Por Fora
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6 de maio de 2016

Deixou as corridas e agora é o garanhão da coudelaria

Foi o cavalo que no ano passado alcançou um feito raro ao conquistar a Triple Crown, as três corridas de topo. Largou as pistas e adaptou-se à nova vida de procriação

Ele ganhou algum peso, 77 kg para ser exato, desde que saiu das pistas de corrida para entrar no que deve ser a reforma mais doce de todos os desportos. O American Pharoah, no entanto, está a vivê-la bem: não existem pneus de gordura e a sua rica pelagem castanha parece quase incapaz de conter os músculos que ondulam por baixo dela.

O seu dia começa ao nascer do sol com um pequeno-almoço de forragem orgânica topo de gama – o equivalente equino a couve e quinoa – e, em seguida, o trabalho começa a sério às 07.30, todos os dias. É a essa hora que o American Pharoah sai do estábulo dos garanhões, vira à esquerda e desce o caminho que o leva ao estábulo de procriação. À sua espera está uma égua, mas não uma pileca velha qualquer.

Não, para garantir um dos 160 ou mais averbamentos no cartão de dança do American Pharoah nesta temporada, é necessário uma linhagem real, um registo impecável como cavalo de corrida e, mais importante, um proprietário com os 175 mil euros exigidos para ter o campeão Triple Crown do ano passado a “cobrir” (um termo mais agradável do que inseminar) a sua égua.

Enquanto os amantes de cavalos e os aficionados tiveram de esperar 37 anos para o American Pharoah se tornar o 12.º cavalo da história a vencer as três corridas da coroa, o santo graal das corridas de cavalos puro-sangue, os criadores correram para conseguir lugar para as suas éguas com o Grande Cavalo no estábulo de procriação. Como é a vida de um garanhão? A maior parte dos dias, ele faz dois turnos, com um intervalo para almoço às 13.30 depois de cumprido o dever da manhã. Muitas vezes entra novamente em ação, pela terceira vez, às 18.00.

Parece cansativo até fazermos as contas: são até 525 mil euros por dia e cerca de 25 milhões anuais para os seus proprietários, a Coudelaria Ashford, ganhos nos cinco meses que dura a época de reprodução.

O melhor de tudo é que o American Pharoah se adaptou à sua nova carreira com a mesma eficiência, entusiasmo e alegria de viver que demonstrou ao ganhar nove das suas 11 provas, eletrizando os entusiastas dos puro-sangue na pista e encantando-os fora dela.

Ele é claramente o ídolo das matinés de uma coudelaria que já possui um dos reprodutores mais bem–sucedidos do mundo, o Giant”s Causeway, vizinho da frente do American Pharoah no estábulo. Na terça-feira, o American Pharoah posava como um cavaleiro medieval aguardando que o seu escudeiro lhe vestisse a armadura, enquanto um grupo de visitantes lhe apontava câmaras e lhe deitava olhares de admiração. Em seguida deu uma volta a passo em torno de Garfield, o gato da coudelaria e o segundo animal mais popular do sítio (desculpe, Giant”s Causeway).

“É uma alegria estar perto dele”, disse Scott Calder, um dos executivos da Ashford, sobre o American Pharoah. “Ele faz tudo tão facilmente. Nós é que tivemos de nos ajustar. São muitas as pessoas que o querem vir ver. Ele é um nome familiar muito para além do mundo do desporto das corridas de cavalos.”

Nenhum cavalo nasce garanhão

Cigar, que morreu em 2014, era quem mais dinheiro ganhava no desporto quando se aposentou, mas revelou-se estéril na coudelaria. War Emblem, o vencedor de 2002 do Kentucky Derby e do Preakness Stakes, foi comprado por 15,5 milhões de euros por criadores japoneses que descobriram – com um enorme desapontamento – que ele não gostava de raparigas. Eles tentaram várias terapias não convencionais, incluindo rodeá-lo de um harém, sem qualquer sucesso.

O pessoal aqui em Ashford não correu riscos quando o American Pharoah cá chegou no ano passado, depois de terminar a sua carreira com uma vitória gloriosa no Breeders” Cup Classic. Ele passou as primeiras semanas ao lado de Thunder Gulch, o vencedor do Kentucky Derby e do Belmont em 1995, agora com 24 anos. A tarefa do veterano era ensinar ao American Pharoah como era a vida fora das corridas.

Os novos garanhões querem brincar e correr muito e a companhia só os incentiva a isso. Não o Thunder Gulch. Ele ensinou ao American Pharoah as coisas boas da vida de garanhão, como comer erva e passar uma tarde a descansar em cima das flores azul-arroxeadas que cobrem estes mais de 800 hectares como um tapete real.

A versão de Hollywood do primeiro dia do American Pharoah no emprego diz que ele chegou aqui no Dia dos Namorados. Não é bem assim, diz Calder. Foi um dia depois, um dia pleno de tensão para a equipa da coudelaria de Ashford. O pai do American Pharoah, Pioneer of the Nile, tinha ganho a reputação de ser uma espécie de prima-dona na Coudelaria White Star.

Pioneer of the Nile preferia a hortelã-pimenta às cenouras. Era também, por vezes, reticente e necessitava de uma lufada de feromonas de um copo de urina de égua descongelada para se interessar. Também levava o seu tempo e era propenso a falsos começos, balançando-se sobre as patas traseiras, uma, duas, até quatro vezes antes de consumar a relação.

O American Pharoah, não

“Felizmente, ele não recebeu esses genes”, disse Calder, com um sorriso irónico.
Pelo contrário, ele tem sido educado e determinado, bem como eficiente: tem, até agora, uma taxa de sucesso superior a 80% no que respeita a conceber um potro. O seu livro de éguas parece uma crónica social. Dele consta a apropriadamente chamada Judy the Beauty, a velocista Eclipse Champion; a Take Charge Lady, a mãe do campeão com três anos, Will Take Charge; e Rags to Riches, que em 2007 se tornou o primeiro potro desde 1905 a ganhar o Belmont Stakes.

Quando não está a trabalhar, o American Pharoah descansa por vezes numa espaçosa boxe numa cavalariça feita de carvalho de alta qualidade ou cabriola por aqui na relva. Passeando sozinho no cercado, ele é enquadrado por vedações de pedra calcária, obra de 20 mestres pedreiros, e parece exatamente o senhor da casa.

O American Pharoah tem muitos visitantes – mais de 3000 até agora, vindos de 45 estados e de meia dúzia de outros países. As visitas diárias estão esgotadas com meses de antecedência. No início desta semana teve duas visitas especiais, uma do seu treinador do Hall of Fame, Bob Baffert, na segunda-feira, e outra do seu cavaleiro, Victor Espinoza, na terça.

Apesar dos primeiros corredores de American Pharoah não chegarem às pistas antes de 2019, existe uma forte esperança de eles terem herdado a velocidade, a mente e o talento que o seu pai demonstrou durante toda a sua brilhante carreira.

Fonte: DNT

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