Por Fora
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Centro Olímpico de Tênis integra o Parque Olímpico da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. No total, complexo conta com 16 quadras.

1 de janeiro de 2015

Dez lições que o Brasil tirou do primeiro ano de testes para a Rio-2016

Realizado entre 10 e 12 de dezembro deste ano, o evento-teste de tênis foi o primeiro do Parque Olímpico da Barra da Tijuca, situado na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Também findou uma temporada de 18 competições que serviram como prévia para as Olimpíadas de 2016, que serão realizadas na capital fluminense. A mais de sete meses do início dos Jogos, a Rio-2016 acumulou pelo menos dez aprendizados relevantes por causa desses torneios preliminares.

“Os eventos-teste são para isso: para vermos o que é preciso ajustar. Temos feito os melhores eventos da história dos Jogos Olímpicos, mas é sempre importante ouvir os atletas. Faremos acertos importantes depois disso”, disse Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil) e do comitê organizador da Rio-2016, em um evento promocional da Coca-Cola. “O balanço é sensacional. Nunca imaginamos ter um retorno tão bom com os eventos-teste”, completou.

O calendário de eventos-teste começou no dia 15 de julho, no Maracanãzinho, com a fase final da Liga Mundial de vôlei masculino. Desde então, passou por modalidades como triatlo, remo, hipismo, vela, tênis de mesa e badminton. A proporção das competições foi reduzida durante a temporada, e o comitê Rio-2016 fez uma série de ajustes durante os torneios.

Quer saber o que o Brasil aprendeu com os eventos-teste realizados em 2015? Veja a lista abaixo.

1 – Não é preciso fazer duas edições de Jogos Olímpicos

O comitê organizador dos Jogos Olímpicos de 2016 fez uma redução de R$ 400 milhões em seu orçamento (de R$ 7,4 bilhões para R$ 7 bilhões) para não incorrer em déficit, e isso afetou drasticamente os eventos-teste. No início, as competições mimetizavam praticamente todos os aspectos do que o Rio de Janeiro terá no ano que vem. A partir do ajuste de contas, contudo, a abordagem passou a ser mais pragmática e direcionada.

“Não precisamos fazer duas edições de Jogos Olímpicos” passou a ser um mantra no Rio-2016. Eventos do vôlei e do vôlei de praia, que tiveram organização da FIVB (Federação Internacional de Voleibol) e relevância esportiva mundial, seguiram com grandes proporções. Outros, em contrapartida, foram reduzidos para testar apenas os aspectos nevrálgicos de suas modalidades.

O comitê não detalhou a redução de custos ou quanto isso tirou do orçamento previsto para os eventos-teste. A redução afetou aspectos como quantidade de atletas e acesso ao público, por exemplo.

2 – É preciso inserir os Jogos Olímpicos no cotidiano da cidade

A organização dos Jogos Olímpicos não afetará apenas as regiões do Rio de Janeiro que receberão as competições. O evento terá reflexo em toda a cidade, e isso ficou claro em alguns dos eventos-teste.

Exemplo disso foi visto em eventos urbanos, como o triatlo (01 a 08 de agosto). Como a competição tinha trechos nas ruas de Copacabana, houve consequências em todo o fluxo de trânsito da Zona Sul do Rio de Janeiro. Os desvios de tráfego tiveram de ser repensados com o teste em andamento.

Os eventos-teste ainda mostraram outro aspecto sobre a relação dos Jogos com a cidade. Modalidades que usam a praia de Copacabana, como o próprio triatlo e a maratona aquática, demandam uma estrutura específica para isso.

“A praia é um grande parque olímpico. Teremos seis esportes lá, com uma quantidade boçal de hotéis para mídia, comitês olímpicos nacionais, patrocinadores e espectadores. Essa dinâmica merece mais atenção”, explicou Gustavo Nascimento. “As modalidades ali precisam funcionar juntamente com o bairro. Principalmente para os turistas estrangeiros, que não podem imaginar vir ao Rio e não conhecer Copacabana”, completou.

3 – Aspectos externos podem interferir drasticamente nos resultados dos Jogos

No evento-teste da vela (15 a 22 de setembro), um avião foi determinante para o resultado de uma regata. Em uma condição pouco usual de vento, o fluxo de ar produzido pela aeronave ajudou um grupo a ganhar impulso – e prejudicou outros, que não conseguiram ficar em pé.

Além disso, o fluxo do aeroporto Santos Dumont, que fica ao lado da Marina da Glória, prejudicaria voos de equipes de TV e apoio para a vela. A constatação feita durante o evento-teste de 2015 foi fundamental para um avanço na discussão sobre a operação do local, que ficará fechado por quatro horas por dia durante os Jogos Olímpicos.

4 – Poluição e segurança são as duas grandes preocupações internacionais sobre os Jogos

Ainda que algumas obras não tenham cumprido o cronograma original – o centro olímpico de tênis, por exemplo, foi inaugurado com três meses de atraso –, as construções voltadas ao esporte da Rio-2016 não geram preocupação. Os eventos-teste serviram para mostrar que as maiores dúvidas da imprensa internacional sobre o evento permeiam dois temas específicos: poluição e segurança.

Poluição foi o assunto mais debatido, por exemplo, no evento-teste da vela (15 a 22 de agosto). Em todas as entrevistas coletivas houve pelo menos uma pergunta de um jornalista estrangeiro sobre a situação da água da Baía de Guanabara – o Rio de Janeiro não conseguirá entregar até os Jogos Olímpicos o plano completo de limpeza do espaço.

A situação ficou ainda mais quente depois de a agência de notícias “AP” ter flagrado um derramamento de esgoto no local e de o barco dos brasileiros Isabel Swan e Samuel Albrecht, da classe Nacra, ter virado por causa de um saco plástico.

Também houve uma discussão sobre a qualidade da água no evento-teste da canoagem velocidade (04 a 09 de setembro). A competição foi realizada na Lagoa Rodrigo de Freitas, que teve uma infestação de algas no primeiro dia.

Para 2016, a ideia do comitê organizador é fazer uma ação química na Lagoa para evitar que a proliferação de algas se repita. Segundo os responsáveis pelo teste, o clima no Rio de Janeiro impediu que o mesmo procedimento fosse adotado antes do evento.

 5 – É preciso equacionar as necessidades específicas de cada modalidade

Os eventos-teste serviram também para o Brasil entender que cada esporte da Rio-2016 tem um padrão de exigência absolutamente diferente e necessidades que muitas vezes fogem de uma análise preliminar.

Isso aconteceu com o evento-teste do tiro com arco (15 a 22 de setembro), por exemplo. A competição foi realizada no Sambódromo, e a escolha de um dos cartões postais da cidade foi elogiada pela federação internacional (World Archery). No entanto, por ser uma região central e de muito movimento, houve discussões sobre o excesso de barulho.

“Acho que esse é o único ponto de discussão, mas já conversamos com o comitê organizador e estamos pensando no que pode ser feito a respeito”, disse Tom Dielen, secretário-geral da World Archery, na época do evento.

Os eventos do tênis de mesa (18 a 21 de novembro) e do badminton (24 a 29 de novembro), no Riocentro, também mostraram necessidades muito específicas de cada modalidade.

No caso do tênis de mesa, o sistema de iluminação montado pela Rio-2016 foi reprovado pelos atletas. O evento-teste teve refletores presos em grandes colunas, mas isso criou muitos pontos cegos para os espectadores e complicou o raio de visão dos jogadores.

A questão no badminton foi a ventilação do Riocentro, reprovada por atletas e federação internacional (BWF). “A iluminação do tênis de mesa e o ar condicionado do badminton… Teste é para isso. É fundamental para os Jogos. No papel tudo é muito bonito, mas é importante botar a mão na massa e ver como as coisas funcionam”, ponderou Gustavo Nascimento.

Também houve uma discussão sobre questões sanitárias no hipismo (06 a 09 de agosto). Seis meses antes do evento-teste, cavalos foram impedidos de entrar no centro da modalidade para combater o mormo, doença extremamente fatal para os equinos.

 6 – Os atletas precisam ser ouvidos

Uma das premissas dos eventos-teste foi a obtenção de feedback dos atletas. As prévias dos Jogos, contudo, também mostraram o quanto esse contato com os responsáveis pelas disputas deve ser abrangente.

A revolta dos atletas da canoagem velocidade, por exemplo, não teve nada a ver com a organização do evento-teste. Os brasileiros da modalidade aproveitaram a situação para protestar e escancaram uma crise de relacionamento com a confederação nacional (CBCA). Isso prejudicou sobremaneira a realização da competição preliminar.

Nesse aspecto, porém, o evento mais problemático foi o de ciclismo BMX (02 a 04 de outubro). A pista havia sido homologada pela federação internacional (UCI), mas os atletas consideraram que era perigoso demais e reclamaram.

Como não havia tempo para acertar a pista, os atletas se recusaram a competir no primeiro dia de evento. O teste foi reduzido apenas para o último dia a fim de reduzir a periculosidade do trajeto. No entanto, nem isso foi possível: por causa da chuva, a disputa foi interrompida e cancelada.

7 – O Rio de Janeiro tem águas imprevisíveis. E geladas

O evento-teste da maratona aquática (22 a 23 de agosto) serviu para mostrar aos atletas que a Rio-2016 terá condições extremamente imprevisíveis. A água de Copacabana estava agitada num dia e absolutamente calma no outro, o que mudou drasticamente a estratégia adotada pelos nadadores.

Na vela (15 a 22 de agosto), a condição da água mostrou-se igualmente enigmática. Atletas chegaram a descrever a Baía de Guanabara como uma bandeira hasteada – está sempre tremulando e tem um comportamento totalmente irregular.

Por ter uma condição tão singular de maré e vento, o Rio terá competições em que o aspecto estratégico será especialmente relevante. O evento-teste da vela serviu para mostrar que os atletas com repertório mais amplo terão mais facilidade nos Jogos, que vão requerer um contingente muito grande de adaptações.

Outra constatação advinda dos eventos-teste é que as águas do Rio de Janeiro devem ser geladas no período dos Jogos. Esse foi um ponto especialmente importante na maratona aquática, cuja largada é feita em uma plataforma no meio do mar.

No evento-teste, atletas tiveram de nadar até a plataforma e depois esperaram até a largada. Com isso, muitos estavam frios no momento em que a competição começou.

A ideia do comitê organizador é que esse trajeto até a plataforma seja cumprido com algum tipo de veículo em 2016 – um jet-ski ou um barco de pequeno porte –, mas a questão da água gelada vai continuar sendo um diferencial no início da competição.

8 – As condições do Rio de Janeiro vão influenciar nas disputas

Os eventos-teste serviram também para que atletas conhecessem um pouco do tipo de jogo que encontrarão em 2016. Muitas modalidades terão condições específicas por causa do cenário produzido pelo Rio de Janeiro.

No tênis, por exemplo, o jogo será mais lento por causa do clima do Rio de Janeiro. Ainda que o centro olímpico da modalidade tenha uma quadra com piso duro, que é mais rápido, o calor e a umidade farão com que o ritmo das partidas seja menos intenso.

O badminton também terá jogos mais lentos. A característica do Riocentro se aproxima com o padrão de grandes ginásios da modalidade, algo que favorece os asiáticos – dominantes no esporte, eles estão mais afeitos a esse tipo de ambiente do que os jogadores oriundos de outras partes do planeta.

Outra modalidade que será afetada pelas condições do Rio de Janeiro é o vôlei de praia. O evento-teste (02 a 09 de setembro) mostrou que as quadras terão orientação perpendicular em relação ao mar – o padrão normal é paralelo. Isso criou condições diferentes de sol e vento.

9 – A comunicação visual da Rio-2016 terá de ser repensada

Os eventos-teste de 2015 foram provas para aspectos que influenciam pouco no campo de jogo. É o caso da identidade visual da Rio-2016 – combinação de cores, por exemplo.

No tênis (10 a 12 de dezembro), a identidade visual foi criticada por atletas paraolímpicos. O esquema de cores e o tom de verde adotado nos painéis da quadra serão repensados até os Jogos Olímpicos.

Em compensação, as cores das quadras de tênis de mesa (18 a 21 de novembro) e hóquei sobre grama (24 a 28 de novembro) foram aprovadas.

O assunto foi especialmente debatido no tênis de mesa, que terá piso verde em 2016. A modalidade normalmente tem quadras em azul ou vermelho, e havia uma preocupação no comitê organizador sobre a reação dos atletas à mudança. Entretanto, o novo modelo foi aprovado.

10 – Nem todas as arenas foram testadas de forma consistente

O evento-teste paraolímpico de bocha e os torneios de tênis de mesa, badminton e boxe foram realizados no Riocentro, mas o pavilhão 6 do espaço de exposições ainda não foi concluído e não pôde ser testado.

O mesmo aconteceu com o Maracanãzinho, que não tinha concluído as reformas necessárias até o início do evento-teste do vôlei. Ainda que os eventos-teste tenham passado por todas as regiões que receberão os Jogos, algumas arenas estiveram longe de passar por avaliações consistentes.

“Em qualquer edição dos Jogos isso acontece. Lembro de ter ido ao teste do basquete em Londres, e o acesso era totalmente diferente do que aconteceu nos Jogos. Você precisava pegar um ônibus que parava na porta da instalação. Não dava para chegar andando”, disse Rodrigo Garcia, diretor de esportes da Rio-2016.

Fonte: Uol/Guilherme Costa e Vinicius Konchinski

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