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Julia Furtado Fletcher compete desde criança na modalidade três tambores — Foto: Arquivo pessoal/Divulgação

20 de abril de 2019

‘Conexão com o cavalo é o segredo da vitória’, diz competidora de três tambores

Um amor à primeira vista. É assim que a amazona Julia Furtado Fletcher, de 22 anos, define o que sentiu quando viu, com apenas 7 anos, a égua Miss Bill Diamond pela primeira vez.

“Na hora que a vi andando toda elegante e fogosa, fiquei apaixonada”, lembra a ribeirão-pretana ao falar do animal, que, desde então, é seu fiel companheiro nas competições de três tambores, working penning e team penning.

As duas colecionam títulos nas arenas de rodeio do Brasil e do exterior, como as vitórias no Ribeirão Rodeo Music 2018, evento no qual a dupla espera repetir os resultados na edição deste ano.

“Temos a oportunidade de apresentar nosso trabalho, nos superar e ainda nos divertir muito, ganhando ou perdendo. Meu sonho é ser feliz com os cavalos que tenho, continuar montando e competindo, e espalhar a metodologia que aprendi para lidar com eles: sem violência e tendo o coração como guia”, afirma Julia.

Amor sem igual

A paixão por cavalos e torneios começou meio que por acaso, quando seu irmão, com apenas 2 anos, pediu ao Papai Noel um cavalo e ganhou um de pelúcia. Desapontado, o menino se uniu à irmã, então com 5 anos, para convencer o pai que eles podiam ter um animal de verdade. Após um ano de pedidos insistentes, acabou cedendo.

O potro Sunny foi apresentado às crianças e foi nele que Julia aprendeu a montar e viu despertar seu gosto pela atividade. Mas foi quase dois anos depois, que uma nova adesão da família conquistou de vez o coração da menina.

“Desde pequena, gosto de correr, de velocidade e de adrenalina. E na hora que olhei para a Miss Bill, notei nela essas qualidades. Ela sempre foi muito rápida”, conta a amazona, que encontrou no animal “o amor de sua vida”, como ela mesma define.

Como toda história de amor, a relação passou por altos e baixos e quase teve um ponto final. Após quatro anos competindo e colecionando vitórias, a égua sofreu um acidente e quebrou o maxilar, ferimento que modificou sua personalidade, deixando-a muito hostil e com dificuldades de treino.

Nos rodeios, ela passou a ser temida e sua agitação a tornava indomável dentro da arena. “Foi desesperador vê-la machucada. Meu medo de perdê-la foi muito grande, porque ela é um membro da família”, diz Julia.

Aprendizados

Mas Julia nunca desistiu. Pelo contrário, ela foi atrás de entender o que estava acontecendo com sua companheira e acabou aprendendo, definitivamente, uma valiosa lição: a necessidade de se conectar com a égua.

“Aprendi que temos que respeitar o animal, não bater de frente com ele. Precisamos compreender sua linguagem e passar o que queremos com amor, carinho e paciência. Tudo tem seu tempo. Precisamos deixar de lado o ego e a necessidade de controle humano e nos dedicar a ter mais conexão com o animal”, ensina.

É a essa filosofia que Julia atribui o bom desempenho nas competições. Ao descobrir a importância dessa forma de lidar com os animais, a jovem passou a realizar vários treinamentos, dentro e fora do Brasil, a fim de melhorar sua relação com a égua e com outros cavalos que também a acompanham nas competições.

Entre os cursos, ela destaca a “doma racional”, ministrado por um dos discípulos de Monty Roberts, seu grande ídolo. Ele ficou conhecido como “o encantador de cavalos” devido a sua metodologia e foi condecorado pela rainha Elizabeth II por propagar um método de doma sem violência.

Maus-tratos

Tais aprendizados garantem que seus treinos e competições sejam sempre praticados com base no vínculo criado com os cavalos e na compreensão que eles são animais delicados, que necessitam muito mais “que apenas ração e feno”, como Julia faz questão de ressaltar.

Questionada sobre a existência de maus-tratos em rodeios, alegação levantada por muitos críticos ao esporte, a amazona garante que, nos vários anos de competição, não foi isso que vivenciou.

“Todos os animais de rodeio – cavalos, gado e outros – são muito bem tratados, com controle de exames, transporte correto e alimentação regulada. Na minha experiência, quem critica não sabe e nem convive com os animais. Não sabe o tanto que cuidamos deles, investimos e, acima de tudo, temos carinho por eles. Inclusive, se houver maus-tratos durante uma prova ou uma atitude inadequada, o competidor é desclassificado”, explica.

Sucesso nas arenas

Seu desempenho aliado à velocidade de Miss Bill tornou ambas um time quase invencível nas arenas – potencial notável desde a primeira participação delas em três tambores. Com apenas 8 anos, Julia fez o melhor tempo da prova e só não venceu a competição por uma diferença de 1 milésimo de segundo ao ser levada em conta a média dos resultados.

Desde então, a lista de vitórias nunca parou de crescer. Ela foi cinco vezes campeã internacional no Texas, duas em Oklahoma e uma em Gainesville (todas nos EUA e nas competições de três tambores), além de ter representado o Brasil no team penning na Colômbia.

“Essa é uma paixão que, depois que começa, você não quer parar mais, quer sempre melhorar”, destaca, esperando levar mais um título durante o Ribeirão Rodeo Music, onde compete pela Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM).

Para manter o ritmo, ela monta todos os dias treinando team penning, três tambores duas vezes por semana e working penning a cada 15 dias. Assim como ela, os cavalos também passam por uma preparação física e uma escala de revezamento, já que, segundo a competidora, colocá-los em modalidades diferentes ajuda a deixá-los sem estresse.

Fonte: Por Amanda Pioli, G1 Ribeirão Preto e Franca

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