-fundador da entidade, Ênio Monte, permanece como Presidente do Conselho.
 Antonio Celso Fortino, novo presidente da ABCCH, com o seu cavalo Zyon For; foto: cedida |
Ao longo dos últimos anos a criação brasileira vem colhendo cada vez mais reconhecimento internacional. Em especial, a criação do cavalo Brasileiro de Hipismo (BH) que hoje tem base nas principais linhagens de esporte européias como - Holsteiner, Westfalen, Hannoverano, Selas holandês, francês e belga. além de Puro-sangue Inglês criados no Brasil e cavalos argentinos – completou, em 2007, três décadas de história – um período relativamente curto, em relação ao grande sucesso alçado atualmente, motivo este pelo qual merece ainda mais destaque.
 Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Hipismo completou 30 anos em 2007 |
Entre as medidas para incrementar a divulgação da raça BH e também promover maiores incentivos ao melhor desenvolvimento dos animais, a entidade dinamizará a visibilidade da raça, realizando diversas ações, entre elas, o IV Festival Nacional do Brasileiro de Hipismo, de 9 a 14 de setembro de 2008, no Clube Hípico Santo Amaro (CHSA). Na ocasião acontecerá ainda a Aprovação de Garanhões e o I Leilão do Brasileiro de Hipismo. Entre as ações com a finalidade de aprimorar ainda mais a qualidade das criações, a ABCCH implantará a utilização de chips de identificação nos animais, a criação de um Studbook de éguas, clínicas e palestras para criadores e profissionais envolvidos, etc.
 Criadores do Cavalo BH na sede da entidade; foto: divulgação |
A proposta da nova diretoria, segundo Fortino, "é trabalhar firme em algumas frentes, como a área administrativa, o fomento da criação, o esporte e ampliar, ainda mais, a divulgação do cavalo BH." Na área administrativa, informa o presidente, "houve a alteração de alguns procedimentos para agilizar os registros e transferências dos animais e dar controle mais efetivo sobre créditos, além da apresentação do novo site da ABCCH."
No fomento à criação, por exemplo, já se econtra em vigor um novo formato de registro, que consiste em um passaporte e chipagem, e a criação de estatísticas baseadas nos resultados hípicos de filhos de garanhões registrados no Stud-book bem como para as éguas. Na área esportiva vale destacar a criação de uma Copa do BH, premiações em espécie em vários torneios, além da realização de clínicas com profissionais especializados em cavalos novos. Paralelamente vem a dinamização na divulgação da raça com a contratação de uma empresa especializada em Assessoria de Imprensa. O presidente da ABCCH salienta que "a união de todas essas frentes ganhará corpo durante o IV Festival Nacional do Brasileiro de Hipismo".
Em entrevista ao Por Fora das Pistas, Antonio Celso Fortino comentou os principais pontos da nova gestão frente à ABCCH.
PFDP – Como está a situação política e financeira na Associação?
Fortino - As gestões que nos sucederam, apoiadas por funcionários dedicados e experientes, fizeram um excelente trabalho nestes últimos anos. Ressaltamos, nesse aspecto, a importância do então presidente doutor Ênio Monte, do então diretor financeiro, Romeu Ferreira Leite, e do superintendente Luiz Rocco. Percebo que a Associação cresceu: ela teve uma base muito grande, depois encolheu e voltou a crescer. Na última eleição foi a pela primeira vez na história da Associação em que houve duas chapas, e inúmeros sócios votando no dia da eleição, isso é muito significativo, pois aumentou o interesse pela entidade. Não somente pelos recursos financeiros – claro que facilita muito trabalho quando se tem o recurso - mas pelo negócio do cavalo que está crescendo e fica cada vez mais profissional. Estamos com mais gente participativa, isso é muito bom, porque quem hoje está à frente da associação tem um compromisso muito grande com a chapa que não foi eleita. Nós também estamos querendo retribuir pelo que o associado colaborou com a entidade, buscando prestar diversas modalidades de serviços, sem – no entanto – onerar em demasia os cofres da ABCCH.
PFDP - Gostaríamos também de saber qual a sua profissão e como nasceu o envolvimento com o cavalo?
Fortino - Sou industrial, tenho uma metalúrgica. A minha história com os cavalos começou quando eu montava no Clube Hípico de Santo Amaro. Com 10 ou 11 anos de idade, montei com o coronel Renyldo, depois fiquei um tempo ausente e viajei para o exterior. Sou sócio da ABCCH há muitos anos e sempre tive uma criação pequena. O meu haras se chama Sant'Anna e os cavalos levam o sufixo "For" que é a parte inicial do meu sobrenome.
Eu tive uma passagem pela Associação, como diretor administrativo, quando o Victorio Sichero foi presidente entre 95 e 96. Atualmente, o cavalo de minha criação de maior destaque é o Zyon For, campeão paulista, na categoria Young Riders, montado pelo meu sobrinho, Antônio Fortino. Outro cavalo muito bom, foi o Luan For, irmão próprio do Zyon For, que o Haras Método comprou e revendeu para o México e de lá ele seguiu para os EUA.
 Em clique espetacular de Zyon For, com Antonio Fortino Neto, campeão paulista young riders 2007; foto: Tupa |
PFDP – Na ocasião das eleições, uma proposta defendida pela chapa vitoriosa, que agradou os criadores dizia respeito à implantação do Passaporte e do chip de identificação nos cavalos BH. Por favor comente em que estágio estão estas propostas.
Fortino - Primeiro conseguimos junto à Confederação Brasileira de Hipismo (CBH) o reconhecimento do formato do nosso Passaporte, ou seja, quando o potro nascer e for registrado na ABCCH receberá um Passaporte válido pelo resto de sua vida. Ao ingressar na vida esportiva ele apenas terá que agregar a capa CBH. Além disso, o potro será micro-chipado e, com isso, terá número que será reconhecido em qualquer parte do mundo. Estamos alterando nosso sistema de informática para esse novo modelo e treinando os técnicos para capacitá-los a implantar o chip.
Por isso neste ano o novo formato de registro é facultativo, mas a partir de 2009 será obrigatório. Na Europa todos os cavalos de esporte já têm o chip e a médio longo prazo isso vai ser muito bom no Brasil. Em uma prova será possível passar um leitor no cavalo que exibirá a filiação, resenha e, inclusive, com a possibilidade de mostrar o histórico hípico do cavalo, gerando um número de identificação em nível internacional.
PFDP – E quanto ao exame do DNA para identificação dos animais?
Fortino – Fizemos uma concorrência e o laboratório vencedor vai fazer o DNA das éguas a custo zero para a entidade. O custo de exame de DNA não é alto - fica entre R$ 40,00 e R$ 50,00 – e será cobrado apenas no caso dos BHs machos. Então o laboratório fará a análise de todas as éguas e potros que sairão com DNA – isso também já é uma norma do Ministério da Agricultura para todas as raças eqüinas. O DNA dá uma credibilidade enorme à criação e essa ação acontece, praticamente, ao mesmo tempo que a implantação do chip / passaporte.
PFDP – Quanto ao trabalho dos cavalos nos haras, especialmente, junto aos cavaleiros, existe algum projeto de clínicas?
Fortino - Ainda não temos nenhum projeto formatado. Mas já contamos com um amplo estudo, pois também detectamos que faz parte da iniciação do cavalo ter uma orientação mais verticalizada, focada especificamente no aprimoramento desse animal. Isso, principalmente, junto aos criadores novos. Por esse motivo está em formatação um programa de clinicas com um cavaleiro internacional especializado em formar cavalos novos, o que deve ocorrer após o IV Festival Nacional do Brasileiro de Hipismo. Precisamos adequar a agenda dos criadores e proprietários e elaborar um farto material impresso para servir como base de consulta.
PFDP – Quais os eventos especiais voltados ao Cavalo BH?
Fortino – A nova diretoria assumiu a entidade com alguns objetivos definidos. Alguns deles, como a implantação de chip nos animais, a realização do Festival, do 1º Leilão da entidade e as novas regras para Aprovação de Garanhões já são realidade. Mas acreditamos que isso é apenas para suprir algumas deficiências naturais.
Avaliamos que é necessário implantar um programa mais consistente de intercâmbio entre criadores, facilitar aos associados o acesso a novas tecnologias, ampliar a visibilidade da raça no mercado interno, externo e o número de associados, incentivar o preparo de jovens cavaleiros e amazonas que montam animais da raça e, finalmente, atrair um maior número de público aos nossos eventos e assim por diante...
Faremos ainda, como é realizado na Europa atualmente, um evento que reúna o potro do futuro, juntamente com a Aprovação de Garanhões e o Campeonato de Brasileiro de Cavalos Novos e, quem sabe, fazermos uma Exposição dos Potros. Não no formato antigo quando havia mais de 20 categorias - que incluía cavalos desde os 6 meses até 7 anos de idade.
PFDP – Na última Aprovação de Garanhões a entidade buscou a implantação de um novo modelo em que somente seriam aprovados os garanhões de nível A (máximo). Como está essa questão, haverá outros ajustes?
Fortino – Sim! Em recente reunião, as Comissões Técnica e Administrativa, da ABCCH, com a nossa acabamos de definir as novas regras que nortearão a nossa Aprovação de Garanhões. Entre as novas regras, a que promete dar um novo rumo à criação de BH no país será a que determina que somente os animais que atingirem nota igual ou superior a 80 pontos receberão o título de "Garanhão Aprovado" e poderão cobrir um número indeterminado de éguas, por tempo indeterminado.
Os animais que ficarem com notas entre 50 e 80 pontos e se enquadrarem no Regulamento de Aprovação de Reprodutores aprovado pelo Ministério da Agricultura receberão o título de "Garanhão Aprovado Provisório", e poderão cobrir no máximo 10 éguas. No entanto, esses animais podem obter o título de "Garanhão Aprovado" se três de seus produtos forem apresentados à Comissão de Aprovação, nos anos subseqüentes e obtiverem índice suficiente. Finalmente, não serão aprovados os animais que obtiverem nota inferior a 05 (cinco) em quaisquer dos quesitos. Existem outros itens nas regras definidas, que o Associado ou outros interessados em saber, podem tomar conhecimento acessando nosso site: www.brasileirodehipismo.com.br
PFDP – No Brasil, o Holsteiner aprovado BH, Landritter, que infelizmente faleceu em abril desse ano, já provou ter ótima progênie, sendo líder absoluto de estatística com base em sua progênie nas pistas tanto que recentemente conquistou o pentacampeonato BH.
Fortino - Realmente é verdade, eu tive o prazer de estar presente na sua aprovação no Brasil, pois houve um período em que mesmo sendo aprovado no exterior o garanhão precisava ser aprovado também no Brasil. Hoje não, se o garanhão é aprovado pela entidade a que é filiado, entidade essa membro associado da WBFSH, em qualquer parte do mundo, ele automaticamente está aprovado no Brasil. Neste nova proposta de formato, as distorções porventura ocorridas na aprovação podem ser corrigidas com amostragem da produção do determinado garanhão.
 Luis Rocco, superintendente da ABCCH, com Bia Nicotero, do Haras Feroleto, recebe o troféu do pentacampeonato do BH Landriiter, ao lado de Ênio Monte, atual presidente do Conselho da ABCCH; foto: Emerson Emerim |
PFDP – Lembramos de um caso em que um Puro-sangue Inglês brasileiro, de propriedade do Haras do Anjo, não foi aprovado no Brasil e posteriormente foi vendido e produziu muitos filhos na Alemanha. A seu ver, os criatórios de BH deviam ter acreditado um pouco mais na qualidade do nosso puro-sangue inglês?
Fortino - A base de nossa criação foi feita por Puro-sangue Inglês, talvez na ocasião não fizesse sentido utilizar mais animais dessa raça sobre as éguas, que já tinham esse sangue. Por isso foi de profunda sabedoria, criadores como Marcos Vale Mendes, Vitor Foroni, Ênio Monte, Benedito Nicotero, entre outros, trazerem reprodutores da Europa para cruzar com nossas éguas. Boa parte do sucesso do BH se deve a essa fórmula. Hoje na Europa, estão usando muito Puro–sangue Inglês porque a criação está dando muito inbreed. Aqui no Brasil ainda temos a vantagem que na nossa base tem muito Puro-sangue Inglês e já está comprovado que se você não tiver um Puro-sangue até a quarta geração, acaba tendo um produto de características muito passivas.
PFDP – Cada vez mais os criadores brasileiros estão se conscientizando da importância de ter boas éguas. A Associação também pode fornecer algum subsídio nesse sentido?
Fortino – Sim, outro projeto da Associação é criar uma estatística sobre as éguas. Nós estamos fazendo um novo formato de estatística do cavalo de salto, em que saberemos não só quais animais machos estão pontuando mais, como também sobre a vida de seus pais, avós e sobre suas mães. Essas informações estarão disponíveis em nosso site em breve e, com certeza absoluta, será uma ferramenta muito útil para quem cria cavalos da raça BH e/ou os compra também. No exterior, a estatística é uma bíblia!
Os grandes criadores têm acesso a essa informação, mas o que a gente está buscando é aumentar o número de pequenos criadores e compradores e dar subsídio a eles. Para saber se um determinado cruzamento vai dar certo se passam de quatro a cinco anos, daí a necessidade da credibilidade estatística – pois é melhor trabalhar com base em probabilidade alta do que achando que se cruzar "a com b" vai dar uma coisa boa.
PFDP – A baixa premiação para cavalos novos também é um dos fatores que prejudicam o melhor desenvolvimento esportivo da raça. A ABCCH planeja alguma inovação nesse sentido?
Fortino - Tanto no Paulista como no Brasileiro de Cavalos Novos, a Associação já suplementa a premiação, mas queremos melhorá-la. Criamos uma comissão liderada pelo Francisco Cirne Lima, com a participação do Paulo Foroni, do Sergino Ribeiro de Mendonça e a minha, em que a idéia é criar um projeto para mantermos a premiação por categorias, valorizando mais o cavalo novo de 7 anos. A Associação já inovou esse ano com uma premiação extra para os melhores cavalos BH da 40ª edição do The Best Jump e na recém criada Copa do Cavalo BH também haverá uma premiação equivalente ao que se distribuía no ranking que ocorreu até o ano passado. Já no IV Festival Nacional do Cavalo BH a premiação será superior a R$ 150.000,00.
PFDP - Devido às baixas premiações muitas pessoas acabam colocando seus cavalos em disputas "caça níquel" não dando o devido tempo a eles. Como você vê isso?
Fortino - Exatamente, essa também é a nossa opinião. E essa afirmação se confirma nas poucas inscrições de cavalos saltando a categoria 7 anos. É claro que, notoriamente, a pirâmide das categorias de cavalos novos afunila, mas acho que no Brasil essa pratica é um pouco exagerada demais. Isso significa que os cavalos não tão chegando à altura correspondente às suas idades. Por isso, a nossa idéia é criar provas de preparação para os cavalos novos no circuito para que possam evoluir naturalmente de acordo com a idade. Paralelamente às normas e premiações das provas, também, estão ligadas às federações e a própria CBH. A nossa idéia é premiar quem monta cavalo BH como fizemos no The Best Jump desse ano. Pois, se um BH chegar ao topo do pódio, ele será a nossa propaganda! Então temos que nos conscientizar e montar um circuito que permitia que o cavalo alcance sempre o posto mais alto do pódio e, com o passar do tempo, poderemos ter até mais BHs que os importados nas categorias de alto rendimento.
PFDP – Para finalizar, por favor, deixe uma mensagem para os criadores e amantes do cavalo BH no Brasil.
Fortino – O hipismo Brasileiro está em sua excelente fase e a criação acompanha esse crescimento, inclusive com uma maior conscientização a respeito da qualidade em detrimento da quantidade. O sucesso de um cavalo Brasileiro de Hipismo está basicamente atrelado a três fatores: genética, alimentação e treinamento. Quando se quebra um desses quesitos dificilmente teremos um bom cavalo de esporte, e são a esses pontos que a Associação vai direcionar seus trabalhos, além de mostrar para o mercado os resultados dos cavalos BH nas competições e as vantagens de se adquirir cavalos criados no Brasil.
Aproveito a oportunidade para agradecer aos nossos Associados pela confiança depositada nessa diretoria e espero exercer um bom mandato junto com os demais integrantes.
Entrevista PFDP com F2 Comunicação - Claudio Ferreira, ABCCH e Carola May
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