Por Fora
das Pistas

Notícias

Nélson Araújo Capão do Leão, RS

16 de julho de 2015

Cavalo crioulo gera mais de 200 mil empregos no Brasil

Na Associação dos Criadores são registrados cerca de 300 mil animais, espalhados Brasil, mas com a maior concentração no Rio Grande do Sul. No setor econômico do cavalo, “a indústria sem fumaça”, como dizem, o crioulo gera mais de 200 mil empregos no país, com renda superior a 1,2 bilhão por ano, segundo pesquisa da Esalq. Mais do que riqueza, a raça gera muita emoção.

No mundo equestre do Rio Grande do Sul, hoje em dia, cavalgar com o crioulo é a atividade que mais se populariza. O gaúcho adora cavoucar suas raízes. Estradear pelo passado…“A doação deste território do Rio Grande do Sul ao Brasil custou muitos esforços e muita batalha, por isso que nós temos esse amor pela nossa terra, nossos cavalos”, diz Carlos Gonçalves, empresário.

Gonçalves é empresário aposentado e tem como hobby conduzir turistas e cavaleiros de fim de semana pela imensidão dos pampas, na confluência com a imensidão das áreas alagadas, chamada de Costa Doce: ponto de maior concentração de lagoas da América do Sul.

O crioulo também leva o turista ao o planalto, alcança os campos de cima da serra. Visita as araucárias. Desfruta dos arroios com suas águas ainda inocentes… Cabeceiras de rios importantes como o Taquari e o Pelotas.

“É um cavalo rústico, que qualquer potreiro que tenha campo e boa água… é um cavalo que de um dia para o outro se refaz. Ele reúne virtudes que são essenciais para cavalgadas, principalmente cavalgadas na natureza”, explica.

Você distingue um cavalo de outro? O que é que faz com que um animal de uma raça pertença àquela raça? O que é faz de um crioulo, um crioulo?

O veterinário Rodrigo Teixeira, superintendente de registro genealógico da Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC), explica.

“O ponto mais importante na distinção entre as raças é a expressão da cabeça. A cabeça do crioulo é triangular, de tamanho médio, orelhas curtas, que lhe dá atenção, o chanfro curto com narinas bem amplas. Comparado a outras raças é uma cabeça delicada, justamente por não ser pautado por extremos”, diz.

O crioulo é de porte médio. As fêmeas com altura de 1,40 m, machos em torno de 1,42m. Casco rijo, aprumo consistente; peito largo e robusto; boa amplitude de costela, o que lhe confere resistência aeróbica e firmeza de sela; posterior musculoso com grande força de arranque; e uma cola abundante, o rabo grosso, denso, marca registrada da raça.

Inteligente, versátil e dócil, mais que tudo, o crioulo é um animal confiável. Um pai não receia trazer a criançada pra equitação. Como faz o criador Marcelo Moglia com o filho Francisco, o Pancho, de sete anos. Pelo menos no meio equestre, filho de gaúcho, gauchinho é.

Pancho inclusive já se arrisca na paleteada, que é arrancar atrás da rês desgarrada e trancar-lhe a frente com a paleta, vamos dizer, o ombro da montaria.

“A gente investiu muito em genética de ponta, importou animais de alto nível”. Marcelo conta que os plantéis de elite do crioulo, hoje derivam da seleção que vem sendo feita por incontáveis gerações.

O pai dele, Paulo Moglia, que já foi presidente da ABCCC, seguiu o trabalho de avós e bisavós, bem como foi assim na família do amigo e historiador da raça, Gilberto Loureiro. “A origem das associações era um cavalo mais pesado e mais levantado e mais compacto”, diz Paulo Moglia.
“Começou a ser valorizado um cavalo importante e que tem uma característica, que hoje é muito importante: a morfologia dinâmica. Ou seja, morfologia a serviço do movimento”, explica Gilberto Loureiro.

O crioulo atlético de hoje é o refinamento de um processo que começou praticamente cinco séculos atrás. Não existiam cavalos no sul Brasil. Quando os europeus começaram a explorar o entorno do rio da Prata, a partir de mil quinhentos e pouco, vieram as primeiras levas, principalmente, de raças desenvolvidas na Espanha, como a Andaluz.

Muitos animais escaparam sendo que a região pródiga em vegetação rasteira. Essas planícies abrigavam quase quinhentas espécies de gramíneas – ambiente perfeito para a reprodução natural.

Numerosas manadas selvagens foram se formando constituindo a base genética do crioulo. “A gente toda a vida trabalhou a cavalo, usou o cavalo para se divertir, a parteira chegava nas estancias à cavalo, o correio era a cavalo, as guerras eram à cavalo”, diz Gilberto Loureiro.

Só em 1.932 é que é fundada a ABCCC. Os gaúchos seguindo os passos de criadores de outros países do cone sul que começaram o registro genealógico bem antes, no início do século vinte.

Só na década de 1970 é que se estabelece o intercâmbio de sangue. O Brasil compra garanhões e matrizes de outros crioulos para o melhoramento genético. “Trouxe do Uruguai a característica marcante da resistência, da argentina a estrutura física e a tipicidade racial e conseguiu buscar no Chile a funcionalidade do cavalo”, avalia o veterinário Rodrigo Teixeira.

As revistas antigas da ABCCC guardam fotos do biotipo que prevalecia setenta, sessenta anos atrás. Campeões de uma época. Era uma cavalo mais parrudo, de frente pesada. Comparado com o modelo atual, é mais leve, mais alongado, mais esbelto, bonito e elegante.

“Na verdade nós compomos um grande cavalo crioulo brasileiro, com essa mescla de sangue. E eu posso garantir, com toda certeza, que hoje nós temos o cavalo mais completo da América”, afirma Teixeira.

A família Moglia coleciona títulos. São mais de 600 troféus. Em Buenos Aires, um grupo de éguas do criador Marcelo Moglia ganhou o campeonato mundial da FICC, a Federação das Associações de Criadores de Crioulo nos países do Cone Sul. É a prova mais importante da raça. “São quase cem mil éguas em todos esses países e nós conseguimos cinco campeonatos lá, entre todas as categorias”, diz Moglia.

No cômodo das honrarias, Marcelo guarda afeição por algo que não é um troféu, propriamente: é o cartaz do filme “O Tempo e Vento”, baseado em livros do gaúcho Érico Veríssimo. Entre os veios narrativos, você pode ver como o crioulo foi fundamental na formação do Rio Grande do
Sul.

Prestando atenção no pôster, abaixo das atrizes Marjorie Estiano e Fernanda Montenegro, quem aparece liderando a cavalaria, ao lado de Thiago Lacerda – que na vida real também é fã do cavalo crioulo – liderando a cavalaria: é o próprio Marcelo Moglia.

Foi na fazenda em Bagé, com a tropa da família Moglia, que rodaram boa parte do filme. Aliás, pra a coleção de curiosidades, quem fez “O Tempo e o Vento”, diretor de muitas novelas da Globo, Jayme Monjardim, também é apaixonado e criador da raça.

“O gaúcho e o cavalo crioulo são peças indivisíveis. Todos os grandes amigos que eu tenho, quem me proporcionou foi o cavalo. Então eu não imagino a minha vida sem cavalo. O cavalo é o ingrediente mais importante e que mais colaborou pra que eu fosse essa pessoa feliz que eu sou”, declara Gilberto Loureiro, historiador da raça.

O cavalo da camperiada, da paleteada, que brilha na esbarrada, na prova de laçada, também conduz o encanto de muita noitada pelo mundo gaúcho. Um grupo de cavaleiros em silêncio cavalga pra presentear os amigos com o canto de um seresteiro.

A música é de quem adorava cavalos: Carlos Gardel, o rei do tango. A letra compara o vício de apostar em corridas com o jogo do amor.

A tradição rio-grandense funde o rural com o urbano, a cultura brasileira com a dos hermanos do Cone Sul.

O cantor, Rodrigo Jacques, é engenheiro agrônomo; Fabiano Bachieri é dono de uma hospedaria de cavalos. Os agraciados, Ivone e Gilberto Alves, vivem numa propriedade de mais de 250 anos: Estância e Centro Equestre do Laranjal, nos arredores de Pelotas. “É um prazer muito grande quando a gente recebe uma serenata, em um cavalo crioulo ainda é perfeito”, declara Gilberto.

Durante a apresentação os cavalos ficam calmos, serenos, como se curtissem o momento também. Parceiros em uma entrega de amizade.

Fonte: Globo Rural

  • Compartilhe
  • <