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© Werther Santana/Estadão Laura Pinseta é médica veterinária do Jockey Club de São Paulo e atua no grupo Cavalo Sem Sela

2 de junho de 2019

Entidades se juntam para evitar sacrifícios de cavalos em competições

Cavalos de corrida costumam sofrer vários tipos de lesões. As mais comuns são aquelas do sistema locomotor, como fraturas ou ruptura dos tendões. Também são frequentes problemas pulmonares, pois os animais têm de alcançar velocidades de 60 km/h desde muito jovens.

Depois das lesões, mesmo que ainda possam ser utilizados em outras atividades fora das pistas, muitos cavalos são abandonados ou submetidos à eutanásia, o popular “sacrifício”. A questão é tão importante que o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, órgão que regulamenta o turfe no Brasil, vai obrigar os jóqueis clubes a registrar os casos de mortes e doenças dos seus cavalos.

Para minimizar o problema, entidades formadas por médicos veterinários, como a “Cavalo Sem Sela”, procuram conscientizar os tratadores e proprietários, mostrando que os animais lesionados podem ter uma sobrevida em outras atividades, como equitação ou equoterapia. Além disso, essas entidades trabalham pela doação responsável dos cavalos contundidos e evitam abandono, negligência e maus tratos.

Na semana passada, a entidade começou a oferecer palestras sobre o tema no Jockey Club de São Paulo, o pioneiro nas ações de educação e conscientização sobre eutanásias que podem ser evitadas.

Não existem estatísticas oficiais sobre o tema. A “Cavalo sem Sela” participou direta ou indiretamente do tratamento e doação de cerca de 30 animais nos últimos cinco anos. O próprio Ministério informa que está levantando as informações.

Existem casos em que a eutanásia é justificável. As fraturas, por exemplo, são casos complexos. O animal não entende que não pode apoiar o membro no chão. Além disso, a imobilização tem de levar em conta que os cavalos pesam até 400 kg.

O trabalho das entidades está baseado no bem-estar animal, nova área do conhecimento que estuda a qualidade de vida dos animais de maneira abrangente, do ponto de vista físico, emocional e psicológico. É uma área ligada à medicina preventiva com uma premissa simples: em condições de bem-estar, os animais desenvolvem melhor suas atividades. Há indicadores científicos para a avaliação do bem-estar, como os fisiológicos (condição corporal), os bioquímicos (enzimas e hormônios do estresse) e os imunológicos (doença, lesões e dor).

“Existe uma forte tendência mundial, baseada em conhecimento científico, que busca ampliar a consciência das pessoas sobre os direitos dos animais e o que eles representam na sociedade”, comenta Daniela Gurgel, médica veterinária e consultora em bem-estar animal.

A busca do bem-estar animal tem relação direta com as corridas de cavalo. Um dos problemas mais comuns nos hipódromos, por exemplo, é o estresse térmico, ou seja, cavalos sentem calor. Esse desconforto térmico pode influenciar nas corridas.

“Está cientificamente comprovado que cavalos jovens saudáveis correm por mais tempo e ganham mais corridas”, explica Laura Pinseta, médica do Hospital Veterinário do Jockey Clube de São Paulo e representante da “Cavalo Sem Sela”. “O turfe precisa oferecer respostas éticas, que contemplem o bem-estar animal, para resgatar o seu prestígio”, opina.

Dados do IBGE apontam uma população de 5 milhões de equinos no País. A médica veterinária Samantha Korbivcher, que atua na entidade “Cavalo Sem Sela”, formada por profissionais que buscam o bem-estar animal, avalia que a eutanásia é uma prática histórica na sociedade brasileira, transmitida de geração para geração, e que foi tida como “natural” nas últimas décadas. “A mudança também precisa ser cultural. É preciso quebrar esse paradigma”.

Fonte: Estadão Conteúdo

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