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Área da pista de saltos, em Deodoro, antes de montagem da arquibancada, que cerca o local (Foto: Rio 2016 / Divulgação)

16 de agosto de 2016

Designer brasileiro da pista de salto vibra com “honra” em feito inédito

Guilherme Jorge é o primeiro brasileiro na história a ocupar o posto de armador. Em entrevista ao GloboEsporte.com, profissional fala de “honra”, origem e curiosidades

Para ajudar a retratar um pouco da cultura nacional na pista de hipismo, onde os cavaleiros saltarão no Complexo Esportivo de Deodoro, nada melhor do que um “nativo”, além de profundo conhecedor do esporte. É nisso que apostou a Federação Equestre Internacional (FEI) ao oficializar Guilherme Nogueira Jorge, de 48 anos, como o primeiro brasileiro na história a ocupar o posto de armador – o course-designer – oficial de percurso.

Será Guilherme Jorge o responsável por elaborar a pista perfeita para os conjuntos voarem na prova de saltos, que começa neste domingo, às 10h, com a primeira classificatória individual e por equipes, sob nível de dificuldade crescente, e ainda com uma boa pitada de tempero nacional. Se, para os cavaleiros, disputar uma Olimpíada é um ápice na carreira, o sentimento é semelhante para o designer.

– Ter a honra de ser o responsável pelos percursos é, primeiramente, a realização de um sonho como o de qualquer atleta que sonha com as Olimpíadas. Além disso, para mim é o reconhecimento de um trabalho de mais de 25 anos, e, sobretudo, um reconhecimento do nível do hipismo do Brasil – destacou, em entrevista ao GloboEsporte.com.

Paulista de Campinas, Guilherme Jorge adquiriu conhecimento no esporte desde cedo por ter sido cavaleiro e disputado provas de saltos na adolescência. Optou por seguir o curso de veterinária e cuidava de cavalos de salto. Desde 1998, passou a desenhar pistas e ganhou destaque na função. Atualmente, tem o certificado de nível 4 – o máximo – na FEI como course-designer.

Essa será a quinta Olimpíada para o profissional. Atuou como armador assistente em 1996, 2004 e 2012, e como comissário da Federação Internacional de Hipismo em 2000. Também foi o designer do percurso dos Jogos Pan-Americanos de 2007, realizados no Rio de Janeiro. Na ocasião, usou obstáculos homenageando a Candelária, o Pantanal e o carnaval. Agora, resta saber quais características do país se tornarão obstáculos para complicar a vida dos cavaleiros ou levá-los ao êxtase da glória.

Confira abaixo um bate-papo com Guilherme Jorge

GloboEsporte.com – Como levar a cultura brasileira para o desenho da pista, incluindo obstáculos, no Rio? Quais as inspirações?
Guilherme Jorge – O trabalho foi feito em conjunto com o departamento de Look of the Games do Rio 2016 (como é chamada a arte que guia toda a comunicação visual do evento), que foi quem forneceu a maioria dos temas, por terem já pré-estabelecido o que desejavam mostrar. Dessa forma os obstáculos focaram mais no Rio de Janeiro, e também nas cidades que serão sede dos jogos de futebol, ou seja, estão envolvidas nos Jogos. Um pouco da cultura de história de cada um desse lugares foi então transformado em obstáculos e estará na pista.

Os obstáculos focaram mais no Rio de Janeiro, e também nas cidades que serão sede dos jogos de futebol. Um pouco da cultura de história de cada um desse lugares foi então transformado em obstáculos e estará na pista.

É possível contribuir no hipismo e mesmos nos desenhos de pista para mudar a visão estrangeira de que o Brasil é apenas floresta, samba e futebol?

Essa sempre foi uma preocupação nossa, muito embora eu pessoalmente acredito que não há como não mostrar algo desse temas. A ideia foi abordar esses temas, mas de uma maneira educativa e elegante.

Você já participou em Atlanta, Sidney, Atenas e Londres, como chefe-assistente. O que poderá trazer de legado dessas quatro edições para aplicar agora?

Sem dúvida nenhuma essas participações, além de Campeonatos Mundiais e Jogos Pan-Americanos, vão ajudar muito para saber como lidar com o processo e o sistema de provas da Olimpíada. Também me foi muito útil haver armado percursos em diversos concursos do mais alto nível técnico na Europa e na América do Norte esse ano, como Wellington, Calgary, Madrid, Paris, Falsterbo, St. Tropez, onde pude trabalhar com os mesmos conjuntos que estarão presentes nos Jogos.

Qual será a diferença da pista para a do Pan-Americano do Rio em 2007? Qual será o nível de dificuldade que os cavaleiros encontrarão?

A pista em si é a mesma, tem a mesma área, de 108x86m. O piso foi totalmente renovado e atende ao mais alto nível de competição. Os percursos terão um grau de exigência muito maior, as alturas são outras. Todos os percursos tem altura máxima de 1,60m. E o nível dos concorrentes está muito alto, o que vai permitir que os percursos estejam bem exigentes.

Há como prever quantos conjuntos vão zerar o percurso em média em cada etapa?

É sempre somente uma previsão, mas a ideia é de que à medida que as competições progridam, o número de zero faltas diminua pois as dificuldades vão aumentando. O ideal seria aproximadamente de 20 a 25 percursos sem falta na primeira competição, e de 5 a 7 nos percursos finais. Mas isso são só ideias, sempre pode variar.

Quais as exigências da Federação Equestre Internacional e as limitações para cada percurso em termos de altura dos obstáculos, distância e tempo?

O regulamento é bem específico para cada competição. Resumidamente, a altura máxima é de 1,60m, o salto sobre a água pode variar de 4,30m a 4,50ms, a extensão dos percursos pode variar de 450 a 600 metros e a velocidade mínima será de 400 metros por minuto.
De todas os esportes e modalidades da Rio 2016 que precisam de um designer específico (golfe, canoagem, mountain bike, CCE), o salto é o único que conta com um designer brasileiro, o que mostra o respeito que o nosso esporte e nossos oficiais têm no exterior

Você tem liberdade para definir o trajeto? Por exemplo, pode optar por uma pista mais veloz ou com saltos maiores? Desde quando a pista já vem sendo projetada?

Dentro desse parâmetros, tenho total liberdade de como fazer os percursos. Os mesmos vêm sendo projetados desde quando fui oficialmente indicado como course-designer dos Jogos, ou seja, desde outubro de 2014. Esse trabalho é feito sempre com a aprovação do Delegado Técnico da FEI (o espanhol Santiago Varela).

Como é que se forma um course-designer?

É muito importante ter tido experiência como cavaleiro, e estar envolvido com o esporte. A CBH (Confederação Brasileira de Hipismo) e a FEI tem um sistema de educação e formação, com várias etapas. São necessários cursos onde se obtém, além de informações, as credenciais necessárias para os diversos níveis de competição. Pode-se fazer um paralelo com os juízes de outros esportes, como o futebol, por exemplo. Há o juiz nacional e o FIFA. No hipismo, a modalidade saltos tem três níveis nacionais e quatro níveis da Federação Internacional.

Para se armar os percursos das Olimpíadas, é necessário o nível 4, sendo que na América Latina só há três course-designers com essa credencial. No mundo todo, são apenas 28. Trabalhar como assistente de outros armadores mais experientes em grande eventos é uma das mais importantes maneiras de se preparar. Armar percursos para competições de menos exigência técnica auxilia no ganho de experiência e na obtenção de outras credenciais.
Você será o primeiro brasileiro na história a ocupar o posto armador oficial de percurso. Como é para você ter esse privilégio e fazer história? Ao mesmo tempo, qual o peso disso?

Ter a honra de ser o responsável pelos percursos é, primeiramente, a realização de um sonho como o de qualquer atleta que sonha com as Olimpíadas. Além disso, para mim é o reconhecimento de um trabalho de mais de 25 anos, e sobretudo, um reconhecimento do nível do hipismo do Brasil. De todos os esportes e modalidades da Rio 2016 que precisam de um designer específico (golfe, canoagem, mountain bike e CCE), o salto é o único que conta com um designer brasileiro, o que mostra o respeito que o nosso esporte e nossos oficiais têm no exterior. Esse respeito é fruto de décadas de bons resultados internacionais, desde as primeiras participações da equipe brasileira e de Nelson Pessoa (pai de Rodrigo Pessoa) em competições na Europa, além de um trabalho sério da CBH na formação desses oficiais. O peso dessa responsabilidade é, sem dúvida, muito grande, mas terei uma excelente equipe entre assistentes e voluntários, que são também course-designers e estarão lá para apoiar esse momento tão especial do esporte e aproveitar para adquirir mais experiência. Conto também com um excelente delegado técnico e com o comitê organizador dos Jogos.

Você foi cavaleiro na adolescência. Nos conte como iniciou tua ligação com o hipismo. Essa experiência como atleta ajuda a desenhar a pista?

Comecei a montar na Sociedade Hípica de Campinas aos 10 anos, em 1978. Saltei até a categoria júnior, obstáculos de até 1,40m, o que ajuda bastante. Desde então, sempre estive envolvido com o esporte: me formei em veterinária em 1990, trabalhei como veterinário de cavalos de salto até 1998 (exercia paralelamente as duas profissões) e, a partir daí, me dediquei somente ao desenho e armação de percursos.

Quais critérios precisam ser considerados para se desenhar uma pista? Quanto tempo leva?

O nível técnico de cada competição, bem como o dos participantes deve ser levado em conta. Condições de piso e clima também são analisados. O tamanho e inclinação da pista, localização de tribunas de espectadores, posicionamento do sol, qualidade dos obstáculos, tudo isso influi no resultado final.

O desenho de um percurso é um processo criativo balizado por parâmetros técnicos, então o tempo de preparo de um desenho vai depender da inspiração do course-designer, além do grau de complexidade da competição. Pode variar de algumas horas a até semanas.

Você considera importante visitar a pista de Deodoro para pensar no desenho no local? Se sim, tem ido lá recentemente? Qual a sua impressão da área de competição em especial?

As instalações de Deodoro são excelentes, tanto as cocheiras, como a pista de competição e as pistas de treinamento são de nível internacional. Já conheço bem a pista de provas, estive lá em diversas ocasiões. Estará tudo pronto e, com certeza, os atletas terão uma ótima experiência.

A luz que bate na pista ao ar livre no momento da competição pode alterar a cor que havia pensado inicialmente em alguns obstáculos ou mesmo o percurso?

Para os obstáculos escolhemos cores que não apresentem problemas ópticos para os cavalos. A luz pode influenciar sobretudo quando forma sombras, mas pelo horário das competições esse não vai ser um problema.

Qual seu ídolo no hipismo? E no esporte de maneira geral?

No hipismo, por conviver tão intensamente com o mais alto nível do esporte, fica muito difícil escolher um ídolo específico. Para nós brasileiros, sem dúvida Nelson Pessoa é um deles e no esporte em geral, o tenista Roger Federer é um esportista impressionante.

Fonte: Por Diego Guichard e Rodrigo Breves – Rio de Janeiro

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