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Páreo no Jockey Club Brasileiro – foto: divulgação

18 de junho de 2017

Em busca do cavalo paraguaio

Embrenhei-me em extensa pesquisa – de uns quinze minutos, no Google – para tentar determinar a origem do equino mais conhecido do futebol brasileiro. Não é Roberto Cavalo, nem algum treinador fartamente homenageado com os gritos de “burro” nas arquibancadas. Trato aqui do real representante dos equídeos, mamífero ungulado perissodáctilo com um só dedo funcional: o cavalo paraguaio.

Comecei a procura pelo turfe. Muito embora hoje pareça estranho, foi um esporte muito popular no país. No primeiro Grande Prêmio Brasil, por exemplo, tinha mais gente no Hipódromo Brasileiro, no Rio (25 mil pessoas), do que era costume nos acanhados estádios destinados ao esporte bretão na altura, 1933. Só na semana antes da prova, mais de 200 novos guichês de apostas foram instalados no Hipódromo, dando mais conforto para que o distinto público fizesse sua fezinha. Nas tribunas, além de damas de luvas e chapéus, senhores que, no futuro, seriam nomes de ruas, avenidas e hospitais: Getúlio Vargas, Lineu de Paula Machado (criador do Jóquei), Fernando de Magalhães, Pedro Ernesto. Que manhã, senhoras e senhores, que manhã!

Já tinha ouvido dizer (ou li em algum lugar) que o termo tinha a ver justamente com esse grande prêmio, justo o primeiro, vencido por um azarão. De fato houve azarão, mas não tinha nada paraguaio.

Era pernambucano o tordilho, Mossoró, montado por Justiniano Mesquita e filho de Kitchner e Galathea, todos originais do Haras Maranguape. Enquanto seus adversários comiam ração, Mossoró mandava pra dentro milho seco. Correu os três mil metros em grama molhada em 3min09s45.

O colosso nordestino bateu cavalos do Rio, de São Paulo, ingleses, franceses, argentinos e uruguaios. Mas não havia paraguaios no páreo, que, eventualmente, tivessem largado na frente, aberto corpos de vantagem e, a centímetros do disco final, foram atropelados por um Mossoró esbaforido.

Que ganhou por um pescoço de vantagem de Belford. Dentre as homenagens que recebeu está até o batizado de uma cerveja preta.

Passei então a focar na Pátria-mãe do referido equus. Mais uns minutos no Google me levaram a um artigo do Professor Doutor Mauro César Silveira, “As marcas do preconceito no jornalismo brasileiro e a história do Paraguay Illustrado”. É um libelo contra o tratamento dispensado pela imprensa brasileira aos nossos vizinhos ao longo de décadas. Diz ele que “o povo guarani é vítima de estereótipos e preconceitos. Ideias preconcebidas, cristalizadas no imaginário popular desde a guerra da Tríplice Aliança – Brasil, Uruguai e Argentina –, nos finais do Século XIX”. Os principais exemplos: o uísque falsificado e o cavalo que largava na frente e entregava no fim.

E tome mais pesquisa, mais nome de rua: Almirante Tamandaré, General Osório, Duque da Caxias, Payssandu, Humaitá. Não achei referências sobre consumo de malte entre eles, mas, obviamente, havia o uso de cavalos. Era o meio de transporte de nossos homens nas batalhas, que mataram mais de 300 mil soldados e civis. Nossos e dos adversários.

O principal veículo de informação sobre a Guerra para os brasileiros foi um jornal literário chamado “Semana Illustrada”, propriedade de um alemão, pioneiro em fotografias por litogravuras. Entre 1860 e 1876, foi a partir das reproduções deste semanal de oito páginas que o brasileiro criava suas próprias imagens acerca dos fatos. O troço era publicado no Rio de Janeiro aos domingos e levava dias até chegar às províncias.

Grande defensora do governo e do Imperador Pedro II, “A Semana” tinha como dístico “ridendo castigat mores” (“rindo castigam-se os costumes”), ou seja; esmerava-se em tirar sarro dos adversários. O líder Solano Lopez e o Paraguai foram alvos por anos. Indica o professor que, quando, certa feita, a armada paraguaia avançou sobre Mato Grosso e resolveu recuar, os cavalos do inimigo viraram motivo de chacota. Pouco importava se a retirada fora estratégica ou se só fizeram o que os condutores mandavam.

As gravuras cavalares publicadas também tiveram parte da esculhambação da boa reputação do alazão guarani. Eram sempre magrinhos, com olhos fundos – realidade, em grande parte, porque também faltava comida para os combatentes humanos, e dos quatro países envolvidos na refrega.

Os nossos cavalinhos não deviam estar com a cara muito melhor, mas não apareciam nas publicações – a não ser quando montados por um dos nomes de rua supracitados, devidamente escovados.

Tudo isso pra dizer que o tal “cavalo paraguaio”, que larga muito na frente mas entrega no fim é mito. Nunca houve.
Durmam tranquilos, corintianos e gremistas. É tudo intriga da oposição.

Fonte: chuteirafc

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