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Daniel Borja, presidente da Associação, com o cavalo Abusado da Santa Esmeralda: "Andar em um mangalarga é como se a gente pegasse um carro de alto luxo e andasse o dia inteiro nele" (foto: Studio Cerri/Divulgação)

10 de agosto de 2017

Conheça Daniel Borja, presidente da ABCCMM

A raça Mangalarga Marchador nasceu no Sul de Minas há mais de 100 anos. Desde então, deu passos firmes rumo ao crescimento. Nos últimos dois anos, contudo, a expansão do mangalarga acontece a galope. Os números são de impressionar: faturamento superior a 150 milhões de reais em leilões da raça e cerca de 2,5 mil novos criadores por ano cadastrados na associação (ABCCMM).

Perto de 200 eventos da raça acontecem todo ano em algum canto do país. O mais recente desses eventos, a 36ª Exposição Nacional do Cavalo Mangalarga Marchador, realizada no Parque da Gameleira, em BH, encerrou-se no dia 29 de julho com saldo de fazer inveja: recorde de inscrições, público e negócios. O que antes era uma exposição de cavalos de raça tornou-se hoje a maior feira agropecuária (exclusiva de animais) da América Latina.

Depois da queda nos preços dos bovinos de elite (como nelore, guzerá e gir leiteiro) e com o declínio de outras raças de cavalo (como pampa e campolina), o cavalo Mangalarga Marchador vem se tornando a nova vedete da pecuária brasileira. O plantel da raça, a maior de equinos na América Latina, já soma 600 mil animais no Brasil e a maior concentração é em Minas Gerais, que conta com 214 mil. Por trás desse crescimento estão alguns fatores. Em primeiro lugar, claro, a paixão do brasileiro por cavalos. Em segundo lugar, as características próprias dessa raça: elegância, docilidade e a marcha macia.

Por fim, um terceiro fator tem sido decisivo: o estilo e a maneira de gerir a entidade imposta pelo mineiro Daniel Borja, que há um ano e meio assumiu o posto de presidente da associação. Dinâmico e carismático, Daniel protagonizou um feito aparentemente simples, mas nem tanto: uniu a raça. Hoje, ele é quase unanimidade entre criadores. Entre seus feitos, está o de abrir a “caixa-preta” da entidade. Balanços passaram a ser auditados e publicados no portal. Problemas de criadores, antes resolvidos no “jeitinho”, passaram a ter tratamento uniforme e com regras claras. “Estou aqui para fazer a raça crescer, com absoluta transparência”, diz Borja. Na sede da entidade, divisórias fechadas foram trocadas por vidros. “Qualquer associado que entra aqui hoje vê quem está trabalhando”, afirma. “Fiz um choque de gestão.”

Desde quando assumiu, tem rodado o Brasil inteiro em eventos para promover a raça e estimular médios e pequenos produtores. O resultado do empenho veio nos números. A entidade tem hoje 14 mil associados, sendo 45% em Minas Gerais, o berço da raça.

Com o tema “Mangalarga Marchador,  o Cavalo do Trabalho e do Lazer”, a 36ª Exposição Nacional quis mostrar que o animal cresce não só para cavalgadas, como também na lida no campo. Os julgamentos foram transmitidos pelo portal ao vivo com comentários de técnicos, especialistas e criadores renomados. Quase 1 milhão de internautas acessaram o portal durante o evento, e as visualizações foram feitas em mais de 40 países, como Austrália, Nova Zelândia, Estados Unidos, Portugal e França.

A empresária e fazendeira Cristiana Gutierrez, dona do haras Morada Nova, em Inhaúma (MG), levou 15 animais ao evento e saiu com 18 premiações em mãos, além do título de terceira melhor criadora e expositora. “A exposição superou as expectativas, tanto de público como de estrutura e qualidade da tropa”, afirmou. “A cada ano tem se tornado um evento mais grandioso.”

O advogado Marcelo Tostes, proprietário do haras M.tostes, em Itabirito (MG), onde tem plantel de cerca de 100 cavalos, destaca a gestão inovadora de Daniel, focada na organização. “A prova disso é o sucesso da exposição, não só na qualidade, como no volume de pessoas”, diz. Tostes foi quase todos os dias à Gameleira, acompanhado das filhas e sobrinhos. “O evento uniu a qualidade da raça com o conforto para a família, com boa estrutura, como restaurantes e banheiros limpos”, afirma. Dos oito animais que levou, três saíram premiados.

Ao contrário do presidente anterior, que privilegiou as exportações do cavalo, Daniel Borja acredita que o tempo é de valorização do mercado interno e expansão territorial da raça.

“Acabei com o patrocínio e investimento da associação no exterior”, afirma. As exportações da raça, tipicamente brasileira, sofrem com as barreiras sanitárias impostas pela Europa e EUA. “Além disso, o custo de exportação de um cavalo fica em torno de 30 mil a 40 mil reais, o que inviabiliza o negócio”, diz Daniel, que reconhece a importância do mercado externo, mas no momento adequado.

O foco da associação nos próximos anos será o de adentrar pelo Brasil e promover iniciativas para divulgar a raça, por meio do projeto batizado Avante Marchador. Neste ano serão 200 eventos, 20% a mais do que em 2016. “Estamos participando de mais exposições, leilões e copas de marcha em cidades e regiões do Brasil em que o mangalarga não era tão forte e divulgado”, afirma Daniel. A concentração maior da raça é no Sudeste. A associação tem tentando expandir o plantel no Norte e Centro-Oeste, em estados como Goiás, Mato Grosso, Pará e Rondônia. “São lugares onde há muito espaço para crescer. Por isso estamos fazendo novos eventos”, diz o presidente. Só no Mato Grosso já foram vendidos mais de 250 animais no período de um ano.

Na exposição, estiveram presentes criadores de norte a sul do Brasil, que se disseram impressionados com a dimensão da estrutura montada na Gameleira. “Daniel conseguiu elevar o patamar do evento para um nível europeu e norte-americano”, afirma o empresário e pecuarista Maurício Zacarias Constâncio Filho, proprietário do haras MZC, em Tanguá (RJ), estado onde se concentra o segundo maior polo de mangalarga no país. Maurício tem bagagem para comparar, já que visita anualmente exposições da raça no exterior.  Ele se destacou entre os cinco melhores expositores e levou seis prêmios no evento. Um dos xodós de seu haras, o Kamikaze MZC, avaliado em 2 milhões de reais, foi campeão nacional de marcha. Vice-presidente da associação, Maurício cria mangalarga há 16 anos e tem atualmente cerca de 500 cavalos no plantel. “Daniel está preparado para assumir qualquer cargo, tanto em empresa como em órgão público”, diz.

Os criadores novatos aproveitaram o evento para trocar informações e aprender técnicas. “Temos de investir na qualidade do animal, com técnicas de adestramento que melhorem o deslocamento. A boa genética sozinha não adianta”, acredita o servidor público Pedro Thiago, que esteve pela primeira vez na exposição. Ele é dono do haras Ravizom, em Nova Friburgo (RJ), onde tem 20 cavalos. “Ficar entre os classificados finais nas provas é um desafio. O nível dos animais é muito elevado”, diz.

Para estimular pequenos e médios produtores, a associação tem dado ajuda aos núcleos que fomentam cavalgadas, dia de campo, exposições, feiras, festas e leilões. “Temos feito ainda as Copas de Marcha em várias cidades. O evento dura um dia só e geralmente tem 14 categorias de competição, com acesso do pequeno criador”, diz Daniel.  Alguns campeões nacionais vieram desses pequenos. “Para o cavalo não tem regra. Tem muito criador menor com animal que é campeão nacional”, afirma.

Outro projeto é a genética campeã, que consiste em levar garanhões disputados a pequenos criadores que não têm condição de comprar cobertura de cavalos bons, que é doada pela associação. “A genética campeã dá ao pequeno e médio criador a oportunidade de usar um garanhão de alto nível e melhorar a tropa deles”, diz Daniel.

Hoje a raça cresce como nunca e não existe crise. “O mangalarga foi eleito o cavalo das cavalgadas, que são cada vez mais numerosas no Brasil”, afirma Daniel. O cavalo é indicado ainda na equoterapia para crianças e adultos excepcionais. “Vemos crianças que começam a rir, mudam a postura e os movimentos quando montam nos cavalos. Os resultados são sensacionais”, afirma Daniel.

A rotina estressante das cidades grandes, diz Daniel, tem levado um cada vez mais pessoas a comprar cavalos. “Chega o fim de semana e a pessoa quer lazer, um hobby. A cavalgada dá prazer, contato com a natureza.” Ele faz uma comparação. “Tem gente que gosta de andar de moto, de passear de carro antigo ou ir para uma cidade do interior tomar vinho. Outros vão fazer cavalgadas.”

A comodidade do mangalarga é a grande aliada. “Andar em um mangalarga é como se a gente pegasse um carro de alto luxo e andasse o dia inteiro nele”, diz Daniel. Ele explica que o que vale na raça é beleza morfológica, marcha e comodidade. “A cor é só um detalhe, não tem classificação.” E desmistifica a crença de que cavalos de raça são caros e inacessíveis. O valor hoje começa em 2 mil reais. É claro que alguns espécimes podem custar milhões de reais. O mais caro da raça no Brasil está avaliado em 8 milhões de reais e fica numa central de embriões, em São Paulo. Uma cobertura desse cavalo chega a 20 mil reais. Um animal como esse costuma ter um “personal horse” 24 horas por dia.  Mas o custo médio para manter uma baia em Belo Horizonte vai de meio a um salário mínimo por mês, incluindo a alimentação.

Empresário nato do ramo de hotelaria e loteamento, Daniel tem 44 anos e é o mais novo presidente da associação. Neto e filho de vendedores, ele afirma que a habilidade de vender o acompanha desde o momento em que nasceu. “Está no DNA”, brinca. De jeito simples e informal, ele consegue conciliar bem a vida empresarial e a gestão na associação, onde está sempre presente, com as portas abertas para ouvir criadores. Bem diferente de seu antecessor, Magdi Shaat, que ficou na presidência por oito anos. Magdi também contribuiu para o crescimento da raça, mas tem uma personalidade fechada e controvertida, o que ajudou a dividir a entidade.

Atualmente, todas as decisões na associação são tomadas pelo colegiado. “Daniel é muito maleável, todo mundo da raça gosta dele”, afirma o empresário Adolfo Géo Filho, diretor financeiro da associação e criador do mangalarga há 40 anos. O seu haras, o Santa Esmeralda, em Paraopeba (MG), tem cerca de 700 cavalos e bateu recorde em valor comercializado em um só leilão na exposição, com vendas de 7,6 milhões de reais.

A fazendeira Georgina Penna Costa também saiu vibrante do evento. Seu haras, o Serra Bela, em Minduri (MG), levou seis premiações. “Os títulos valorizam muito nossos animais, que são preparados o ano inteiro para chegar até aqui. É como se fosse uma Copa do Mundo”, diz.

A exposição reuniu lazer, entretenimento, boa gastronomia e ainda os melhores cavalos de sela do país. O número de restaurantes cresceu 40% em relação a 2016, o que dá uma boa dimensão do incremento de público. Foram fechados negócios da ordem de 25 milhões de reais, contra 20 milhões no ano passado. A gerente da Boutique do Marchador, Luana Cordeiro, comemorou as vendas 30% maiores do que em 2016. A novidade da loja neste ano foi a linha infantojuvenil. “O criador é apaixonado por cavalo e quer transmitir isso aos filhos”, diz.

É o caso do empresário e fazendeiro Crisantino Borém, do Haras dos Claros Montes, em Montes Claros, no Norte de Minas, que fez questão de estar acompanhado da mulher, Cátia, e dos filhos, Crisantino e Luiza. Eles viram o haras da família ganhar mais de 30 troféus nas provas de esporte, com 10 animais. Foi um dos mais premiados na exposição e levou mais de 10 mil reais pelas colocações. “O nível técnico dos competidores aumentou”, afirma Crisantino. “O Daniel se preocupa não só com a gestão administrativa, como também com o bem-estar do animal e dos tratadores.”

O empresário Breno Pinho veio de Itabuna (BA) para a exposição acompanhado da mulher, Mayara Fonseca, e da filha, Maria Clara, de 1 ano. Ele cria 400 cavalos no Haras Teimoso e frequenta o evento há 15 anos. “Este ano está fantástico, com muita opção de lazer e gastronomia para a família”, diz. “A nossa filha é apaixonada por animais e está adorando”, afirma Mayara, que foi pela primeira vez à exposição. A criançada se divertiu mesmo. Bianca Bisco Patrus foi três dias ao evento com os filhos, os gêmeos Agostinho Célio e Antônio Patrus, de 4 anos. O marido, o deputado estadual Agostinho Patrus Filho (PV), é criador de mangalarga no Haras Luxor, em Caeté. “Adoro o evento. Reúne espaço para as crianças, bons restaurantes e exposição do cavalo”, diz o deputado. Na minifazendinha, os gêmeos aproveitaram alguns dias de férias para curtir os animais e os brinquedos. “É ótima opção para sair de casa nesse período”, diz Bianca.

Daniel Borja tem haras em Arcos, na região Centro-Oeste de Minas, onde cria 200 cavalos mangalarga. Mas confessa que não tem tido muito tempo para seu maior hobby: cavalgar na fazenda, a Canto da Siriema. “Assumi um desafio na associação e quero fazer o meu melhor”, afirma. Em seu haras, o trabalho do presidente da associação também reluz. Lanceiro da Siriema ganhou dois prêmios, como reservado campeão nacional de marcha e categoria cavalo maior, que avaliam beleza e andamento. O valor estimado do animal é de 800 mil reais. Criador há 25 anos, ele conta que gosta do mangalarga desde criança. Foi estimulado pelo pai, Livingstone Borja, ao ganhar de aniversário um exemplar da raça de cor branca e nome Gavião. “Foi uma das minhas maiores alegrias”, diz.

Se a chegada de um novo “amigo” traz alegria, a partida é lamentada. Há oito anos, Daniel comprou um marchador pampa preto por 80 mil reais, o Canário do São Lourenço, para ser pago em 10 prestações mensais. O animal fez a cobertura de uma égua e depois de 20 dias no seu haras morreu devido a um rompimento do intestino. “Cheguei ao veterinário chorando muito, mais pelo cavalo do que pelo dinheiro”, diz. Mas o Canário deixou uma boa herdeira, a potrinha Canária da Siriema. Anos depois, a metade do animal foi vendida por 80 mil reais e ela é hoje uma das “cabeceiras” (expressão dos criadores para se referir aos melhores da raça) do seu haras. “O cavalo é uma paixão. Choramos por alegria e tristezas”, afirma.

A gestão estruturada na associação e nos negócios permite a Daniel dedicar-se a uma outra paixão: a família. Sempre que está na capital, leva à escola os filhos Daniel, de 6 anos, e Bernardo, de 3. “Apesar de viajar muito, ele é pai e marido presente”, afirma a mulher, Juliana Figueiredo de Oliveira. Antes de assumir a presidência da associação, ele teve o cuidado de negociar em casa sua nova rotina. “Está valendo a pena. Acompanho o tanto que ele tem feito pela raça”, diz Juliana. Ela e os filhos também são fãs do mangalarga. O uniforme de Bernardo quando não está na escola é calça jeans e bota. “Ele é alucinado por cavalo e não tira essa roupa nem quando está muito calor”, conta Juliana.

Daniel quer ter seu trabalho reconhecido pelas novidades trazidas para a raça, grandeza dos eventos, transparência e união da equipe da associação. “As pessoas têm prazer de trabalhar aqui”, afirma. “Sou novo, está na hora de trabalhar muito e promover a raça.” A julgar pelos números da 36ª exposição, o trabalho está sendo reconhecido.

Fonte: Revista Encontro

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