Por Fora
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Notícias

9 de janeiro de 2016

Crise no Jóquei Clube de Goiás

As famílias que vivem nas casas contíguas às baias no Hipódromo da Lagoinha estão vivendo dias de desespero com a falta de energia elétrica após a administração deixar a Celg cortar o fornecimento. Sem água para as casas e também para bombear água para as caixas d’água o terror se instalou no local.

São cerca de 50 famílias que estão sofrendo mais uma consequência do abandono que já virou marca registrada no Jóquei Clube de Goiás, desde que administradores inescrupulosos negociaram com a Faculdade Padrão a cessão de direitos sobre a sede do clube. “Estamos sem energia durante toda essa semana, alimentos se perderam em nossas geladeiras e não tem energia para bombear água. Isso é um desrespeito muito grande”, reclama o treinador Raimundo Mourão de Lima.

Desde a manhã de segunda-feira, quando os técnicos da Celg cortaram o fornecimento de energia elétrica para o Hipódromo eles têm tentado soluções alternativas, sem sucesso. Nem mesmo podem pleitear instalação de padrão individual para que cada casa ou baia possa ter energia de forma independente, sem depender da administração que os abandonou.

A tapera de luxo que se transformou o Hipódromo da Lagoinha é um retrato pronto e acabado do que se transformou o Jóquei Clube de Goiás, outrora elitista e aristocrático, agora decadente, falido e abandonado. As baias ainda abrigam aproximadamente 150 éguas e cavalos que não podem deixar as instalações do Hipódromo desde meados do ano passado quando foram informados casos de mormo, doença infecciosa de equinos.

Uma viatura da Agrodefesa fica permanentemente na entrada da alameda onde ficam as baias para impedir a entrada ou saída de animais. Mesmo essa ocorrência de mormo é contestada por proprietários e cavalariços, que consideram equivocados os diagnósticos e veem o caso como manobra para aumentar a pressão para retirar tudo dali.

Abandono – Aos 72, Raimundo conta sua história de 53 anos no local

Raimundo Mourão de Lima, em seus 72 anos, conta que chegou para o local há 53 anos, quando ainda era um jovem cavalariano, aspirante a jóquei. Seu biotipo favorecia a prática do esporte e ele se tornou um dos principais montadores do Jóquei. Seu pai era proprietário de cavalos e um dos primeiros sócios do clube. Desde 1982 ele passou a residir no Hipódromo, em uma das casas destinadas a treinadores, que fica contígua às baias. Hoje ele ainda treina alguns animais, mas prefere deixar o ofício para o genro, José Rodrigues.

Aliás, José Rodrigues é um dos questionadores de que a onda de mormo possa ser armação para fazer “a gata parir” com eles do local. A expressão é regionalíssima e significa que quem ocupa o espaço será forçado a abandonar o lugar onde está instalado por quem usurpa seu pedaço. “Quem disse que esses animais estavam ou estão com mormo sabe tanto da doença quanto os próprios animais”, critica ele.

A égua Safari Play Girl, uma bela alazã de sete anos que já ganhou importantes provas de laço e dos três tambores agora está sendo preparada para se tornar reprodutora. Pois, ela foi uma das primeiras vítimas da desfaçatez de atribuir um diagnóstico a um animal que quase lhe mandar para o sacrifício. Hoje, depois que exames negativos derrubaram a acusação nefasta ela exibe uma saúde considerável e docilidade, talvez já se preparando para a maternidade.

“Um cavalo com mormo tem a fossa nasal estourada e sai secreção fedorenta, de pus mesmo, coisa que nenhum animal aqui apresentou. Essa história de mormo é alguma denúncia infundada para prejudicar criadores, proprietários e treinadores aqui. Querem o local e para isto precisam colocar as famílias e cavalos para fora”, critica duramente Raimundo Mourão de Lima, com aval de José Rodrigues.

Descumprimento – Treinadores precisam retirar água de poço com cordas para não deixar animais à míngua

Os problemas do Jóquei Clube começaram com a desavergonhada administração de gestores que negociaram de forma fraudulenta a cessão do direito de uso da sede social plantada em quase um quarteirão inteiro no centro de Goiânia, com frente para a Rua 3 e fundos para a Avenida Anhanguera.

Picaretas negociaram com o empresário Walter Paulo, dono da Faculdade Padrão e embolsaram um bom dinheiro para entregar o patrimônio dos joqueanos, que foi doação do Governo do Estado, na época do interventor Pedro Ludovico Teixeira. Walter Paulo assumiu o compromisso de manter em funcionamento o Hipódromo da Lagoinha, pagar os salários dos funcionários e zelar pelo patrimônio do local. Não fez coisa alguma. Abandonou o hipódromo para que virasse a tapera que está hoje, não pagou funcionários e não paga também a energia elétrica.

O Hipódromo da Lagoinha ocupa uma área de 14 alqueires – 677.600 metros quadrados – plantada em um local nobre de Goiânia, margeando setores como Sudoeste, Coimbra, Canaã e Rodoviário. Seu terreno foi doado para o Jóquei Clube fazer o espaço destinado a preparação de cavalos e provas de turfe. O governador de então, Jerônimo Coimbra Bueno, cedeu o espaço sem saber que seria esbulhado pela pilantragem que tomou conta do Brasil.

Os tratadores, treinadores, cuidadores, moradores, sofredores, precisam fazer força para retirar água do poço se valendo de cordas e baldes para suas casas e para dar de beber para os cavalos. Enquanto isto ninguém é cobrado quanto ao abandono e chama à responsabilidade quem precise cumprir com suas obrigações.

Fonte: DM – Hélmiton Prateado

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