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Instituições em defesa dos animais de grande porte combatem o abandono e resgatam equinos que sofrem maus-tratos

31 de agosto de 2017

Cavalos abandonados ganham novo lar e tutores dedicados

Todo pecuarista sabe bem a importância dos cavalos no campo. Esses animais estão presentes em fazendas de quaisquer tamanhos e são figuras essenciais para manejar o gado de corte e leiteiro. Mas, não apenas isso. O setor não se resume aos cavalos de lida, há milhares de pessoas que nutrem grande paixão pelos equinos e investem na criação destes animais para atividades esportivas, de lazer e turismo. De acordo com o Ministério da Agricultura, a “indústria do cavalo”; movimenta anualmente R$16,15 bilhões e gera 610 mil empregos diretos.

O que muitos não sabem, no entanto, é que fora do agronegócio existe um submundo onde esses animais são desvalorizados. É difícil mensurar a quantidade de animais abandonados em áreas urbanas, estradas, terrenos baldios e cavalos de “carroceiros” que vivem em situação precária. Porém, a boa notícia é que ativistas se dedicam cada vez mais ao resgate de equinos que se encontram em situação de vulnerabilidade.

“Eu comecei a olhar para estes animais, que são invisíveis para as pessoas, e fiquei apavorada com os maus-tratos praticados contra os cavalos de carroça”, diz Fair Soares, fundadora da ONG Chicote Nunca Mais, de Porto Alegre (RS);

Combate aos maus-tratos

Embora o movimento de resgate e adoção seja mais comum para cães e gatos, os animais de grande porte já chamam a atenção da população urbana, com ONGs atuando em diferentes estados brasileiros. Pioneira na atividade de resgate de cavalos, a ONG de Fair Soares está perto de completar uma década de atuação, em 2018, com mais de 200 equinos resgatados.

Em um dos casos atendidos, ela ficou sabendo de uma égua que se encontrava caída na rua. Quando Fair chegou ao local, o animal já estava morto.

“Eu senti ódio. Eu olhei para ela e disse que sua morte não ia ser em vão.”

De acordo com a fundadora, os equinos das ruas geralmente têm que carregar, por diversos quilômetros, móveis, restos de construção e até pessoas em carroças. Quando diminuem o ritmo, devido ao cansaço, são açoitados com chicotes. É esta a realidade que a ONG  Chicote Nunca Mais deseja modificar.

Outro exemplo de ativismo é o trabalho da ONG Santuário Filhos de Shanti, que atua em Taubaté, Pindamonhangaba e Tremembé, no interior de São Paulo. O santuário, que foi fundado por Rosangela Coelho, resgata não somente equinos, mas também aves e cabras que se encontram em situação de risco. Atualmente, há 50 animais no local, dentre eles 6 cavalos.

Na ONG, os animais passam por exames e recebem tratamento, além de muito carinho. A iniciativa de fundar o santuário surgiu após Rosangela resgatar uma égua prenha, desnutrida e ferida, em 2015. “Ali prometi a ela que jamais a abandonaria e que seu filho nasceria livre”, conta. Os cavalos da ONG somente são doados para outro santuário ou para um lar vegano, com o objetivo de garantir que o animal não volte a sofrer maus-tratos e que não seja utilizado para fins comerciais.

Tratamento cuidadoso

Os grupos de ativistas atuam com tamanha dedicação que o reconhecimento é inevitável. No ano passado, por exemplo, a Chicote Nunca Mais foi a primeira ONG a receber o “Prêmio Destaque Veterinário 2016”, do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio Grande do Sul (CRMV/RS). “Isso [o prêmio] tem sido um incentivo para seguirmos cada vez mais estudando e pesquisando novas técnicas para dar qualidade de vida para esses animais”, diz Fair.

A ONG se destaca por cuidar da nutrição e reabilitar o comportamento dos equinos resgatados, sempre com foco no bem-estar animal. De acordo com Fair, os cavalos que sofreram maus-tratos chegam à ONG muito assustados e evitam o contato com humanos. Por isso, é importante fazer com que estes animais voltem a confiar nas pessoas. Especialista em psicopedagogia, Fair desenvolveu um método para reabilitar o comportamento animal. O método envolve a alimentação com frutas que cria uma associação positiva com os seres humanos. “No início eles tinham medo, agora eles adoram”, afirma Fair.

Terapias inovadoras

A ONG Chicote Nunca Mais também desenvolveu métodos para restabelecer as funções físicas dos animais. Os cavalos recebem tratamento com cálcio, por exemplo. Além disso, eles são submetidos à inusitada terapia utilizando piscina de bolinhas, um tratamento criado pelo veterinário da ONG Francisco Gusso. Com essa técnica, o manejo para tratar os cavalos que precisam ficar imobilizados fica mais fácil.

O tratamento torna possível que o ponto de tensão linfático e circulatório do animal mude conforme ele se mexa, mobilidade que a sustentação por talha não permite. Os tratamentos cuidadosos realizados pela ONG estão surtindo efeito. Segundo Fair, muitos cavalos que apresentavam fraturas, problemas de “marcha” e mancavam estão sendo atendidos. Após cinco anos de tratamento, muitos animais voltam a andar sem apresentar qualquer anomalia.

Desafios da atividade

A Chicote Nunca Mais não possui um espaço próprio para abrigar os cavalos que resgatam, e mesmo assim, os equinos não são postos para a adoção. Os interessados em ajudar se tornam tutores do animal, processo no qual a pessoa cuida do cavalo, no seu próprio sítio, mas o animal ainda fica sob a guarda da ONG. Eles também utilizam um serviço de hotelaria, por isso, o apadrinhamento é a forma de captar recursos para manter a atividade, já que a ONG não recebe recursos públicos.

De acordo com Fair, embora a Chicote Nunca Mais enfrente dificuldades financeiras e de logística, o trabalho da ONG seguirá salvando a vida de muitos cavalos. “O meu sonho é que essa ideia da gente se multiplique e que as entidades governamentais prestem atenção à situação dos cavalos, que é uma situação muito fácil de ser resolvida”, afirma.

Para se tornar um tutor, o interessado deve responder a um protocolo e passar por entrevista. Um dos requisitos é possuir uma baia e pasto à vontade para a alimentação do animal. Os candidatos aprovados para apadrinhamento assinam um termo de responsabilidade e devem informar regularmente à ONG o estado de saúde do animal.

Por que os cavalos são abandonados?

As principais causas para os equinos abandonados e os maus-tratos são idade avançada ou fuga do animal, segundo a médica veterinária responsável pelo Setor de Animais Domésticos de Interesse Econômico do Centro de Controle de Zoonose de São Paulo (CCZ), Telma Tavares.

“Animais de cor não são mais difíceis de serem adotados. Animais com deficiência são, pois não podem ser montados”, afirma.

Para Rosangela, do Santuário Filhos de Shanti, uma das principais causas do abandono e maus-tratos sofridos por cavalos é a falta de compaixão por estes animais. “A falta de compaixão, para mim, é a principal [causa]. E em decorrência disso a ausência de leis eficazes que protejam mais os animais e puna seus agressores”, diz.

Outro problema é que, muitas vezes, os animais são rejeitados. De acordo com a Associação Paulista de Auxílio aos animais (APAA), cavalos que apresentam algum problema físico, por conta de terem sofrido abusos como zoofilia, chicotadas, ferragens inadequadas, excesso de carga ou falta de alimento apropriado, são mais difíceis de serem adotados.

“Estes geralmente sofrem preconceito no momento da escolha e acabam as oportunidades de um lar onde sejam amados e respeitados”, afirma a presidente da APAA, Miriam Cabral.

Conscientização

A população pode ajudar a combater a situação de abandono. Denúncias de maus-tratos a animais de grande porte podem ser feitas em delegacias de polícia, com registro de boletim de ocorrência (BO). O denunciante também tem como opção comparecer à Promotoria de Justiça do Meio Ambiente. Em São Paulo, a lei Municipal 14.146/2006, proíbe a circulação de veículos de tração animal e de animais, montados ou não, em vias públicas pavimentadas do Município de São Paulo, excluindo-se os utilizados pela Polícia Militar. A prefeitura de São Paulo recebe denúncias por meio do telefone 156.

Fonte: SFAGRO – Tainá Nunes é trainee de jornalismo, com supervisão de Darlene Santiago

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