Único brasileiro convocado a atuar nas modalidades hípicas nos Jogos Olimpicos 2008 que serão disputadas em Hong Kong, Luiz Rocco ocupará o cargo de chief stewart (comissário chefe) no salto, a convite da princesa Haya, presidente da Federação Eqüestre Internacional (FEI).
 A princesa Haya, responsável pela convocação de Rocco para as Olimpíadas 2008, cumprimenta a chanceler alemã Angela Merkel no Mundial 2006; foto: FEI |
 O bem-sucedido comissário Luiz Rocco, atuante em frentes, em clique na Copa Amil de Adestramento em São Paulo; foto: Carlos Cruz |
Rocco, 49, vem atuando em grandes eventos internacionais tanto como comissário e chefe de equipe. Valendo lembrar, entre outros eventos, sua presença como comissário no CSIO5* Aachen 1997, Mundial de Roma 1998, comissário chefe nos CSI W em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Pan RIO 2007 e na função de chefe de equipe na Final da Copa do Mundo de Gotemburgo 2001, Mundial de Jerez 2002, Olimpíadas de Sidney 2000, Pan Santo Domingo 2003, Olimpíadas de Athenas 2004 e Mundial Aachen 2006.
Paralelamente, Rocco também ocupou até o final de 2007, a função de superintendente da Associação Brasileira dos Criadores do Cavalo de Hipismo, entidade esta em que permanecerá atuante na temporada 2008.
Aproveitando o ensejo do ponto alto em sua carreira, Rocco concedeu uma entrevista ao PFDP, em que aborda, entre outros detalhes, as dificuldades na carreira de um steward no Brasil, a polêmica em torno do uso de boleteiras e um breve balanço sobre os números e atuação da ABCCH.
PFDP - Conte um pouco sobre a sua história pessoal no hipismo. Quando e como vc começou a atuar como comissário. (Comissário e steward é a mesma coisa)?
Luiz Rocco – Exato, uma palavra é a tradução da outra! Comecei pelas mãos do Pedro Cordeiro em um concurso na Fazenda Dona Carolina no início dos anos 90. Daí para frente, investi na carreira e em pouco tempo cheguei em uma posição da qual me orgulho e agradeço ao mesmo tempo pelas oportunidades oferecidas que aproveitei o melhor possivel.
PFDP - Você também teve outra profissão?
Rocco - Sou engenheiro metalurgista, com especialização na Arcadia University, na Filadelfia, filiada à Universidade Colombia, em New York. Trabalhei muitos anos na ABB, uma empresa sueca-suiça, motivo pelo qual tive a oportunidade de morar próximo a Estocolmo por um bom tempo. Eu era diretor da área responsável por absorção de tecnologia de ponta da matriz.
PFDP - Você foi convocado como chief steward nas Olimpíadas 2008 – sendo o único brasileiro oficialmente recrutado pela FEI. Qual a área / modalidade e principais atribuições?
Rocco – Resumindo a atividade, serei o responsável pela modalidade salto, no que concerne à manutenção da igualdade competitiva entre as diversas equipes e cavaleiros individuais.
PFDP - Você pode eventualmente levar / indicar algum assistente?
Rocco - Estou negociando essa possibilidade, pois gostaria de estender essa oportuindade única a outros oficiais brasileiros.
PFDP - A nível pessoal, o que significou esse convite para você?
Rocco - A realização do sonho de chegar ao topo da atividade que escolhi como a que mais me dá prazer.
PFDP - Qual a maior dificuldade encontrada no trabalho dos stewards no Brasil?
Rocco - Acredito que ainda precisamos, em termos locais, investir um pouco mais em infra-estrutura para poder exercer essa atividade com todo o critério rigoroso necessário.
Infelizmente essa atividade ainda não é suficientemente valorizada. Portanto, não tem o apoio necessário para que esses oficiais possam se dedicar de forma exclusiva à função o que, infelizmente, prejudica o desempenho.
 Luiz Rocco presente à Copa Sítio Chuín JLSC 2007 premia André Giovanni; foto: Tim Maia |
PFDP - A FEI proibiu o uso de boleteiras de peso a partir deste ano. O que você acha dessa medida ?
Rocco - Acho uma medida polêmica e de pouca praticidade, pois em sua definição o referido artigo deixa claro que nenhuma boleteira com pesos adicionais poderá ser utilizada duarante o evento. Em seguida, consta uma limitação de 500 g por unidade como peso máximo para esse equipamento.
Na prática isso significa que alguns modelos poderão ser utilizados e outros vir a ser foco de discussão. Em todo o caso, essa norma já está em vigor desde 01/01/08 em concursos internacionais.
Além disso, também deverá ser utilizado o termógrafo para medir a temperatura dos membros anteriores e posteriores dos animais em todos os concursos internacionais.
PFDP - Aqui no Brasil recentemente tivemos um caso de uso irregular de boleteiras. Na sua opinião, o controle nos concursos é suficientemente efetivo?
Rocco - Acredito que tenha evoluído bastante desde a sua introdução, mas ainda não atingiu um padrão homogêneo em todo o território nacional.
PFDP - Você considera que as áreas de isolamento / restritas nos concursos brasileiros são suficientemente seguras?
Rocco - Esse é um ponto polêmico que envolve custos elevados e que os Comitês Organizadores ainda não se sentem à vontade para assumir e isso prejudica bastante nosso trabalho. Penso que deveria se adotar uma politica mais rigorosa nesse quesito.
PFDP - Você acha que uma campanha de esclarecimento para os cavaleiros inciantes sobre o que é permitido ou não poderia ser uma boa medida para instruir os iniciantes no esporte?
Rocco - Tenho recebido um número reduzido de cavaleiros nos cursos que tenho ministrado durante a temporada hípica e o resultado é excelente. Estou pensando seriamente em organizar cursos / palestras para cavaleiros / instrutores, pois além de educá-los, isso facilitaria muito o trabalho dos comissários no concurso, porque acredito piamente que muitos cometem infrações às regras simplesmente por desconhecê-las.
 Rocco e alunos no curso para Comissários organizado pela FPH e ministrado no Clube Hípico de Santo Amaro em setembro de 2007; foto: PFDP |
PFDP - Além do seu trabalho como steward você vinha exercendo a função de superintendente da ABCCH. Quais as suas principais atribuições?
Rocco - A partir desse ano estaremos alterando um pouco a descrição de funções do meu cargo que até agora era bastante abrangente até pela própria estrutura da entidade, envolvendo desde questões administrativas, à criação e ao esporte. Me orgulho bastante do nível de desenvolvimento atingido nos âmbitos técnico-adminstrativos com registros de números bastante significativos.
Também gostaria de aproveitar para agradecer a confiança depositada pelo Conselho Deliberativo bem como o apoio recebido em meu trabalho, sem os quais eu não teria sido possível atinigir o estágio atual.
PFDP - Como você vê a criação brasileira na atualidade e projeções futuras?
Rocco - Acredito que, nos próximos anos, deveremos presenciar uma maior valorização de nossa criação, inclusive, em termos internacionais, uma vez que os investimentos nos últimos cinco anos deverão render ótimos frutos daqui em diante.
 Luiz Rocco na aprovação de garanhões BH 2007 ao lado da criadora Bia Nicotero, do Haras Feroleto, e Ênio Monte, então presidente e atual presidente do Conselho da ABCCH; foto: Emerson Emerim |
PFDP - Na sua avaliação qual foi o balanço da última aprovação de garanhões BH? Este ano, a nova regra de aprovar somente reprodutores com classificação A (grau máximo) será rigorosamente seguida?
Rocco - O critério ainda será afinado pela nova diretoria e acredito que a tendência seja manter um nível bastante exigente com relação aos garanhões candidatos.
PFDP - A importância das matrizes na criação é cada vez mais notória. No Brasil, isso também já uma prioridade para a maior dos criatórios?
Rocco – Sim, sem dúvida alguma! Isso é tão claro que serão envidados esforços no sentido de se desenvolver uma estatística de matrizes para facilitar a vida dos criadores na hora de decidir o produto que se deseja em um eventual cruzamento.
PFDP - A cada ano, quantos animais são registrados no studbook BH? Ao todo, quantos BHs estão registrados no studbook?
Rocco - A média de produtos registrados nos últimos anos é igual a 1000, e o stud book do cavalo BH conta com mais de 20.000 exemplares registrados.
PFDP - Qual a importância / valor da premiação extra para animais BH nas principais competições?
Rocco - Essa medida incentiva a utilização dos produtos BHs nas diversas competições e podemos afirmar que hoje mais de 90% dos cavalos participantes de um evento em território nacional são da raça BH.
PFDP - Com a nova presidência na ABCCH vocês já têm uma projeção das principais metas e iniciativas da entidade?
Rocco - Acho que essa pergunta seria melhor endereçada ao Sr. Antonio Celso Fortino, responsável pela Nova Diretoria. (O PFDP já tem uma entrevista pautada).
PFDP - Você gostaria de mencionar algo em especial quanto à criação de cavalos BH?
Rocco - Gostaria de dizer que é muito importante continuar acreditando no cavalo nacional pois, em comparação a qualquer studbook internacional, é raro o resultado que obtivemos em apenas 30 anos criação do cavalo BH. Essa conclusão não é somente minha, mas conta com o crédito de observadores internacionais.
Edição: Carola May
Fotos: Tim Maia, Carlos Cruz, Emerson Emerim, FEI – Hit Houghton e PFDP
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