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Aprendiz de jóquei B. Queiróz comemora uma de suas vitórias em um páreo no Jockey Club Brasileiro, no Rio. (Foto: Sylvio Rondinelli / Arquivo Pessoal)

17 de junho de 2018

Das comunidades ao GP Brasil: meninos pobres mudam de vida graças ao turfe

Um menino pobre que sai de uma comunidade carente com o sonho de melhorar de vida graças ao esporte. Primeiro, começa nas categorias de base, até que consegue ser um profissional, passa a ser reconhecido e começa a ganhar dinheiro com sua habilidade. Essa poderia ser a história de algum dos 23 convocados por Tite pra Copa do Mundo da Rússia, mas é também o roteiro de vida de vários jóqueis no Brasil.

Dos 20 jóqueis que estarão no 86º Grande Prêmio Brasil de Turfe no próximo domingo, dia 10, 18 vieram de famílias de baixa renda. E é através de um esporte de elite, que eles pretendem mudar suas vidas. Os grandes jóqueis hoje podem faturar até R$25 mil por mês; em uma média com todos os profissionais, os rendimentos ficam na casa dos R$4 mil por mês.

– A grande maioria deles são provenientes de famílias humildes. Nenhum garoto de classe média quer ser jóquei. A grande maioria vem do Sul, do Nordeste ou do Rio mesmo. Os que vêm do Sul e do Nordeste, já montam desde pequenos, porque lá temos corridas de cavalo em retas, aonde o jóquei pode pesar, no máximo, 40 quilos. Por isso, muitas crianças já montam desde muito novas.

Os aprendizes que recebemos do Rio são, normalmente, filhos de jóqueis profissionais ou alguma indicação de alguém do mundo do turfe que conhece a criança e vê que ela têm potenial – explicou Juliana Dias, coordenadora da Escola de Aprendizes do Jóquei e da Escola de Profissionais do Jóquei.

Esse é o caso de Bruno Queiróz, de 17 anos, que começou na Escola de Aprendizes de Jóqueis em julho de 2017 e já é visto como uma grande aposta no turfe brasileiro. Filho de um jóquei profissional, ele mudou com toda sua família de São Paulo e hoje moram na vila do Jockey Club Brasileiro, na Gávea, no Rio de Janeiro. Bruno admite que o dia a dia é bem puxado e que é preciso muita força de vontade para se tornar um grande jóquei.

– Desde pequeno eu acompanhava meu pai no dia a dia e a paixão pelo esporte me fez virar um jóquei. O turfe é uma grande oportunidade de mudar de vida, mas tem que batalhar muito. Eu acordo todo dia às 4h30 da manhã para estar no trabalho às 6hs. Além disso, ainda preciso estar bem focado na dieta e nos treinamentos. Precisamos nos alimentar bem – com muita salada e sem besteiras – para manter o peso. Aqui na escolinha, se passarmos de 52kgs.

O pai do Bruno já foi tríplice coroado no Jockey Club de São Paulo, com vitórias em três meses seguidos. Mesmo assim, o sonho da nova aposta da família é seguir os passos de um ídolo.

– Disputar um GP Brasil é um sonho pra qualquer um. Mas o meu maior sonho é me tornar um grande jóquei e montar fora do país. Meu maior ídolo é o J. Moreira e ele monta em Hong Kong – falou Bruno sobre o jóquei João Moreira, paranaense radicado em Hong Kong, mas que já correu nos Emirados Árabes, na Austrália e em Cingapura.

O pernambucano Leandro Henrique é outro que viu no turfe uma oportunidade de mudar de vida: saiu da comunidade de Cordeiro, no bairro do Prado, em Recife, e mudou pro Rio. Começou a montar pôneis aos nove anos, ainda em Recife. Aos 13, passou para os cavalos e foi se destacando. Com 16 anos, mudou para o Rio de Janeiro e entrou na Escola de Aprendizes de Jóquei, onde ficou até os 17.

– Eu até tenho um tio que era jóquei, mas foi meu pai que me apresentou o esporte. Ele me levava desde pequeno para assistir às corridas. O turfe é muito importante na minha vida. Como em Recife ele não é muito forte, acabei vindo pro Rio e deu tudo certo. Aqui, a maioria dos jóqueis vêm de origem humilde mesmo, porque é um jeito de mudar de vida. O pessoal de dinheiro é quem tem os cavalos e os haras, mas quem monta, normalmente, é de família carente – lembra.

Hoje, L. Henrique, como é conhecido no mundo do turfe, tem contrato assinado com dois haras, mais de 520 vitórias no currículo e já teve até a experiência de correr fora do Brasil. Ele vai montar o cavalo Emperor Roderic no GP Brasil de Turfe deste domingo. Mas diferente de Bruno Queiróz, ele quer se consolidar no Brasil antes de partir para corridas internacionais.

– No final do ano passado, em dezembro, eu viajei para a China. Foi uma experiência muito boa pra mim, mas ainda quero ficar no Brasil por um tempo. Mais pra frente, eu penso em me mudar, mas não sei nem com que idade isso – falou.

Aos 21 anos, Wesley Silva Cardoso já é uma realidade no turfe brasileiro. De uma família humilde de Magé, interior do Rio de Janeiro, ele entrou na Escola de Aprendizes de Jóquei aos 15 anos e ficou até os 18, quando virou jóquei profissional. Hoje, W.S. Cardoso, como é conhecido, já tem quase 500 vitórias no currículo e uma vitória no GP Brasil de Turfe de 2016. Com essa vitória, faturou R$80 mil e investiu na sua família.

– Eu investi na casa da minha mãe mesmo. Comprei dois terrenos ao lado da casa dela, em Magé. E ainda consegui comprar um terreninho em Arraial do Cabo, aonde construí uma casa de praia pra minha família – lembra ele que vai montar o cavalo Orange Box no GP Brasil deste ano.

Desde criança, Wesley sempre foi um apaixonado por cavalos. Mas foi o seu pai que teve a ideia de colocá-lo na Escola de Aprendizes de Jóqueis, graças ao medo do menino se aventurar sozinho em cima dos cavalos.

– Sempre gostei de cavalo, vaqueada, rodeio e essas coisas. Mas cavalo de corrida eu nunca tinha visto. Meu pai fazia frete com a Kombi perto do Jockey Club, viu os treinos dos jóqueis e entrou em contato com o pessoal da Escola de Aprendiz. Tentei entrar no primeiro ano, mas não consegui. Na segunda vez, entrei, mas não sabia nada sobre turfe. Fiquei 2 anos dentro da escolinha, aprendendo e depois virei profissional – detalha.

A empresa Pari Mutuel Urbain, conhecida como PMU, é a maior gestadora de apostas da Europa e a responsável pelo gerenciamento das apostas do Jockey Clube Brasileiro, no Rio de Janeiro. No ano passado, foram quase R$ 200 milhões em apostas. Muito dinheiro que ajuda não só os apostadores vencedores, mas também todo mundo que vive das pistas de cavalo no Brasil.

– A PMU trouxe o seu modelo quase centenário de sucesso para o Brasil, um grande mercado esportivo em potencial, especialmente no segmento das corridas de cavalo. O negócio de apostas hípicas gera os recursos essenciais à manutenção e desenvolvimento da atividade, num ciclo virtuoso que proporciona benefícios a toda indústria do cavalo, gerando empregos e contribuindo para o turfe nacional – explicou Joseph Levy, CEO da empresa.

Mesmo os meninos que não se tornam jóqueis profissionais podem se manter no mundo do turfe. Claro que o sonho de todos eles é continuar montando seus cavalos, seja no Rio ou em outro lugar do mundo. Mas a oportunidade de mudar de vida continua aí para todos.

– O hipódromo da Gávea é o maior e mais disputado de todo Brasil, então apenas os melhores profissionais ficam aqui. Mas os meninos podem ir montar em São Paulo, em Curitiba, Em Recife, no Ceará, onde os hipódromos são menores. Além disso, quem não vira jóquei profissional, pode ser rediador. Essa é uma função que trabalha os cavalos nos treinos, mas nunca nas corridas. Eles também podem ser treinador ou trabalhar nas cocheiras de cavalo – completou Juliana Dias.

O 86º Grande Prêmio Brasil acontece neste domingo, dia 10, das 11hs às 00hs, no Jockey Club Brasileiro. Serão 20 cavalos em uma das corridas mais disputadas dos últimos tempos. A entrada é franca e o evento ainda contará com um food truck park e shows de MPB, jazz e rock. O Jockey Club Brasileiro fica na Praça Santos Dumont, 31, Gávea – Rio de Janeiro.

Fonte: Globoesporte

 

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