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26 de agosto de 2017

Em Portugal, crise fez desaparecer 40% dos criadores de cavalos em 10 anos

Nem só de corridas e apostas se faz o negócio dos cavalos em Portugal. Há toda uma fileira ligada à criação, ao turismo e ao desporto. Até porque, os melhores cavalos de corrida são os puro-sangue ingleses ou árabes e a tradição portuguesa está mais assente em desportos como os saltos de obstáculos ou a dressage.

Garrano, sorraia, pónei da Terceira e lusitano são as raças autóctones em Portugal. Obter dados sobre quanto vale o negócio da fileira é tarefa impossível, mas os criadores admitem que os anos recentes da crise afetaram, e muito, o negócio. Basta ter em conta que, segundo o INE, o efetivo de equinos se reduziu cerca de 84% na última década: em 2016 havia cerca de 25 mil cavalos em Portugal. E entre 2003 e 2013 houve uma quebra de 39% no número de produtores.

Coudelaria Ferraz da Costa
Pedro Ferraz da Costa cria cavalos puro-sangue lusitano desde 1987. Um negócio “difícil”, que viveu anos difíceis.  “Os cavalos são das coisas mais supérfluas que há. O mercado interno praticamente desapareceu e estamos todos a trabalhar, fundamentalmente, para a exportação, embora a Europa, também, tenha abrandado”, refere. Ferraz da Costa é, também, vice-presidente da Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro-Sangue Lusitano (APSL), e mostra-se preocupado com os desafios que se põem ao setor, desde logo pela diminuição populacional na Europa, que vai obrigar a redirecionar todos os esforços para o Oriente.

A China é já hoje “um mercado muito interessante” para os criadores, “mas é difícil, muito burocrático, e caro de lá chegar”, frisa. Por outro lado, a crescente profissionalização das atividades desportivas vai obrigar à especialização da produção.

“O mito da versatilidade vai desaparecer, porque não vende”, diz. E quanto custa um cavalo? “Há para todos os preços, depende das aptidões. Um cavalo só para passear pode custar oito, nove ou dez mil euros. No desporto, o grau de exigência é muitíssimo elevado e um cavalo a competir nos Jogos Olímpicos pode valer um ou dois milhões de euros. Não há ainda nenhum lusitano nessa fasquia, só a ambição de lá chegar”, sublinha.

O mercado nacional absorve, em média, 20% da criação de lusitanos, sendo que o grosso se destina à exportação. Alemanha, Holanda, os países escandinavos e Espanha são os principais mercados de destino dos lusitanos da Coudelaria Ferraz da Costa, em Serpa. Uma propriedade onde Pedro Ferraz da Costa cria, também, gado. Este ano nasceram cerca de 10 poldros na sua coudelaria, diz o empresário, que admite ter reduzido a dimensão do negócio por causa da crise. Ainda não tem qualquer atividade ligada ao turismo equestre, mas admite que é algo em que há de apostar, até porque é uma atividade muito bem paga e com grande procura.

“Há muita gente interessada em passar uma semana no campo a montar a cavalo e que vêm fora de época”, sublinha. Questionado sobre as corridas de cavalos, Ferraz da Costa assume que não acredita que as apostas avancem.

“Isso das corridas é uma ilusão. Não temos tradição nem temos cavalos para isso. E não falta o que fazer naquilo que fazemos bem. Já há muita gente a exportar para a China, que vai lá com regularidade dar assistência e participar em espetáculos. E há todo o mercado em torno do Dubai e dos Emirados. O dinheiro está hoje em sítios muito diferentes do que estava há 50 anos, frisa. Já a criação de lusitanos é uma atividade em franco desenvolvimento.

“Há 25 anos, quando se criou a Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro-Sangue Lusitano, havia 90 sócios. Hoje são mais de 300. É verdade que a dimensão média dos efetivos abrandou, mas o efetivo total de lusitanos continua a crescer. E o turismo equestre, embora esteja, ainda, numa fase muito incipiente, tem um enorme potencial”, defende.

Coudelaria do Monte Velho
Arquiteto de profissão, Lima Mayer dedicou-se à criação de lusitanos há 25 anos. Por “pura paixão” pelos cavalos. “Ninguém começa uma coudelaria para ganhar dinheiro. Claro que o resultado econômico tem de existir, mas não é esse o grande motor da atividade”, garante.

A crise em Portugal teve o seu lado positivo. “Obrigou as pessoas a terem muito mais cuidado com a sustentabilidade da criação. Houve uma redução do número de reprodutoras e há muito mais seletividade no seu cruzamento. Porque produzir cavalos sem qualidade é, claramente, um mau negócio”, refere Lima Mayer.

O custo de criação de um poldro pode chegar aos 200 mil euros ao ano, entre alimentação, maneio e acompanhamento veterinário, sendo que estes são vendidos, em média, aos 4 anos, para o mercado amador por valores que variam entre os 10 mil e os 40 mil euros.

“Quando se consegue produzir cavalos para alta competição, os números podem atingir centenas de milhares de euros. Mas isso representa menos de 5% do mercado”, garante. E o custo de produção depende muito das propriedades, sendo substancialmente mais baixo quando a criação de cavalos é, apenas, mais uma das atividades de uma exploração agrícola.

A propriedade de Lima Mayer, a Coudelaria do Monte Velho, situa-se em Arraiolos onde o arquiteto produz gado, bem como alguma exploração agrícola, designadamente de cortiça. Há quatro anos decidiu apostar no turismo equestre, com uma pequena unidade com nove quartos, com a qual pretendeu tirar partido das infraestruturas já montadas; os cavalos, o picadeiro, os montadores, etc para ajudar à sustentabilidade do negócio.

“É um complemento da atividade de criação e está a correr muito bem” garante. Recebe maioritariamente clientes de mercados internacionais, a maior parte dos quais oriundos dos países do norte da Europa, dos Estados Unidos e do Canadá. Mas, também, já começam a aparecer turistas da Austrália e da Nova Zelândia.

“São, essencialmente, cavaleiros amadores, com uma procura significativa de senhoras, que têm um enorme prazer em montar um cavalo lusitano no seu habitat natural. E podem participar na vida da coudelaria, no nascimento dos poldros, nos treinos, etc”, diz Lima Mayer.

Hoje, a Coudelaria do Monte Velho tem seis éguas reprodutoras e, por ano, nascem quatro ou cinco poldros, número que varia de ano para ano.”
Com esta escala consigo obter uma qualidade média muito elevada. A crise fez com que o mercado se tornasse muito mais seletivo e hoje ninguém compra cavalos de qualidade medíocre. O mercado está disposto a pagar bem, mas é muito exigente e seletivo. E só quem incorporar no seu trabalho as exigências dos mercados internacionais é que consegue ter sucesso”, explica.

O arquiteto recusa, no entanto, que o cavalo seja um produto de elites. “Em Portugal não é. O cavalo lusitano é muito popular. Basta ir à feira da Golegã, de Ponte de Lima ou da Trofa e imediatamente se apreende que o cavalo é transversal a todos os níveis sociais e muito enraizado na cultura popular.

Fonte: Dinheiro Vivo

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