Por Fora
das Pistas

Acontece

24 de março de 2015

A impressionante memória dos cavalos

Os primeiros cavalos (Equus caballus) foram domesticados há cerca de 6 mil anos e, desde então, esse animal vem desempenhando papeis muito importantes em sua relação com o homem. Mas a capacidade de entender os gestos de seu domador é algo que cientistas só começaram a investigar recentemente.

Até agora, as pesquisas existentes sugeriam que, apesar de os cavalos serem capazes de entender alguns sinais, como quando seu dono aponta para algo, eles só conseguiam aplicar esses sinais quando a pessoa estava posicionada perto da recompensa.

Os cientistas também acreditavam que os cavalos tinham um nível de habilidade semelhante ao das cabras ou dos gatos, que são capazes de atender a gestos humanos mas sem entender seu significado.

Um estudo publicado em 2004 sugeriu que cavalos tinham uma memória curta e talvez não fossem dotados da capacidade de se lembrarem de tarefas que deveriam fazer mais tarde (a chamada memória prospectiva).

Agora um grupo de cientistas da Universidade de Pisa, na Itália, demonstrou que os cavalos não só são capazes de entender os gestos humanos como também podem mudar a maneira como respondem a uma tarefa baseados em suas próprias experiências.

“É algo fácil de entender em humanos, mas não tão comum em animais”, afirma Paolo Baragli, um dos autores do estudo, publicado na revista Applied Animal Behaviour Science. “Se um animal não consegue executar uma tarefa como esperamos, isso não quer dizer que ele não tenha capacidade. Pode ser que ele esteja usando uma estratégia diferente da que esperamos que ele use.”

Os pesquisadores treinaram 24 cavalos adultos de diferentes raças para se aproximarem de um balde emborcado e deslocá-lo para encontrar uma cenoura escondida. Os animais foram, em seguida, divididos em dois grupos iguais.

O primeiro grupo tinha que encontrar uma cenoura colocada sob um dentre três baldes depois de ter visto uma pessoa escondendo o alimento. Os cavalos tinham que esperar dez segundos para o voluntário sair do local e aí tentar encontrar a cenoura.

A mesma experiência foi realizada com os outros 12 cavalos, que tiveram que encontrar o alimento por conta própria, sem a ajuda de um ser humano.

Aqueles animais que viram a cenoura ser escondida acertaram mais na primeira tentativa do que aqueles que não tiveram essa ajuda, apesar de terem levado mais tempo na tarefa.

Mais tarde o mesmo grupo encontrou a cenoura em menos tempo, mas precisou de mais tentativas.

Segundo os autores, isso sugere que os sinais humanos se tornaram menos importantes à medida que os cavalos aprenderam que receberiam a mesma recompensa pensando em suas escolhas ou simplesmente adivinhando.
Instinto de sobrevivência

Em testes posteriores, os pesquisadores também descobriram que os cavalos que tinham visto o voluntário esconder a cenoura tinham mais chances de ir diretamente ao balde onde encontraram comida anteriormente.

Isso indica que os cavalos são capazes de lembrar onde alimentos estão escondidos mesmo depois de um intervalo, ao compreenderem o significado de ter uma pessoa posicionada perto do alvo.

Eles também conseguem mudar sua estratégia de tomada de decisões entre a confiabilidade transmitida pelo sinal humano e uma recompensa mais imediata.

Isso quer dizer que eles sabem escolher se querem ou não usar os sinais humanos, dependendo se preferem ser mais rápidos ou mais precisos.

Baragli afirma que essas habilidades cognitivas são essenciais para a sobrevivência desses animais, mais até do que capacidades mais elaboradas.

“Este estudo é o primeiro a demonstrar que cavalos são capazes de tomar uma decisão baseados em informações obtidas por estímulos ambientais (o homem), e conseguem mudar sua estratégia comportamental baseados em sua própria experiência para resolver o mesmo problema de uma maneira mais rápida”, explica Baragli.

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.

Fonte: Zoe Gough – da BBC Earth

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